Zona Oeste e seus mistérios

Apesar dos meus pais serem cariocas, eu e meus irmãos somos todos paulistanos, born and raised com orgulho em São Paulo. Tirando os momentos em que quero largar tudo e ir morar no meio do mato – o que tem acontecido com bastante frequência nos últimos tempos -, eu amo ter nascido em SP, amo mesmo. E muitas vezes sou bem clichê; amo andar à pé no centro antigo, atravessar a Paulista na chuva (menos a esquina da Paulista com a Augusta, que está no meu top 5 de lugares que mais odeio), caminhar pela cidade no inverno, quando o vento é bem frio, mas  o sol é bem quente, gosto muito chegar de viagem à noite e poder ver o contraste entre o escuro do céu com as luzes dos prédios, olhar para cima e me sentir bem pequenininha no meio da imensidão da cidade grande.

Andar à pé pela cidade é uma das coisas que mais gosto de fazer, “caminhando contra o vento sem lenço, sem documento”, assim, que nem Caetano. Mesmo tendo tirado a carta de habilitação, o carro é de longe o meio de transporte que menos gosto. Então, acumulei anos e anos de experiência pelas calçadas da cidade. Porém, mesmo com toda a minha vivência ~das ruas~, eu nunca consegui entender muito bem a divisão dos bairros de São Paulo.

Eu moro na Zona Oeste desde bebê, e estou na casa em que moro hoje há mais de quinze anos, o que me dá uma boa vivência pelos bairros da ZO. Moro na Lapa, minha mãe trabalha em Perdizes (ou será Pompéia?), já morei na Vila Leopoldina, estudo na USP, no Butantã, frequento muito Pinheiros, fazia terapia na Dr. Arnaldo, já caminhei muito pela Vila Madalena, posso andar de olhos fechados pela Heitor Penteado e ficar ok. Posso afirmar que conheço bem grande parte da Zona Oeste paulistana, mas mesmo assim tenho muitas dúvidas. Já perguntei para várias pessoas mais entendidas de direção que eu e continuei com muitas questões. Parece mesmo que a divisão de bairros é realmente um grande mistério. Pensando nisso, separei minhas maiores questões para expor aqui.

A Zona Oeste de São Paulo é composta por três grandes bairros e cada um desses bairros são administrados por uma subprefeitura. As três subprefeituras administram toda a região. Os bairros são:

  • Lapa
  • Pinheiros
  • Butantã
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olhem como tudo ainda parece claro e fácil de compreender

Até agora parece simples, mas com um olhar mais apurado é fácil perceber a bagunça que é essa região paulistana. Vamos começar pelo primeiro grande bairro, a Lapa.

Sou lapeana há mais de quinze anos, a maior parte da minha vida eu morei nesse bairro, mas mesmo assim tenho tantas duvidas que parece que sou recém-chegada. Minha casa, por exemplo, para alguns pode ficar situada na Vila Romana, mas é só andar poucas quadras que estamos no Alto da Lapa, ou se formos na direção contrária, posso chegar na Vila Ipojuca. A Lapa é conhecida por ser confusa. Aqui é onde as ruas fazem curvas, bifurcam, dão uma volta e permanecem sendo a mesma rua. Se eu sair de casa, descer a rua e virar à direita, estarei na Vila Romana, mas se eu seguir pela rua e virar novamente à direita, vou entrar na Vila Ipojuca, e tudo isso sem sair da mesma rua! Não é confuso? Por que não simplificar e chamar tudo de Lapa? Afinal, a Vila Romana é nada mais do que um conjunto de ruas cujos nomes tem alguma relação com o Império Romano, por exemplo: a rua Tito, rua Coriolano, rua Crasso, Espártaco, Aurélia e por aí vai. Mas o nome da minha rua não tem a menor relação com Roma, será por isso que não moro na Vila Romana? Qual será o real critério para essa divisão?

A Lapa tem outros mistérios: o Sesc Pompéia, por exemplo. Algum desavisado poderia supor que fica localizado na Pompéia, mas ele fica na rua Clélia, que ainda é Lapa. Falando em Pompéia, eu ainda não estou convencida de que esse bairro realmente exista. Para mim ele é pura invenção, obra de alguma teoria da conspiração. Metade dele é Lapa e a outra metade é Perdizes, Pompéia mesmo é só o nome da avenida.

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Zona Oeste: não vejo nenhum bairro chamado Pompéia!

Logo após o Sesc Pompéia, a rua Clélia acaba e começa a Avenida Francisco Matarazzo, que vai até o Elevado e a São João. Mas antes do centro, a Francisco Matarazzo ainda é Zona Oeste, mas em que bairro que ela fica? É Barra Funda? Água Branca? Afinal, Água Branca é realmente um bairro ou só o nome daquele parque? Em alguns lugares a Barra Funda é classificada como centro de São Paulo, mas deve ser apenas intriga da oposição, espero.

Um dia estava no carro com meu pai, estávamos na rua Heitor Penteado, a caminho da Paulista e eu perguntei: “Pai, que bairro que fica essa rua?” e ele respondeu: “Sei não filha, acho que é Sumarezinho”. Sumarezinho? O que diabos é Sumarezinho?? Fui pesquisar: aparentemente, Sumarezinho é um bairro do distrito de Pinheiros e por alguma razão do destino, é onde fica a estação de metrô da Vila Madalena. Não, meus queridos, o metrô Vila Madalena não fica na Vila Madalena, e sim no bairro de Sumarezinho!

argh

aaaaaaaaaah isso não faz sentidooooooooo!

Já que eu falei em Vila Madalena, eu tenho as minhas dúvidas quanto esse bairro. Reduto do ~cool~, de jovens alternativos, dos barzinhos bacanas, point do carnaval paulistano, das baladas lowkey, etc e tal, a Vila Madalena às vezes me parece ser que nem a Pompéia, fruto de alguma conspiração zona-oestiana para dificultar a locomoção pela região. Eu posso até estar exagerando, mas na maioria das vezes em que eu acho que estou na Vila Madalena, na real eu estou em Pinheiros. Sério, qual é a fronteira entre os bairros? É tão estreita a linha divisória entre eles que eu sempre atravesso sem perceber? Voto por placas “Bem Vindo à Vila Madalena”, só para poupar o estresse.

Vou preservar vocês da dor de cabeça que é Vila Ida (e volta), Vila Anastácio, Vila Beatriz, Vila Hamburguesa, Parque da Lapa, Alto da Lapa, City Lapa, Alto de Pinheiros, e por aí vai, infinitamente.

Quero terminar o post com um apelo: se alguém que leu minhas lamentações e entender melhor de Zona Oeste que eu, por favor, sinta-se livre para comentar, responder, me dar uma aula sobre o assunto. Mais do que um post, isso aqui é um desabafo de anos de dúvidas e incompreensão.

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sobre crises e incertezas

Eu fiz vinte e dois anos essa semana.

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Quando eu tinha uns nove, dez anos, tinha certeza que quando completasse vinte e dois, eu já seria adulta. Já seria independente, teria estabilidade, trabalharia, teria a minha casa, começaria a pensar em filhos (!!!). Hoje eu lembro disso e só consigo reagir rindo. E muito. E com requintes de desespero.

Minha mãe foi mãe muito cedo. Com a minha idade ela já morava com meu pai e já tinha tido a minha irmã. Na minha cabecinha de dez anos, minha mãe era o centro do mundo, minha maior referência. Logo, com vinte-e-poucos-anos, eu também já deveria ter toda a minha vida mais ou menos resolvida, certo?

Errado. E bem errado.

Hoje eu sei que a realidade da minha mãe é bem diferente da minha. Eu tenho muito mais estabilidade familiar e financeira do que ela com a minha idade. Eu não preciso trabalhar para me sustentar – e isso já muda muita coisa. Mas ao mesmo tempo que eu sei disso, fazer vinte e dois anos vem com um grande peso. Desde o meu aniversário de vinte anos, eu venho sentindo esse peso se acumular em mim. O dia do meu aniversário deixou de ser tão leve e alegre (eu sempre amei meus aniversários), a minha insônia sempre piora quando começa abril, eu fico mais nervosa, mais irritada, mais impaciente. Por mais que eu saiba que minhas expectativas de doze anos atrás para a minha vida “adulta” eram bem inverossímeis, cada ano que se passa e eu me afasto um pouco mais delas, eu me sinto como se estivesse indo pelo caminho errado. Talvez eu já tenha idade suficiente para não me sentir tão perdida no mundo, para ter independência financeira, para, afinal, ser adulta. Então eu entro no facebook, twitter, abro um link no buzzfeed e vejo que talvez ser adulto seja mesmo uma ideia utópica, e na real ninguém no mundo faz ideia do que está fazendo e tá tudo bem. E aí eu fico dividida. Parte de mim está perdida e se sentindo mal com isso e a outra parte também está perdida, mas tá ok com isso. Resultado final: 100% de mim está perdida.

A grande questão não é se sentir perdida. Eu me sinto perdida desde o final do ensino médio, lá em 2011, quando eu decidi prestar Letras no vestibular. No ano seguinte, eu continuei perdida, mas afinal, quem não se sente perdida no primeiro ano de faculdade? O tempo se passou, meus amigos todos entraram em crise com o curso, outros foram estudar fora de São Paulo, outros trancaram, alguns até saíram do Brasil! E eu não. Não entrei em crise com a faculdade – pelo contrário, sou uma dessas poucas pessoas que são felizes com a escolha do curso -, continuei morando na mesma cidade, na mesma casa. Olhando de longe, parece que só o meu cabelo mudou desde meus dezessete anos, poque tudo parece mais ou menos igual. Para mim, é essa falsa sensação de estabilidade que dá mais desespero, é o que me faz sentir a minha vida como se estivesse em stand by, que ainda não comecei a fazer aquela coisa que vai transformar a minha vida, como se estivesse num eterno pré-vestibular, esperando por uma prova que irá mudar – e melhorar – tudo. Eu me sinto perdida porque, as vezes, parece que eu parei e o mundo todo continua a correr o mais rápido possível. Se a minha vida realmente já começou (e começou há mais de duas décadas atrás), tudo o que eu faço; os livros que eu leio, as séries que eu assisto, as pessoas que eu conheço, os meus projetos e ideias, tudo isso é o que me constrói, é o que me faz ser eu. E se eu não estou satisfeita com isso, se não sinto que é o bastante, quer dizer que eu não estou feliz comigo mesma. E eu não quero isso, quero ser feliz comigo, com quem eu sou.

Eu nasci e cresci na internet, na era da informação, da rapidez, da frustração. Fui criada para ir atrás do que eu quero e conseguir de qualquer maneira, e de preferência o mais rápido possível. O tempo passa mais rápido, a tecnologia avança a cada segundo e é impossível ficar de fora. É desesperador quando acaba a bateria do celular acaba, ou quando a internet cai. A maioria das pessoas que eu conheço tem depressão ou ansiedade, tem crises de pânico regulares e é normal viver assim. As coisas passam tão rápido que, numa piscada de olhos, eu virei legalmente adulta. Talvez  as coisas fossem claras se tivéssemos mais tradições e rituais; para marcar esses momentos, para dar mais significado às coisas. Mas não. O mundo ocidental é essa grande área cinza, onde quase não existem certezas, mas em compensação sobram-se dúvidas. E temos que viver com isso (ainda bem que existem psicólogos e psiquiatras!).

Agora, voltando à minha crise de vinte e dois anos: na hora de cortar o bolo e cantar parabéns, eu comecei a chorar. Eu não estava triste, talvez muito cansada depois de uma noite insone e um dia todo na faculdade. Talvez eu tenha ficado emocionada, talvez a comida estava realmente muito boa. Talvez mil coisas, ou talvez nada. Mas naquele momento em que eu estava diante do bolo, olhando para os meus pais e meus irmãos, completando vinte e dois anos, um pouco tonta por causa do vinho, eu apenas chorei. Foi um choro rápido, sem muitos dramas, mas foi a catarse que eu precisava, foi um suspiro de alívio. Foi naquele momento que eu encontrei o conforto no desconforto. Eu não tive nenhum insight, nenhuma epifania, a minha vida não é um conto da Clarice Lispector. Eu nem sei como concluir esse post, e acho que isso resume bem esse momento da minha vida. Eu não tenho respostas, e talvez eu nunca as tenha.

É isso.

PS: Pra não terminar o post assim, tão sem final, tão pós-contemporâneo, deixo aqui um gif do Harry Styles, porque lembrar que vivo no mesmo mundo que ele me deixa mais feliz.

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as três vezes que visitei Stars Hollow

Eu reconheço que sou boa em poucas coisas. Uma delas, para o bem ou para o mal, é assistir séries.

Eu consigo ver várias ao mesmo tempo, ver temporadas de uma tacada só e não tenho muitos problemas em seguir até o fim. Para mim, as séries funcionam muito bem como um escape do mundo real, fico completamente entretida, me envolvo, sofro, choro junto, etc e tal. Esse talvez seja o lado ruim de ser muito boa em assistir séries, porque já deixei de fazer várias coisas pra ver mais aquele episódio, foram muitas noites insones de ficar preocupada com as personagens, muitos trabalhos feitos de última hora pra chegar no fim da temporada naquele dia, enfim, já priorizei as séries em vez de mim em muitos momentos.

Já tive problemas de separar ficção da realidade depois de intensas maratonas de Gossip Girl Pretty Little Liars, já fui dormir com os olhos inchados de lágrimas por causa de Greys Anatomy,tive momentos profundos e catárticos unidos com crises de choro de minutos depois de My Mad Fat Diary, tive muito medo e muitos pesadelos depois de assistir ao episódio do Lobo Mau do Mundo da Lua, já desejei ter nascido em outra época vendo Mad Man Downton Abbey, e por um breve momento quis fazer medicina por causa de House. Acompanhar séries para mim é como ler, um hábito que eu tenho desde bem criança. Lembro de sair de escola e  ir correndo pra casa para assistir Anos Incríveis, ou de torcer muito pra que a Scully e o Mulder ficassem juntos em Arquivo X.

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o Lobo Mau que habitou muitos de meus pesadelos

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Scully e Mulder, o primeiro shipp ❤ 

Posso ficar listando e comentando as séries que assisti por muito tempo, páginas e páginas. Mas esse não é o objetivo desse post. O legal das séries é que por serem mais longas que filmes, e empreende muito mais tempo que um livro (demorei seis meses pra ler Guerra e Paz, mas foram anos e anos de CSI Las Vegas), é que elas podem nos acompanhar ao longo do tempo. Hoje em dia isso é mais complicado, com a Netflix e outros sites e programas que disponibilizam várias temporadas de uma vez, é bem difícil segurar a onda e ver aos pouquinhos. Eu mesma vi as 10 primeiras temporadas de Greys Anatomy de uma tacada só em um mês de férias (não sei se me orgulho muito desse fato).

O ponto aqui é que uma série em especial que me acompanhou – e continua me acompanhando até hoje. A série é ~TAM TAM~ Gilmore Girls.

Sempre quando o assunto de séries chega e alguém traz à tona Gilmore Girls, é batata: muita gente vai ficar emocionada de se lembrar dos episódios, das personagens, dos moradores de Stars Hollow, das panquecas do Luke, e é claro, das meninas Gilmore.

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Rory e Lorelai Gilmore ❤ 

Eu assisti Gilmore Girls em três momentos da minha vida. E foi diferente e especial em cada um deles.

A primeira vez, eu estava naquela fase em que já não se é mais tão criança,mas também ainda não é adolescente, e eu via de uma forma bem despretensiosa com a minha mãe na tevê aberta (acho que SBT?). Eu amava porque me via alí. Não exatamente na Rory, porque ela era bem mais velha que eu, mas ela era do jeito que eu queria ser quando tivesse 16 anos. Eu me identificava na relação entre mãe e filha. Para mim, Rory e Loralai eram que nem eu e a minha mãe. Nós sempre nos entendemos sem precisar de muitas palavras, mas nossas conversas são longas e muito rápidas e cheias de referências a cultura pop, que nem as conversas da Rory com sua mãe, nós sempre fomos amigas uma da outra, trocamos confidências, rimos de fofocas, temos vários interesses em comum e até nos vestimos parecido!

Há pouco tempo atrás, quando revi a série pela terceira vez, e estava conversando com a minha mãe sobre GG, ela me disse que também gostava muito de quando vimos a série, mas que se identificava tanto com a Lorelai que até dava aflição e por isso ela nunca mais quis ver  de novo. Isso me aproximou muito mais da série, mas mais ainda de mim mesma, lá quando eu vi pela primeira vez, há todos aqueles anos atrás.

A segunda vez também foi de uma forma bem despretensiosa. Eu já era um pouco mais velha, já era adolescente e via os episódios sem ordem no canal Boomerang. Dessa vez, eu me identificava 100% com a Rory. Eu também era a menina que levava vários livros pra escola e muitas vezes preferia ficar lendo do que batendo papo com os colegas. Os namorados da Rory eram assunto à parte: achava o Dean super fofo e ótimo primeiro namorado, mas meu coração batia mais forte pelo Jess. Sempre me apaixonei pelos badboys, dentro e fora da ficção. Quando a Rory vai pra Yale foi o momento que parei de assistir com regularidade, só consegui pegar alguns episódios muito espaçados entre si, mas lembro de querer ter uma experiência parecida com a dela na faculdade. Eu também queria fazer jornalismo e ganhar a vida viajando o mundo todo e escrevendo. Dessa vez, deixei um pouco de lado a relação entre mãe e filha, e me foquei no crescimento da Rory, porque eu também estava lidando com problemas parecidos, nós estávamos crescendo juntas.

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Jess arrancou pedacinhos do meu coração (e do da Rory também)

A terceira vez que assiste foi há pouco tempo atrás, numa greve da faculdade que juntou com as férias e de repente eu estava com muito tempo livre e decidi rever Gilmore Girls direitinho, todas as temporadas, sem pular nenhum episódio. E foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Só foi aí que eu percebi que as Gilmore Girls não eram só Rory e Lorelai, mas sim eram Rory, Lorelai e Emily, que passa todas as sete temporadas tentando se reconectar com a sua filha. É lindo ver os momentos que Lorelai e Emily conseguem deixar suas diferenças de lado e de fato conversam com sinceridade, ou quando elas riem juntas, quando elas se identificam uma com a outra e quando elas compreendem a dor da outra. Só foi nessa última vez também que eu percebi a força feminina da série: as personagens principais são mulheres, as relações mais importantes, apesar de todos os pais, namorados e maridos, são entre mulheres. É muito bonito ver a amizade entre a Rory e a Paris se fortalecendo e superando a rivalidade que existia entre elas no começo do colégio, de como a relação entre a Lorelai e a Sookie fica cada vez mais forte, e de como, apesar de todas as diferenças e distâncias, a Rory e Lane continuam melhores amigas.

Foi dessa vez também que pude dedicar mais atenção para a Lorelai. Entendi a dificuldade dela de se separar da Rory, não apenas fisicamente quando ela vai pra Yale, mas de como ela percebe que, apesar de todas as muitas semelhanças,  Rory e Lorelai não são a mesma pessoa. Quando a Rory decide trancar a faculdade e a Lorelai entra em crise, ela não percebe que sua filha também estava em crise, que ela não tinha tudo organizado e planejado (afinal, quem tem?), como pensava. É muito legal também quando ela percebe que não precisa deixar de ser amiga da filha para ser mãe também, o que sempre foi uma grande dificuldade pra Lorelai. E que, apesar de todas as diferenças que crescem ao longo dos anos, elas ainda conseguem entender uma a outra. E precisar da outra.

Foi legal também perceber como a minha visão dos namorados da Rory mudaram. Só depois de alguns anos que percebi o quão babaca era o Dean – e até, muitas vezes, abusivo. Quando ele acha daora a Rory se vestir de dona-de-casa dos anos 50, ou de quando ele termina o namoro porque ela não diz “eu te amo” de volta, ou pior de tudo: quando ele resolve se casar com outra, mesmo não tendo superado a Rory e ainda, quando seu casamento não vai bem, decide trair sua esposa com a antiga namorada, só pra depois terminar de novo quando percebe que a Rory não é mais aquele menina de 16 anos por quem ele se apaixonou. Sério, como pude achar esse cara legal?

Já o Logan é o namorado da Rory que eu menos sei o que falar. Ele é de longe não tão babaca quanto o Dean, mas também nem tão maravilhoso quanto o Jess. O bacana é que é o relacionamento da Rory mais duradouro e podemos ver como eles crescem juntos. Ele vai deixando de ser o adolescente despreocupado com a vida e inconsequente pra virar um jovem um pouco mais responsável, ele e Rory moram juntos, namoram a distância, passam por várias crises e superam seus problemas. É bacana ver a Rory se impor e não deixar ser levada pelos namorados, ela sempre quer e precisa ser ela mesma, o que é difícil de ver em séries por aí. E é ainda mais bacana, no final da última temporada, a Rory não ficar com ninguém. E estar tranquila quanto a isso.

Com o Jess, nada mudou. Continuo me apaixonando por ele e fiquei muito feliz em todas as vezes que ele aparece randomicamente. Mal posso esperar pra revê-lo nessa nova temporada!

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me faço sempre a mesma pergunta, Jess

Gilmore Girls é uma daquelas séries que sempre tem algo a acrescentar toda vez que é assistida. As personagens são tão bem construídas durante as temporadas que poderiam ser reais. É uma daquelas séries parece um abraço quentinho nos dias de frio, um carinho quando se teve um dia ruim, um chocolate quente quando cai aquela chuva. Eu torço pela Rory como eu torço por uma amiga, porque a Rory é uma amiga, ela cresceu junto comigo, nós erramos e acertamos juntas, nos apaixonamos e desapaixonamos juntas. Tenho certeza que da próxima vez que eu rever Gilmore Girls vai ser diferente, vou perceber nuances que não havia percebido, entender coisas que ainda não entendo. E eu vou continuar revendo e ainda querer comer um hamburguer da Luke’s Dinner, ou acordar com o cheirinho do café forte da Lorelai.

 

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meu irmão já tem quase quinze anos

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Meu irmão já tem quase quinze anos. Ele acabou de entrar no ensino médio, numa escola nova e sem conhecer ninguém. Assim como eu, quando eu tinha os meus quase quinze anos.

Naquela época, lá pelo ano de 2009 (parece que foi ontem, mas já faz sete anos!), a mudança de escola foi algo fundamental para a minha vida. Eu havia deixado para trás tudo o que eu conhecia desde a primeira série e estava entrando em território completamente desconhecido. Eu estava com muito medo. Apesar disso, com a minha púbere sabedoria, eu sabia que havia feito a melhor escolha. E acertei. Nos três anos seguintes fiz grandes amigos, aprendi muita coisa, senti, sofri, chorei e dei muita risada, resumindo: fui adolescente.

A parte engraçada de ser adolescente é que a gente sabe que é adolescente, mas, ao mesmo tempo, não tem ideia do que está acontecendo – e está acontecendo muitas coisas!

Voltando ao meu irmão: ele agora está em um novo grupo de amigos, em um novo ambiente, com nova rotina, novos professores, tudo novo. Mas é novo ainda para mim, porque ele já está completamente adaptado. Já troca confidências com os amigos, já tem conversas intensas, já cumprimenta os professores pelos nomes, já sabe andar pelo colégio de olhos fechados. Para ele, a nova rotina é apenas a mesma rotina de todos os dias (e ainda estamos no começo do ano!).

Sempre quando me pego surpresa com o meu irmão, tento lembrar da minha situação anos atrás, quando estava numa posição bem parecida. Eu já tinha feito todos os meus melhores amigos, já tinha meio que me apaixonado, já era conhecida pelos professores (em minha defesa, meu pai era o professor de artes da escola), já tinha me acostumado em acordar às cinco da manhã e voltar pra casa só depois das sete da noite. Foi tudo muito rápido pra mim também, mas eu só percebi a velocidade sete anos depois.

(série que conta o começo de uma grande amizade, quando eu tinha quinze anos)

Quando se é adolescente, tudo passa mais lentamente. Talvez lentidão não seja o termo correto, é a vida que é muito mais intensa. Todo mundo sabe que dos doze aos vinte anos o corpo está em mudanças; os pelos crescem, membros crescem, o sangue desce, a voz afina e engrossa, o rosto fica meio esquisito, espinhas nascem e os cabelos tomam formas nunca antes imaginadas. É tudo culpa dos hormônios, mas isso até os adolescentes sabem. O que eles não sabem e o que os adultos vivem repetindo, é que essa fase passa. E logo. Acho que essa é a parte mais linda e mais triste da adolescência. E é lindo e triste e feliz e terrível e emocionante e tedioso e tudo isso ao mesmo tempo sem pausas sem vírgulas porque ser adolescente é sentir. Ser adolescente é não saber ser adolescente. Porque desde as primeiras aulas de ciência, lá no ensino fundamental, aprendemos que a adolescência é uma fase pela qual todos os humanos passam antes de serem adultos. Mas quando chegamos lá, deixamos de saber. Esquecemos que é apenas uma fase, porque na nossa cabeça juvenil, aquilo é o nosso mundo inteiro.

A partir do momento em que entendemos que tudo o que vivemos e sentimos tão intensamente – as brigas, os amores, as amizades para toda a eternidade, os sonhos mirabolantes, as emoções que transbordavam, o mundo – era  passageiro, é o momento em que deixamos de ser adolescentes.

Quando meu irmão está trancado no quarto ouvindo Oasis no volume máximo, eu penso: “ah, ele tem quase quinze anos!”, mas aí eu lembro que os meus quinze anos não estão tão longe assim. Eu ainda moro na mesma casa, durmo no mesmo quarto, até algumas das minhas roupas são as mesmas! Dos quinze aos vinte e um (quase vinte e dois), olhando de longe, não mudou muita coisa. O que realmente mudou é bem sutil, mas irrefutável: eu não sou mais adolescente. Não vivo os mesmos dramas, não preciso chorar toda a noite com a cabeça no travesseiro ou dramaticamente no chão do banheiro, não preciso mais expor meus sentimentos bem alto no transporte público, nem achar que aquele “oi” constrangido vai mudar minha vida pra sempre. Não que hoje, que sou adulta e madura (não me considero nem adulta e nem madura), ache que a adolescência é uma fase boba, pelo contrário, ela é bem séria. Apesar de ser intensa, excessiva e sentimental, é quando descobrimos mais ou menos quem somos, é quando podemos sonhar longe, podemos desejar o utópico sem parecer ingênua ou boba, é quando achamos que podemos tudo – e realmente podemos! Mas eu ainda sinto, ainda choro dramaticamente no banheiro, com menos frequência, mas choro. Eu ainda tenho os mesmos sonhos utópicos e ainda não me sinto adulta. Então, o que realmente mudou?

O que mudou é que, diferentemente de quando eu ainda era adolescente, eu hoje consigo saber o que é ser adolescente. Nenhum adolescente sabe, eles podem até achar, supor, quase chegar no resultado verdadeiro, mas não sabem com exatidão. É isso que muda. Eu posso  saber o que é ser adolescente, mas não consigo mais sentir como uma adolescente. Só quem é adolescente sabe o que adolescentes sentem. Eu já senti. Hoje, eu chego em casa e vejo meu irmão lidando com todas as suas batalhas, suas emoções, seus medos, tudo ao mesmo tempo. Ele está se formando e eu posso enxergar isso, eu posso me identificar, me projetar, mas não posso mais sentir. Hoje eu digo: “é uma fase, Lucas, vai passar, prometo”.

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a minha turma de ensino médio (acho que todo mundo já tinha completado quinze anos)

um grito

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Decidi começar um blog. Posso fazer um primeiro post despretensioso, como quem não quer nada, sem nenhuma expectativa. Seria cool? Talvez. Mas não seria a verdade.

Eu já tive blogues antes. Dois, mais precisamente. O primeiro, lá pelos meus oito anos, foi muito mais bem sucedido que o segundo, no auge da minha adolescência. Lembro de adultos vindo falar comigo porque gostaram do que eu havia escrito. Lembro de escrever os posts no word antes de passar pro blog, porque a internet ainda era discada. Lembro de várias coisas, só não lembro da razão de eu ter excluído o blog. O segundo veio da necessidade adolescente de expressar as mil emoções que eu sentia, também não durou muito.

Agora, esse aqui já está na gaveta por algum tempo. Ao contrário do meu eu de oito anos, escrever já não é assim tão fácil. A gente cresce e fica muito pior do que era, vem inseguranças, medo de rejeição, dramas, impedimentos, etc. Todos criados por mim mesma, é claro. Acontece que auto-sabotagem é coisa do passado. Agora a moda é é namorar pelado  mostrar pra esse mundão que eu também sou daora.

Um dos grandes impedimentos de não ter feito esse blog antes é a quantidade de textões, blogues, sites e conteúdos, em geral, feitos por aí. Na minha timeline do facebook, já perdi a conta do número de pessoas que escrevem sobre política, coisas da vida, textos acadêmicos, livros, poesia, e por ai vai. Eu acho isso lindo, ainda mais a quantidade meninas que produzem conteúdo cresce cada vez mais, o que é maravilhoso (beijo pras migas da Capitolina). Agora, o que euzinha tenho a acrescentar a esse monte de pessoas incríveis e criativas? A resposta é: não sei. Mas bora descobrir.

Esse blog é o meu grito. Não um grito de desespero, nem de medo, mas um bom grito, que nem o grito de carnaval. Prometo não gritar na orelha de ninguém, até porque eu odeio gritar. Esse é um grito alegórico, uma metáfora. Espero poder gritar sobre vários assuntos, desde os mais sérios até os mais zoeiros (apesar de achar a zoeira uma coisa seríssima)

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Voltando ao primeiro parágrafo, em matéria de ser despretensiosa eu nunca fui muito boa. Sempre pensei 237822 vezes antes de fazer qualquer coisa, e na maioria dos casos, eu inventava uma desculpa e não fazia nada. Com alguns anos de experiência, hoje posso dizer que essa estratégia não é nada boa, não recomendo, 0/10. O legal mesmo é parar de pensar tanto e fazer logo. Parar de falar baixinho e gritar de uma vez.

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