Harry Potter and The Cursed People (incluindo ele mesmo)

[SPOILERS, muitos spoilers de Cursed Child! Se você não leu ainda e não quer saber de nada, não leia esse post!]

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Semana passada foi lançado o tão esperado roteiro da peça Harry Potter and The Cursed Child, que narra os acontecimentos no mundo bruxo anos depois da batalha final contra Voldemort.

Muita gente já chamava o texto de “8° livro de Harry Potter“, o desfecho de toda a história. Eu pessoalmente prefiro ficar com o final do sétimo livro, Relíquias da Morte, porque me parece o final mais bem construído literariamente, além de marcar o fim da série de livros, já que Cursed Child é, originalmente, uma peça de teatro.

Desde quando soube que a autora, J.K. Rowling, iria escrever uma peça sobre Harry Potter, já fiquei com o pé atrás. É claro que como qualquer outra fã da série, toda novidade sobre o mundo mágico de Harry Potter é bem-vinda, mas o que me deixou receosa foi exatamente o gênero: Harry Potter é um fenômeno mundial, porque fazer a continuação da história como uma peça de teatro? Só quem estiver em Londres pode ver, ou quem tem muita grana para poder viajar até lá. O resto dos fãs tiveram que se contentar com o roteiro da peça.

Quando o casting foi anunciado, fiquei feliz com a escolha dos atores, principalmente de ter a Norma Dumezweni como Hermione, até porque a cor da personagem nunca foi descrita nos livros, então porque não ela ser negra?

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Hermione ❤

Assim que os spoilers vazaram, não pude me controlar e, em vez de #keepthesecrets, fui procurar sobre o que se tratava a história. Eu estava na casa da Clara quando lemos os spoilers da peça e não conseguimos acreditar que aquilo tinha sido escrito pela mesma pessoa que escreveu todos os outros livros da série. Pessoalmente, achei que podia ser tudo falso para enganar os apressados e a peça ser completamente diferente. Na verdade eu torci para que isso fosse verdade, pois a história parecia ter sido feita numa viagem de ácido.

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J.K. escrevendo Cursed Child

 

O tempo passou e Cursed Child deixou de ser meu foco principal até que, no final da semana passada, o roteiro foi finalmente lançado! Passei meu domingo lendo e, para a minha infelicidade, aqueles spoilers que tinha lido antes eram todos verdade. Mas tinha mais! Mais surpresas surreais, mais incoerências com o resto da obra, mais esteriótipos de gênero, racismo e por aí vai. Não foram só as falhas com o próprio universo que ela criou e os furos de enredo que me incomodaram – esses até me fizeram rir bastante. Eu fiquei muito mais perturbada como jovem adulta feminista do que como fã incondicional de Harry Potter. Deu pra entender a diferença? Se não, vamos aos problemas:

  1. O papel das mulheres:

Harry Potter, apesar de estar centrado num menino, sempre teve personagens mulheres de muita importância. Hermione, Gina, Luna, Profª Macgonnagall, Bellatrix, entre outras. A escolha por uma atriz negra para interpretar a Hermione na peça foi com toda a certeza um acerto e um passo à frente para a representatividade de pessoas não-brancas na obra. Tendo tudo isso como plano de fundo, Cursed Child errou muito com suas mulheres.

A única personagem feminina que realmente tem importância para  a história é a Hermione. Além de ser Ministra da Magia (sério, quem iria duvidar?), é com ela que Harry descobre o que seu filho está fazendo e juntos eles planejam como remediar a situação. Ela toma decisões e deixa claro – principalmente para seu marido Ron – que não precisa de ajuda ou proteção. Hermione diz mais de uma vez que seu trabalho é uma prioridade, e não se sente culpada de não ser tão presente em casa quanto Ron, que por trabalhar na loja Weasleys Wizard Wheezers, tem horários mais flexíveis. Tudo isso parece ótimo, não imaginaria um futuro diferente para a Hermione, mas a a história não para aí:

Na primeira vez em que Albus e Scorpius alteram o passado para tentar salvar Cedrico de morrer nas mãos do Voldemort, eles retornam para a primeira tarefa do Torneio Tribuxo e, disfarçados de estudantes de Durmstrang, eles impedem que o Cedrico termine sua tarefa na esperança de que essa derrota o impeça de ganhar e, consequentemente, ir parar no cemitério com o Harry. O plano funciona e os meninos retornam ao presente, mas não para o mesmo presente; eles retornam para uma realidade alternativa. As mudanças são poucas; Albus está na Grifinória, Ron é casado com Padma Patil e Hermione é professora de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Chocado com o presente alternativo, Albus busca mais respostas, o porquê de todas as diferenças. Ele descobre que o motivo de Ron e Hermione não estarem casados é porque ela, desconfiada de que Víctor Krum estava por trás da derrota de Cedrico na primeira tarefa do torneio, recusa seu convite para o baile e vai com o Ron. Por causa disso, Ron nunca sente ciúmes de Hermione e, ao invés de se apaixonar por ela, se apaixona por Padma. Toda a justificativa me parece absurda. Desde quando ciúmes é algo positivo? O Ron foi péssimo com a Hermione – e com a Padma também – no baile, sem contar que a tensão romântica/sexual entre os dois já era algo sendo construído. O baile não foi tão significativo assim para o relacionamento deles.

Mas não é só com o casamento de Ron e Padma que choca os meninos. A Hermione alternativa também é bem diferente. Hermione, por não ter se casado com Ron se torna solitária e má. Como professora ela é cruel, humilha os alunos e os reprime por motivos desnecessários. Ela é praticamente uma versão feminina do Snape (o que convenhamos, não é boa coisa). A personagem de Hermione nunca seria uma professora cruel, pelo contrário! Hermione é conhecida por ter uma ética e princípios fortíssimos e ela nunca vai contra eles. Além do mais, ela nunca seria professora de Defesa Contra as Artes das Trevas. Talvez Transfiguração, ou alguma outra matéria mais teórica.

Voltando à realidade principal, temos Rose Granger-Weasley, filha de Ron e Hermione. A princípio ela parece bastante promissora, mas infelizmente só ficamos com esse princípio, já que ela mal aparece na peça. Só a vemos no início da história e bem no final, para justificar a súbita heterossexualidade de Scorpius.

A Gina, que nos livros nunca passou despercebida – mesmo sendo a mais nova de seis irmãos -, na peça ela quase desaparece. Com exceção dos dois momentos em que ela fica brava com o Harry e por proibir que ele e seus filhos comam açúcar. Mas a Gina jamais iria passar despercebida. Ela se torna jornalista esportiva para o Profeta Diário, o que é uma profissão bem bacana para uma mulher, que normalmente nunca está associada a esportes, mas é só. Gina não tem relevância para o enredo da peça, ela só está lá, cumprindo seu papel de esposa do Harry, sem grandes desenvolvimentos.

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encontro de Ginas! Parabéns a esse casting!

 

Bellatrix, apesar de ter morrido antes dos acontecimentos da peça, também tem uma trajetória questionável. Delphi, a jovem que persuade Albus a voltar no tempo e salvar o Cedrico, é na verdade filha de Voldemort com Bellatrix, e nasceu em algum momento antes da Batalha de Hogwarts na mansão dos Malfoy. Toda essa trama me parece surreal, porque a Bellatrix representada nos livros nunca teria filhos. E ok, nem todas as mulheres querem/precisam ter filhos, é uma escolha, não um destino. Ter uma personagem feminina claramente má, intimidadora, cruel e que devotou sua vida para uma causa era um ponto positivo na obra. Não que eu goste da Bellatrix, ela era horrível; torturou os pais do Neville, matou Sirius, seu primo, sem pensar duas vezes. Mas ela ia além da representação comum mulheres na ficção. Mas aí ela se torna mãe, o que além de ser improvável, enfraquece a sua própria construção como personagem. Sem contar que, sejamos sinceras, Voldemort não transa, né.

2. As incoerências:

Até agora já foram algumas incoerências; Bellatrix ficar grávida do Voldemort, Hermione ficar solitária, amarga e uma péssima professora, Voldemort transando,  e por aí vai. Mas aos absurdos não param por aí.

Na segunda vez que Albus e Scorpius alteram o passado, eles decidem retornar para a segunda tarefa. Como da primeira vez o boicote do Cedrico não deu certo, eles decidem que irão causar mais danos do que o fracasso do campeão lufano; eles resolvem humilhar o pobre Cedrico. Como a segunda tarefa foi realizada no lago, eles voltam no tempo no banheiro da Murta-que-geme e pelos encanamentos chegam até o lago e fazem um feitiço para a cabeça de Cedrico aumentar, fazendo com que o menino boie ao invés de mergulhar. Conclusão:  Cedrico é motivo de piada e perde o Torneio de vez. Voltando ao presente, apenas Scorpius retorna, pois a realidade foi alterada uma segunda vez.

Cedrico, nessa nova realidade, não morre. Mas por ter sido humilhado no Torneio Tribuxo, ele se torna Comensal da Morte e mata Neville na Batalha de Hogwarts. Por causa disso a Nagini não morre, nem Voldemort, que mata Harry e o mundo bruxo se torna o pior lugar possível.

A ideia de que as alterações do passado criem realidades alternativas funciona bem na peça. O que fica difícil de aceitar é o Cedrico, o galã-coração-de-ouro lufano se tornar um Comensal da Morte, e ainda matar um ex-colega de escola!

É compreensível que, por ser uma obra diferente do restante da saga, os personagens tenham aspectos e interpretações diferentes das dos outros livros. Mas o problema é que Cursed Child é, oficialmente, a continuação da história, o 8° livro da série. Por isso todos esses plot-twists soam falsos e forçados, como se fosse uma fan-fic má escrita (ou até um spin-off de Pretty Little Liars). O Cedrico Diggory que conhecemos nunca se tornaria um Comensal da Morte.

Scorpius, depois de entender o que causou tamanho desastre, consegue achar Snape – que ainda está vivo –  e convence-lo de que aquela realidade não precisa ser a única verdade. Aqui é outra cena bem problemática. É verdade que o canon, a J.K. Rowling e muitos dos fãs de Harry Potter, tratarem Snape como herói. Isso sempre me deu arrepios, porque por mais surpreendente o desfecho dele, Snape nunca foi uma boa pessoa. Ele sofreu bullying dos Marotos em Hogwarts? Sim, mas nada disso justifica o fato de que ele entrou para uma seita fascista e racista. Ok, ele deixou de ser Comensal da Morte para ser espião de Dumbledore, mas ele só saiu porque descobriu que Voldemort iria matar Lily, não porque ele discordasse do Lorde das Trevas. E falando na Lily, por favor, aquilo não era amor. Snape era abusivo, tanto como homem quanto como professor. Ele claramente favorecia os alunos da Sonserina e reprimia injustamente os grifinórios, em especial Harry, Hermione e Neville. Foi ele quem denunciou Lupin, fazendo com que ele pedisse demissão do talvez único emprego estável que ele teve. Snape não era legal, não era uma pessoa maneira. Toda vez que vejo uma referência àquela última fala: “always”, tenho arrepios. Isso não era amor, era relacionamento abusivo cilada.

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CRUZ CREDO

E é exatamente isso que ocorre com Snape em Cursed Child, mais uma vez esse personagem, que necessita urgentemente de desconstrução, é heroizado mais uma vez.

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Outra grande incongruência da peça, e que deixou quase todo o fandom bravo, foi o relacionamento entre Albus e Scorpius. Em muitas, muitas passagens do texto, vemos que os dois meninos se importam muito um com o outro. É em Albus que Scorpius pensa quando chegam os dementadores e ele tem de encontrar uma lembrança feliz, é por ele também que Scorpius desiste de ser “Scorpio King” da realidade alternativa para ter seu amigo de volta. Obviamente há uma tensão sexual sendo construída ao longo do texto. O que deixa seu final ainda mais problemático, pois nas últimas páginas, Scorpius lembra de que pertence a um universo heteronormativo e demonstra interesse amoroso em Rose, filha de Ron e Hermione, que mal aparece na peça.

J.K. Rowling nunca apresentou um personagem LGBTQA em Harry Potter. Apesar dela ter afirmado que Dumbledore era gay, nada disso foi escrito em seus livros. Cursed Child poderia ter sido um passo maior para a melhor representatividade na sua obra. Se Hermione é negra, porque não um casal gay? Ainda mais que, em muitos trechos do texto é possível interpretar o início de um romance entre os meninos. Lendo essa virada surpreendentemente heteronormativa, lembrei da minha reação lendo Grande Sertão: Veredas, quando Riobaldo descobre que Diadorim era mulher, o que de alguma forma justificaria o amor deles. Porém, Riobaldo se apaixonou por Diadorim como homem, não como mulher. E para mais uma referência pop de heteronormatividade, Li Shang se apaixonou por Mulan também como homem. Curioso, não?

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Scorbus ❤

 

E assim chegamos à terceira e última parte desse post:

3. Nonsense:

Muitas partes são completamente nonsense em Cursed Child. Sério. Tive que reler alguns trechos só pra ter certeza do que estava escrito, que não era invenção da minha cabeça. Lendo os spoilers antes de sair o livro, tive quase certeza que tudo aquilo era invenção de um cara que resolveu enganar meio mundo sobre a história da peça. Mas, infelizmente, era tudo verdade.

Logo no começo, temos uma cena memorável. Cês lembram da tia do carrinho de comidas? Tão adorável! Tão inofensiva! Sempre arrastando seu carrinho pelo trem e deixando crianças mais felizes com sapos de chocolate e tortinhas de abóbora! Pois então, esqueçam tudo isso e lembrem apenas disso:

Por anos e anos fomos enganados, achando que as tortinhas de abóbora era apenas tortinhas de abóbora! Agora sabemos que elas são, na verdade, GRANADAS! E suas mãos se transformam em ESPINHOS!

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NÃO, OBRIGADA!!!

E novamente Hogwarts ganha o prêmio de Lugar Mais Seguro do Mundo Bruxo™.

Aqui se encaixa também toda aquela história da Bellatrix ter um filho com Voldemort. Tem coisa mais nonsense do que imaginar o Lorde das Trevas, carne e osso e sem nariz transando? Acho que não.

Quem já leu Cursed Child sabe agora que Voldemort e Bellatrix tiveram uma filha, sabe que é melhor manter distância da tia do carrinho de comidas do Expresso de Hogwarts, sabe que Albus e Scorpius são melhores amigos para sempre, sabem que quem é órfão será órfão para sempre (ótima reflexão, Harry), sabe que retratos podem chorar, sabem até que Harry tem medo de pombos. Mas ainda não descobriram como Hermione, Ron, Gina e Draco conseguiram transfigurar o Harry em Voldemort para conseguirem distrair Delphi de seguir com seu plano e impedir que seu pai seja derrotado pelo bebê-Harry. Por sete livros e oito filmes vimos inúmeros bruxos e bruxas transfigurarem objetos em animais, ou em outros objetos; vimos bruxos e bruxas tomarem a poção polissuco e se transformarem em outras pessoas, mas nunca, nunca vimos bruxos e bruxas transfigurarem pessoas em Lorde das Trevas. Como isso aconteceu? Que feitiço utilizaram? Ou foi um encantamento? Não sabemos, mas que aconteceu, aconteceutumblr_mo7mebawbv1rqqwv3o4_250

 

Se quiserem continuar a reflexão sobre Cursed Child, alguns links legais:

What The Hell Is A Panju?”, uma análise bem bacana sobre racismo na obra de J.K. Rowling. Bem mais interessante e desenvolvida do que eu coloquei aqui.

18 ‘Cursed Child’ Moments Which Honestly Make No Sense“, esse post do Buzzfeed me representa 110%.

Harry Potter and the Sanctiones Follow-On Work (or, Fanfictions vs. the Patriarchy)“, outro texto bem maneiro sobre como classificar Cursed Child como fan-fic pode ser um engano.

Harry Potter and the Cursed Child’s Strangest Twist May Have Roots in History“, o texto mais ~diferentão~, que faz uma análise histórico-comparativa de Harry Potter com o III Reich, que talvez justificaria o plot-twist mais controverso.

Harry Potter and the Cursed Child’ includes plenty of fanfic tropes, but ignores queer representation“, mais um pouco sobre a falta de personagens LGBTQA em Harry Potter.

We Need To Talk About The Trolley Witch In ‘Harry Potter And The Cursed Child“, para quem, como eu, não superou a tia do carinho de comidas do Expresso de Hogwarts, um post obrigatório.

Shoebox Project“, pra quem quer ler uma ótima fan-fic de Harry Potter, essa é a melhor opção.

Por hoje é só, meus queridos,

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sendo fangirl

Terminei essa semana de ler Fangirl, um livro da autora Rainbow Rowell (o nome mais fofo para a escritora mais fofa de todas). Pra quem não sabe, o livro conta a história da Cath, que escreve fanfiction sobre personagens de uma famosa série de livros. A história começa quando ela e sua irmã gêmea, Wren, chegam na faculdade e têm que se separar pela primeira vez. Cath observa sua irmã se adaptando rapidamente ao novo ambiente, enquanto ela enfrenta algumas dificuldades.

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O livro, além de ser daqueles que se lê sorrindo de tão gostoso que é, fala sobre uma relação pouquíssimo explorada e muito menosprezada, vista como “mais uma bobeira adolescente™”: a relação entre a fã e seu ídolo/obra favorita, ou seja, o ser fangril.

Não preciso ir muito além para dizer que me identifiquei 100% com a protagonista do livro. Não porque eu também escrevo fanfics – porque eu nunca escrevi -,  mas porque eu também criei, ao longo da minha vida, várias relações com artistas/obras/personagens. E muitas vezes era difícil conciliar isso com outras partes da minha vida. Eu não vivia num mundo da fantasia, eu sempre vivi no mundo real, mas isso não quer dizer que eu apenas me relaciono com as pessoas ao meu redor, pois eu  também me relaciono  com os filmes que vejo, os livros que leio, as séries que eu assisto e por aí vai. Sempre foi assim.

Eu sei que eu não vou estudar em Hogwarts, ou ter um caso com o Capitão Rodrigo, ou beber vinho com o Bob Dylan (ok, esse último ainda pode acontecer) e isso não exclui a conexão que eu tenho com eles nem a importância que eles têm na minha vida. Ser fangirl é querer ir em todos os shows, ler todos os livros, assistir todos os filmes no dia da estréia, é passar horas e horas conversando e discutindo com as amigas sobre o mesmo assunto, é sofrer junto, é se identificar junto, é se entender junto. Ser fangirl é se projetar no outro, mas não em qualquer outro, num outro perfeito, que não tem os defeitos humanos, num outro ficcional, livre das falhas e erros que nós sempre estamos sujeitos.

Ser fangil é mais do que ser fã. É mais intenso. É ter naquela obra ou artista um refúgio, um conforto que sempre estará lá, não importa o tempo que passe. Ser fangirl  é criar um espaço só seu, um espaço seguro do mundo, um espaço criado com amor – porque sim, a relação o fã com seu artista/obra é uma relação de amor. Esse mundo criado pode existir apenas na imaginação da fangirl, mas não deixa de ser real (citando Dumbledore) e, diferente do mundo concreto, ele está imune à hostilidade, agressividade, ao ódio, é um lugar protegido de tudo aquilo que nos machuca.

E nada disso é bobo. Nada disso é besteira adolescente. Aliás, porque sempre consideramos a adolescência como uma coisa boba? É quando somos adolescentes que descobrimos quem somos, o que realmente gostamos; é quando começamos a conhecer um mundo fora da perspectiva dos nossos pais, é quando experimentamos um pouco de independência e responsabilidade, quando tentamos nos encaixar no mundo, por mais doloroso que seja. E é sempre doloroso. Ser adolescente é difícil. Machuca, dói. Nada disso é bobo, nada disso é ridículo.

Quando eu tinha 13 anos e ficava triste, eu me refugiava ouvindo Green Day. Aquilo era o meu lugar seguro.  Naquele momento o Billie Joe (o vocalista da banda) estava falando comigo, me ajudando a me sentir melhor, a me sentir compreendida. Acho que a coisa mais importante para um adolescente é a compreensão e a identificação. E nada mais natural do que procurar isso em algo platônico, pois assim a frustração é impossível. A minha relação com o Billie Joe era perfeita; eu o amava e ele me entendia. Era exatamente o que eu precisava.

E foi assim com Green Day, e antes com o Senhor dos Anéis, mais precisamente com o Elijah Wood – sim, era apaixonada pelo Frodo, não me julguem -, com Harry Potter e Bob Dylan ao longo de muitos anos (e até hoje) e mais recentemente com o One Direction, ou melhor, com Harry Styles. E esses são apenas alguns.

 

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como não se apaixonar por esse sorriso?

Sempre que volto pra Stars Hollow me sinto melhor. Ou quando tenho um dia ruim, nada melhor que ir para Pawnee. Quando acho que falta amor no mundo, nada melhor que Shoebox (ou qualquer outra fic de wolfstar). Esses lugares eu conheço, eu sei como funcionam, me sinto segura. É o completo oposto do “mundo real”. Não que eu queira substituir esses mundos, os dois são importantes. Não posso viver em um sem o outro, pois pertenço aos dois.

Quando mais nova, sonhava em andar por Nova York com Holden Caulfield, ou visitar a Suíça com Hans Castorp. Ser fangirl não se limita à cultura pop, pelo contrário. Ser fangirl não é perder tempo classificando a suposta qualidade de obras artísticas e ficcionais, até porque isso é besteira. Ser fangirl é amar algo, sem se importar se é real ou não, pois como o próprio Dumbledore disse e eu já citei; o que é real é bastante relativo.

Sempre amei intensamente livros, filmes, personagens, atores. Minha segunda paixão (a primeira foi o irmão mais velho da minha amiga) foi o Leonardo DiCaprio em Titanic. Eu fazia meus pais alugarem todo o final de semana, naquela época em que o DVD não existia e o filme vinha em duas VHS’s presas por um elástico. Eu lembro que ia pra escola com uma foto recortada de uma revista do Leo – e tudo isso com menos de 6 anos! Mesmo quando achava que passava dos limites e tentava me reprimir (uma grande bobagem, aliás) eu não conseguia! Era mais forte que eu. Com o tempo eu fui amadurecendo e aprendi a conciliar esses dois mundos, mas nunca deixarei de ser fangirl, pois faz parte de quem eu sou.

Um brinde à nós!

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Sirius Black, minha 4738743 paixão ❤ 

manifesto pela dobrinha no canto da página

Como uma boa estudante de Letras, eu amo livros.

Acho até meio cafona dizer isso, mas quando ainda estava na escola decidindo o que queria fazer a vida – e de faculdade -, um dos meus critérios foi: o que eu gosto de fazer? E a minha resposta foi bem óbvia (tão quanto a pergunta): ler! Tinha tudo para dar errado, mas acho que acabou dando meio certo, porque não me imagino fazendo outra faculdade senão Letras. Considero então um sucesso.

Mas não quero falar de faculdade (depois do quinto ano esse assunto vira um tabu), e sim do que me levou a esse martírio curso. Ou seja, quero falar sobre livros.

Gosto de ler desde que me entendo por gente, antes mesmo de me alfabetizar. Na verdade eu não sei direito quando eu comecei a ler, lembro e entender algumas coisas antes de ter alfabetização na escola. Ler e escrever eram definitivamente minhas duas coisas favoritas de fazer por toda minha infância. Eu até tinha o costume e ter sempre um caderno por perto em que anotava (sem saber escrever) o que estava acontecendo em casa.

O primeiro livro que li foi a Árvore Generosa. Meu pai tentou uma vez instituir uma “hora da leitura” em casa – como se já não gostássemos e ler – e me deu esse livro. Meio contrariada porque queria mesmo brincar, li o livro todo e acabei aos prantos. Pra quem não sabe [SPOILERS], o livro conta a história da relação de um menino com uma árvore, desde a infância até a velhice, quando depois de ter cortado a madeira para vender, o menino senta no que restou da árvore e é nessa imagem trágica que acaba o livro.

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Como uma menina sensível e amante da natureza, não tive outra reação senão chorar. A tentativa do meu pai de me fazer gostar de ler poderia ter saído pela culatra, mas o resultado final foi bem satisfatório. Eu acabei relendo o livro várias vezes e tendo a mesma reação, talvez eu gostasse mesmo de manifestações catárticas,  talvez eu só quisesse chorar, ou talvez eu realmente tivesse gostado muito do livro.

Um dia, arrumando a biblioteca de casa, dei de cara com a Árvore Generosa de novo. A capa, mesmo dura, está com uns amassados nas pontas e algumas páginas estão meio dobradas. Olhando para ele logo se pensa: um livro que foi lido.

Nunca me preocupei muito com a conservação dos meus livros, muito menos quando criança. Sempre gostei de reler muitas vezes os livros que gostava, tem alguns até que perderam a capa de tanto que eu dobrei. Tenho alguns amigos que ficariam indignados com isso, mas a verdade é que prefiro muito mais um livro amassado e lido na minha mesinha de cabeceira do que um livro novinho e intocável lá longe na estante.

Nunca perdi tempo preocupada com a minha relação com os livros até que descobri que tinha algumas amigas que nunca tinham lido Harry Potter. 

Quase não acreditei, Harry Potter está presente na minha vida desde meus seis anos, quando li o primeiro livro. Desde então, li e reli a séria incontáveis vezes (a última, por exemplo, terminou algumas semanas atrás). Não tive outra reação senão emprestar meus livros para elas, até porque ser uma milenniall sem ter lido Harry Potter é uma falha e caráter.

Eu nunca tive problemas para emprestar livros, pelo contrário, eu adoro. Quando eu termino um livro que gostei, gosto de compartilhar a experiência. Acho o ato de emprestar/dar livros tão bonito, porque eles são mais que objetos, são outros mundos, outras vivências que podemos experimentar por algum tempo. Como no livro Fahrenheit 451 (eu não li o livro, mas vi o filme) em que os livros são proibidos e há uma comunidade transgressora que, para não perder o conteúdo dos livros, cada pessoa se ocupa de um livro, decorando-o até incorporar toda a história. Os book people são mais que indivíduos, eles se tornam livros ambulantes. Quando vi o filme, fiquei encantada com isso, pois é a metáfora perfeita; quando leio um livro que gosto, me torno mais do que era antes e emprestar um livro é compartilhar essa experiência .

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Fahrenheit 451

Num mundo onde os livros são proibidos, para compartilhar aquela história maneira com o seu amigo é preciso decorar todo o texto ilegalmente e recitá-lo. Mas no nosso mundo, é bem mais simples, é só emprestar o livro. E foi o que eu fiz com Harry Potter.

Quando fui pegar os Harry Potter’s da estante, reparei o estado deles. Todos estavam meio amassados, as páginas rabiscadas e dobradas, alguns até têm fitas adesivas segurando a capa. Mas é claro, são livros que foram lidos e relidos e trelidos muitas vezes durante muitos anos! É assim que gosto dos meus livros: com cara de lidos.

 

Logo quando entrei na Letras, percebi que a minha relação com livros não era unânime. Muitos dos meus colegas tratam seus livros como se fossem de porcelana, levam elas dentro de saquinhos na bolsa e leem sem abrir totalmente para não amassar a lombada. Eu até comecei a me sentir mal comparando os meus livros todos amassados e com as pontas dobradas com cópias que pareciam ter acabado de sair da livraria. Será que tinha passado toda a minha vida cuidando mal dos meus livros?

Ainda no primeiro ano da faculdade, numa aula de Literatura Brasileira sobre Manuel Bandeira,a professora contou uma anedota de quando ela estava no mestrado e participava de um grupo de estudos na casa do Mindlin (aquele bibliófilo que doou sua biblioteca para a USP, que fez um prédio novo para abrigá-la). Ela tinha estacionado o carro bem na frente da casa, mas quando ia embora, viu que seu carro, e todas suas anotações da dissertação de mestrado, não estavam lá. Ela tinha sido roubada. Para tentar compensar a perda, o Mindlin deu para ela uma primeira edição de um livro de poesias do Bandeira, tema da sua pesquisa. Os alunos amaram a história até quando a professora, toda sorridente, falou que o livro que ela havia ganhado era o que ela estava segurando, dobrado no meio, sem nenhuma proteção. A classe toda vacilou assustada num grito silencioso. Na saída da sala todos estavam comentando que a professora devia ser louca para sair de casa com aquele livro que deveria estar guardado com toda a proteção possível. Eu fiquei mais surpresa com a reação dos alunos do que com a atitude da professora. Ué, livros são para ler, ou não?

Sempre me irritei com a fetichização do livro, que no Brasil fica ainda pior, porque com o alto preço o livro vira quase um artigo de luxo. Eu realmente não sei como alguém pode se concentrar no que está lendo com toda a preocupação de não amassar o livro. Muitas das vezes eu nem me dou conta do “estrago” que fiz até terminar de ler.

Uma das coisas que mais gosto de fazer com um livro novo é abrir até dobrar a lombada, para ficar mais confortável de ler. Quando disse isso casualmente numa roda entre amigos fui fortemente rechaçada. Dobro sem culpa a folha para marcar a página quando estou sem marcador e já deixei muitas vezes respingar café nas páginas. Rabisco sem dó, odeio post-its nos livros, ficam sempre caindo. Quando releio um livro e vejo uma anotação, um respingo ou uma dobrinha no canto da página, gosto de pensar que são marcas das minhas outras leituras, são mensagens que mandei para o futuro através do livro e quando as vejo, posso voltar no tempo e lembrar e como era quando li aquele livro pela primeira vez. Se meu livro estivesse intacto, como novo, a experiência não seria a mesma. Sem as minhas marcas, o livro parece que ainda não foi lido, ainda não tem uma história.

Termino o post com um apelo: parem de censurar marcas nos livros! Elas fazem parte da experiência a leitura! Não somos monstros!

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