sobre família, identidade, referências e etc.

Na minha casa sempre foi eu, minha mãe, meu pai, minha irmã mais velha e meu irmão mais novo. Essa é a minha família. Minhas referências vieram quase todas daí. Assim que aprendi a lidar com as pessoas; vendo como se davam as relações na minha casa, entre meus pais e meus irmãos, as brigas, os momentos de grude, as mudanças de humor, as crises, as fases boas e as fazes más, enfim, tudo o que a família oferece.

Crescendo, tive amigos com outros tipos de família. Mas o que mais me chamava a atenção eram aqueles que vinham de família grande, que tinham vó, tios e muitos primos dentro da mesma casa, convivendo cotidianamente. Eu também venho de uma família grande. Só do lado da minha mãe, por exemplo, tenho cinco tias, um tio e não-sei-quantos primos espalhados por aí. Mas ao contrário de alguns amigos que tive, nunca convivi com eles, não no dia a  dia, pelo menos. Me acostumei a ver minha “família estendida” uma vez por ano, geralmente na época do natal (ou às vezes nem isso).

Meus pais saíram de casa muito cedo. Os dois são cariocas, mas vieram pra São Paulo há mais de vinte anos. Eles não vieram juntos, mas ambos decidiram formar aqui sua família (eu pessoalmente acho essa história bem bonita, mas minha opinião nesse caso é bem parcial). Por um lado, eles deixaram para trás todo um suporte familiar já existente, mas por outro, tiveram a chance de começar do zero, sem suas antigas referências, o que é bem corajoso. E assim eles fizeram. E acho até que fizeram bem, porque somos todos meio grudados e auto-suficientes, só nós nos bastamos.

Mas sempre que vamos ao Rio visitar a família, ou alguém vem pra cá e fica hospedado em casa, parece que todos aqueles anos e toda a distância não existiram. É claro que não conheço tão bem minhas tias como conheço minha mãe, ou meus primos como conheço meus irmãos, e vice e versa. Eu costumo brincar com a minha mãe que ela é igual à suas irmãs, principalmente quando elas vêm pra cá. Ela odeia a comparação, mas é a pura verdade. Por mais ~diferentões~ que meus pais queiram ser do resto de suas famílias, e por maior a distância entre nós e eles, sempre vai ter algo que conecta, que nos liga, que nos une. É inevitável.

Um dia, minha mãe achou uma foto dela e de suas irmãs bem novinhas, uma foto que eu nunca tinha visto antes. Quando olhei para a minha mãe ali, quase trinta anos mais nova, eu tomei um susto. Ela estava vestindo um vestido branco de linho quase igual ao que tinha acabado de comprar. Aconteceu a mesma coisa quando cortei meu cabelo curtinho, anos atrás, quando minha mãe me viu, ela tomou um susto e disse que eu parecia demais com ela. Tudo isso totalmente não intencional.

Adoro histórias de família. Entre meus livros preferidos estão “Cem Anos de Solidão”, “O Tempo e o Vento” e “Pais e Filhos” que são, antes de tudo, histórias de família. Amo o desenrolar dos relacionamentos familiares, filhos que crescem, vão embora e depois voltam, irmãos que se reencontram, histórias que se repetem entre as gerações, semelhanças bizarras entre uma pessoa e sua tataravó, órfãos que encontram suas origens, maldições de famílias, etc. Deve se por isso que ando tão viciada em “Keeping Up With The Kardashians”.

Mesmo longe do restante da minha família, eu sei que há outras pessoas parecidas comigo, pessoas que compartilham dos mesmos genes que eu (sim, eu acredito em memória genética), que compartilham da mesma história. Nossa conexão sempre vai existir, mesmo que paremos de nos ver, pois ela é mais forte que a convivência, e isso é uma das coisas mais bonitas nas famílias.

E isso nem tem tanto a ver com genética assim. É claro que os genes influenciam bastante, já que eles definem características tanto externas quanto internas, e até doenças! Mas o elo familiar é bem mais que isso, porque família não é só aquela galera que compartilha o mesmo sobrenome, mas sim as pessoas que escolhemos para compartilhar nossas vidas. E para isso não é preciso estar presente o tempo todo, nem ver a pessoa todos os dias.

Quando meu avô morreu, eu fiquei bem triste. Eu só o via poucas vezes no ano, mas sempre que nos encontrávamos, ele fazia o máximo para me conhecer e me agradar. Ele sempre nos levava no shopping e comprava qualquer coisa que quiséssemos e sempre que ia na casa dele, saía de lá carregando um caderno novo e pacotes de chocolate. E foi assim todos os anos até ele morrer. Por mais que ele quisesse me conhecer, eu nunca senti que conhecia ele. Eu sabia de histórias, mas nunca era ele que as contava. O tempo que passávamos juntos era agradável, mas nunca achei que precisasse fazer perguntas, ter interesse na vida dele, conhecer ele, assim como se faz quando se conhece gente nova.  Eu fiquei triste quando ele morreu não só porque ele era meu avô e eu o amava, mas também porque eu tinha perdido a chance de conhecê-lo. Com o tempo, fui descobrindo coisas novas sobre ele; das coisas que ele gostava, dos livros que ele lia, dos filmes que ele via,  e parecia que assim estava sabendo melhor como ele era. Hoje, às vezes me pego pensando no que meu vô diria sobre alguma situação, notícia, filme no cinema, e assim é a nossa relação. Mesmo não estando mais presente, nós continuamos compartilhando momentos juntos.

Voltando às Kardashians, mesmo com todas as polêmicas, o que as fez tão famosas foi um reality-show sobre a vida delas, sobre família. E como famílias podem ser interessantes! Nos episódios, entre uma briguinha e outra, vemos elas se esforçando para ver todos bem, incluindo os agregados e ex-maridos nos jantares de família, visitando uns aos outros, fazendo companhia em consultas médicas e tratamentos estéticos e por aí vai. O que se sobressai é o amor de família e o suporte que elas dão aos outros. É meio maluco que isso seja um programa de tevê e que elas ganhem muito dinheiro se expondo assim, porque o que é vendido é a vida em família, que já temos de graça, mas isso já é outro papo.

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