eu ainda vou ver o novo filme do woody allen no cinema?

Conheci Woody Allen bem novinha. Devia ter uns 12 ou 13 anos quando vi Bananas pela primeira vez e logo de cara já gostei. Minha mãe, vendo meu interesse se animou e fizemos a festa na locadora perto de casa. Não demorou muito para eu ver a maioria – se não todos até então – dos filmes do Woody Allen.

Eu perdi a conta de quantas vezes eu vi Annie Hall, Hannah e Suas Irmãs ou Poderosa Afrodite (que são meus preferidos). Vibrei quando vi O Sonho de Cassandra no cinema, porque era o primeiro lançamento do Woody Allen que acompanhei e não lembro de me divertir tanto com a minha mãe no cinema de quando fomos ver Vicky Cristina Barcelona. E depois nós duas ficamos por semanas e semanas apaixonadas pelo Javier Bardem

2d3a042a43340e985f307a971d4d85df

um crush coletivo e compartilhado ❤ 

É claro que gostar de Woody Allen adolescente me deixava com aquele status cult e insuportável que eu gostava de ter com 15 anos e sobre o qual eu já falei aqui.

Eu me orgulhava também de conhecer mais do que os clássicos, aqueles que todos já viram, os mais famosos etc e tal. Eu, como boa fangirl que sou, fui atrás de todos os filmes do Woody Allen, dos livros dele, dos livros sobre ele e por aí vai. Eu até tive uma camiseta do cineasta, que usava meio pretensiosamente, como toda boa e velha adolescente.

DSC01016.JPG

desculpe, amigas, mas pelo bem da sinceridade tive que compartilhar essa pérola.

Eu queria saber tudo sobre os filmes minuciosamente, queria entender todas as referências, queria conhecer suas influências e foi por isso que fui me apaixonando cada vez mais por cinema. Sem ter conhecido Woody Allen do jeito que conheci, nunca iria gostar de Bergman, de Fellini, de Almodóvar, Scorscese, e por aí vai. Foi vendo Woody Allen no sofá de casa com 15 anos e achando tudo aquilo o máximo que comecei a gostar de cinema. E a a partir daí, meus gostos foram se moldando para o que são hoje, eu fui me moldando para o que sou hoje. Acredito que nossos gostos importam sim, porque eles fazem parte da nossa identidade e por isso que hoje, para mim, é tão complicado falar de Woody Allen.

Quanto mais fui conhecendo a pessoa Woody Allen mais confusa fui ficando. Pode ser ingenuidade, mas para mim é muito complicado gostar de um artista com um histórico problemático. A faculdade de Letras me ensinou a separar a vida do artista de sua obra, mas toda a minha formação de fangirl me ensinou a descobrir e conhecer tudo junto e misturado, porque quanto mais informação melhor.

Woody Allen se separou de Mia Farrow, sua companheira e parceira de trabalho por 12 anos, para se casar com a filha adotiva de Farrow, Soon-Yi, que é décadas mais nova que ele. Na mesma época da separação, ele foi acusado de ter abusado sexualmente de sua filha com Mia, Dylan Farrow, o que gerou grande polêmica e foi parar nos tribunais, mas o cineasta foi absolvido das acusações.

Anos depois, em 2014, Dylan Farrow publicou uma carta no The New York Times reafirmando as acusações de estupro quando ela tinha apenas 7 anos. Ela começa a carta dizendo “What’s your favorite Woody Allen movie?“, o que toca bem no ponto que quero chegar: até quando separamos vida e obra dos artistas? É certo prestigiar homens estupradores?

O caso voltou a ocupar as manchetes quando Woody Allen recebeu uma homenagem no Globo de Ouro de 2014 e seu filho, Ronan Farrow junto da mãe, Mia Farrow, criticaram o cineasta abertamente no twitter ao mesmo tempo da premiação e do discurso de homenagem feito pela Diane Keaton.

Como fã do trabalho de Woody Allen, eu acompanhei tudo isso e fui ficando cada vez mais perdida. Eu sei o quão é sério acusar um homem, um pai, de estupro. E, como feminista, sei que muitas vezes as vozes das mulheres não são ouvidas, e aprendi a sempre acreditar na vítima. A repercussão do caso na mídia, é claro, tomou o lado do Woody Allen. Li muitos textos defendendo o cineasta, dizendo que as acusações eram falsas, chamando, tanto a Mia Farrow, quanto sua filha de loucas, acusando elas de quererem apenas atenção, li muitas coisas horríveis. Mas também li textos que não entravam na discussão de se o cineasta era culpado ou não, mas que diziam que não podemos deixar de ver seus filmes, porque eles são bons. Vi muita gente tomando partidos publicamente e senti que eu, como fã do Woody Allen, também deveria adotar um posicionamento. Mas eu não consegui.

Vi muitas mulheres nas redes sociais anunciando seu boicote aos filmes do Woody Allen. Eu não acho isso ruim. Acho importante, ainda mais hoje em dia, tomarmos posições, por mais drásticas que elas possam parecer. É possível viver sem assistir a filmes do Woody Allen, eles não são essenciais para a vida e tem muitos filmes bons por aí. Eu queria ter essa clareza, eu queria tomar uma posição e seguir com ela para sempre, mas minha formação está proximamente ligada ao Woody Allen, faz parte da minha construção de identidade, não poderia simplesmente deixar de considerar sua importância. Ao mesmo tempo, não me sinto confortável consumindo filmes de um homem que casou com sua enteada e foi acusado pela filha e ex esposa de estuprador.

Sempre quando penso sobre isso, volto ao caso do Polanski. Ao contrário do Woody Allen, Polanski foi acusado e preso por abuso sexual de uma menina de 13 anos de idade. Ele mesmo assumiu o crime e, pelo caso estar ainda em aberto, ele não retorna para os EUA para não ser preso. Aqui, Polanski assumiu o crime e foi preso por isso e mesmo assim, continuamos a assistir seus filmes sem lembrar do que aconteceu.

Acho bobagem o endeusamento de artistas. Para mim, artistas são pessoas, como eu e você. Eles não são melhores nem piores que ninguém, acho que eles devem ser julgados da mesma maneira que qualquer outra pessoa é julgada. Mas ao mesmo tempo, entendo que julgar um artista é mais complicado, às vezes não dá para ser tão maniqueísta-branco-no-branco-preto-no-preto assim. Eu, por exemplo, não leio Lolita (nem gosto de Nabókov) porque acho errado romantizar abusos, mas continuo vendo e gostando Annie Hall. As pessoas não são tão simples assim.

Por mais que eu procure uma posição clara sendo fã do Woody Allen e, ao mesmo tempo, mulher feminista, acho que o mais importante é a discussão. Poder falar e problematizar abertamente artistas tão consagrados com históricos tão complicados como Woody Allen, e conseguir entender que consumir obras de pessoas machistas/racistas/preconceituosas/abusadores é sim complicado, e que nem sempre separar vida e obra é a melhor opção é o real avanço.

Eu ainda não tenho uma posição exata. Mas tem um novo filme do Woody Allen em cartaz. Talvez não ver o filme no cinema e baixar ilegalmente seja também um ato político. Não sei.

 

Anúncios

Harry Potter and The Cursed People (incluindo ele mesmo)

[SPOILERS, muitos spoilers de Cursed Child! Se você não leu ainda e não quer saber de nada, não leia esse post!]

1469925371_358_harry-potter-and-the-cursed-child-to-broadway-talks-already-underway

Semana passada foi lançado o tão esperado roteiro da peça Harry Potter and The Cursed Child, que narra os acontecimentos no mundo bruxo anos depois da batalha final contra Voldemort.

Muita gente já chamava o texto de “8° livro de Harry Potter“, o desfecho de toda a história. Eu pessoalmente prefiro ficar com o final do sétimo livro, Relíquias da Morte, porque me parece o final mais bem construído literariamente, além de marcar o fim da série de livros, já que Cursed Child é, originalmente, uma peça de teatro.

Desde quando soube que a autora, J.K. Rowling, iria escrever uma peça sobre Harry Potter, já fiquei com o pé atrás. É claro que como qualquer outra fã da série, toda novidade sobre o mundo mágico de Harry Potter é bem-vinda, mas o que me deixou receosa foi exatamente o gênero: Harry Potter é um fenômeno mundial, porque fazer a continuação da história como uma peça de teatro? Só quem estiver em Londres pode ver, ou quem tem muita grana para poder viajar até lá. O resto dos fãs tiveram que se contentar com o roteiro da peça.

Quando o casting foi anunciado, fiquei feliz com a escolha dos atores, principalmente de ter a Norma Dumezweni como Hermione, até porque a cor da personagem nunca foi descrita nos livros, então porque não ela ser negra?

1343300

Hermione ❤

Assim que os spoilers vazaram, não pude me controlar e, em vez de #keepthesecrets, fui procurar sobre o que se tratava a história. Eu estava na casa da Clara quando lemos os spoilers da peça e não conseguimos acreditar que aquilo tinha sido escrito pela mesma pessoa que escreveu todos os outros livros da série. Pessoalmente, achei que podia ser tudo falso para enganar os apressados e a peça ser completamente diferente. Na verdade eu torci para que isso fosse verdade, pois a história parecia ter sido feita numa viagem de ácido.

13942629_10153547913781601_635370372_n

J.K. escrevendo Cursed Child

 

O tempo passou e Cursed Child deixou de ser meu foco principal até que, no final da semana passada, o roteiro foi finalmente lançado! Passei meu domingo lendo e, para a minha infelicidade, aqueles spoilers que tinha lido antes eram todos verdade. Mas tinha mais! Mais surpresas surreais, mais incoerências com o resto da obra, mais esteriótipos de gênero, racismo e por aí vai. Não foram só as falhas com o próprio universo que ela criou e os furos de enredo que me incomodaram – esses até me fizeram rir bastante. Eu fiquei muito mais perturbada como jovem adulta feminista do que como fã incondicional de Harry Potter. Deu pra entender a diferença? Se não, vamos aos problemas:

  1. O papel das mulheres:

Harry Potter, apesar de estar centrado num menino, sempre teve personagens mulheres de muita importância. Hermione, Gina, Luna, Profª Macgonnagall, Bellatrix, entre outras. A escolha por uma atriz negra para interpretar a Hermione na peça foi com toda a certeza um acerto e um passo à frente para a representatividade de pessoas não-brancas na obra. Tendo tudo isso como plano de fundo, Cursed Child errou muito com suas mulheres.

A única personagem feminina que realmente tem importância para  a história é a Hermione. Além de ser Ministra da Magia (sério, quem iria duvidar?), é com ela que Harry descobre o que seu filho está fazendo e juntos eles planejam como remediar a situação. Ela toma decisões e deixa claro – principalmente para seu marido Ron – que não precisa de ajuda ou proteção. Hermione diz mais de uma vez que seu trabalho é uma prioridade, e não se sente culpada de não ser tão presente em casa quanto Ron, que por trabalhar na loja Weasleys Wizard Wheezers, tem horários mais flexíveis. Tudo isso parece ótimo, não imaginaria um futuro diferente para a Hermione, mas a a história não para aí:

Na primeira vez em que Albus e Scorpius alteram o passado para tentar salvar Cedrico de morrer nas mãos do Voldemort, eles retornam para a primeira tarefa do Torneio Tribuxo e, disfarçados de estudantes de Durmstrang, eles impedem que o Cedrico termine sua tarefa na esperança de que essa derrota o impeça de ganhar e, consequentemente, ir parar no cemitério com o Harry. O plano funciona e os meninos retornam ao presente, mas não para o mesmo presente; eles retornam para uma realidade alternativa. As mudanças são poucas; Albus está na Grifinória, Ron é casado com Padma Patil e Hermione é professora de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Chocado com o presente alternativo, Albus busca mais respostas, o porquê de todas as diferenças. Ele descobre que o motivo de Ron e Hermione não estarem casados é porque ela, desconfiada de que Víctor Krum estava por trás da derrota de Cedrico na primeira tarefa do torneio, recusa seu convite para o baile e vai com o Ron. Por causa disso, Ron nunca sente ciúmes de Hermione e, ao invés de se apaixonar por ela, se apaixona por Padma. Toda a justificativa me parece absurda. Desde quando ciúmes é algo positivo? O Ron foi péssimo com a Hermione – e com a Padma também – no baile, sem contar que a tensão romântica/sexual entre os dois já era algo sendo construído. O baile não foi tão significativo assim para o relacionamento deles.

Mas não é só com o casamento de Ron e Padma que choca os meninos. A Hermione alternativa também é bem diferente. Hermione, por não ter se casado com Ron se torna solitária e má. Como professora ela é cruel, humilha os alunos e os reprime por motivos desnecessários. Ela é praticamente uma versão feminina do Snape (o que convenhamos, não é boa coisa). A personagem de Hermione nunca seria uma professora cruel, pelo contrário! Hermione é conhecida por ter uma ética e princípios fortíssimos e ela nunca vai contra eles. Além do mais, ela nunca seria professora de Defesa Contra as Artes das Trevas. Talvez Transfiguração, ou alguma outra matéria mais teórica.

Voltando à realidade principal, temos Rose Granger-Weasley, filha de Ron e Hermione. A princípio ela parece bastante promissora, mas infelizmente só ficamos com esse princípio, já que ela mal aparece na peça. Só a vemos no início da história e bem no final, para justificar a súbita heterossexualidade de Scorpius.

A Gina, que nos livros nunca passou despercebida – mesmo sendo a mais nova de seis irmãos -, na peça ela quase desaparece. Com exceção dos dois momentos em que ela fica brava com o Harry e por proibir que ele e seus filhos comam açúcar. Mas a Gina jamais iria passar despercebida. Ela se torna jornalista esportiva para o Profeta Diário, o que é uma profissão bem bacana para uma mulher, que normalmente nunca está associada a esportes, mas é só. Gina não tem relevância para o enredo da peça, ela só está lá, cumprindo seu papel de esposa do Harry, sem grandes desenvolvimentos.

poppy-miller-bonnie-wright

encontro de Ginas! Parabéns a esse casting!

 

Bellatrix, apesar de ter morrido antes dos acontecimentos da peça, também tem uma trajetória questionável. Delphi, a jovem que persuade Albus a voltar no tempo e salvar o Cedrico, é na verdade filha de Voldemort com Bellatrix, e nasceu em algum momento antes da Batalha de Hogwarts na mansão dos Malfoy. Toda essa trama me parece surreal, porque a Bellatrix representada nos livros nunca teria filhos. E ok, nem todas as mulheres querem/precisam ter filhos, é uma escolha, não um destino. Ter uma personagem feminina claramente má, intimidadora, cruel e que devotou sua vida para uma causa era um ponto positivo na obra. Não que eu goste da Bellatrix, ela era horrível; torturou os pais do Neville, matou Sirius, seu primo, sem pensar duas vezes. Mas ela ia além da representação comum mulheres na ficção. Mas aí ela se torna mãe, o que além de ser improvável, enfraquece a sua própria construção como personagem. Sem contar que, sejamos sinceras, Voldemort não transa, né.

2. As incoerências:

Até agora já foram algumas incoerências; Bellatrix ficar grávida do Voldemort, Hermione ficar solitária, amarga e uma péssima professora, Voldemort transando,  e por aí vai. Mas aos absurdos não param por aí.

Na segunda vez que Albus e Scorpius alteram o passado, eles decidem retornar para a segunda tarefa. Como da primeira vez o boicote do Cedrico não deu certo, eles decidem que irão causar mais danos do que o fracasso do campeão lufano; eles resolvem humilhar o pobre Cedrico. Como a segunda tarefa foi realizada no lago, eles voltam no tempo no banheiro da Murta-que-geme e pelos encanamentos chegam até o lago e fazem um feitiço para a cabeça de Cedrico aumentar, fazendo com que o menino boie ao invés de mergulhar. Conclusão:  Cedrico é motivo de piada e perde o Torneio de vez. Voltando ao presente, apenas Scorpius retorna, pois a realidade foi alterada uma segunda vez.

Cedrico, nessa nova realidade, não morre. Mas por ter sido humilhado no Torneio Tribuxo, ele se torna Comensal da Morte e mata Neville na Batalha de Hogwarts. Por causa disso a Nagini não morre, nem Voldemort, que mata Harry e o mundo bruxo se torna o pior lugar possível.

A ideia de que as alterações do passado criem realidades alternativas funciona bem na peça. O que fica difícil de aceitar é o Cedrico, o galã-coração-de-ouro lufano se tornar um Comensal da Morte, e ainda matar um ex-colega de escola!

É compreensível que, por ser uma obra diferente do restante da saga, os personagens tenham aspectos e interpretações diferentes das dos outros livros. Mas o problema é que Cursed Child é, oficialmente, a continuação da história, o 8° livro da série. Por isso todos esses plot-twists soam falsos e forçados, como se fosse uma fan-fic má escrita (ou até um spin-off de Pretty Little Liars). O Cedrico Diggory que conhecemos nunca se tornaria um Comensal da Morte.

Scorpius, depois de entender o que causou tamanho desastre, consegue achar Snape – que ainda está vivo –  e convence-lo de que aquela realidade não precisa ser a única verdade. Aqui é outra cena bem problemática. É verdade que o canon, a J.K. Rowling e muitos dos fãs de Harry Potter, tratarem Snape como herói. Isso sempre me deu arrepios, porque por mais surpreendente o desfecho dele, Snape nunca foi uma boa pessoa. Ele sofreu bullying dos Marotos em Hogwarts? Sim, mas nada disso justifica o fato de que ele entrou para uma seita fascista e racista. Ok, ele deixou de ser Comensal da Morte para ser espião de Dumbledore, mas ele só saiu porque descobriu que Voldemort iria matar Lily, não porque ele discordasse do Lorde das Trevas. E falando na Lily, por favor, aquilo não era amor. Snape era abusivo, tanto como homem quanto como professor. Ele claramente favorecia os alunos da Sonserina e reprimia injustamente os grifinórios, em especial Harry, Hermione e Neville. Foi ele quem denunciou Lupin, fazendo com que ele pedisse demissão do talvez único emprego estável que ele teve. Snape não era legal, não era uma pessoa maneira. Toda vez que vejo uma referência àquela última fala: “always”, tenho arrepios. Isso não era amor, era relacionamento abusivo cilada.

uncvnw19fam

CRUZ CREDO

E é exatamente isso que ocorre com Snape em Cursed Child, mais uma vez esse personagem, que necessita urgentemente de desconstrução, é heroizado mais uma vez.

tumblr_obatt7W77l1uv45jao1_1280

 

Outra grande incongruência da peça, e que deixou quase todo o fandom bravo, foi o relacionamento entre Albus e Scorpius. Em muitas, muitas passagens do texto, vemos que os dois meninos se importam muito um com o outro. É em Albus que Scorpius pensa quando chegam os dementadores e ele tem de encontrar uma lembrança feliz, é por ele também que Scorpius desiste de ser “Scorpio King” da realidade alternativa para ter seu amigo de volta. Obviamente há uma tensão sexual sendo construída ao longo do texto. O que deixa seu final ainda mais problemático, pois nas últimas páginas, Scorpius lembra de que pertence a um universo heteronormativo e demonstra interesse amoroso em Rose, filha de Ron e Hermione, que mal aparece na peça.

J.K. Rowling nunca apresentou um personagem LGBTQA em Harry Potter. Apesar dela ter afirmado que Dumbledore era gay, nada disso foi escrito em seus livros. Cursed Child poderia ter sido um passo maior para a melhor representatividade na sua obra. Se Hermione é negra, porque não um casal gay? Ainda mais que, em muitos trechos do texto é possível interpretar o início de um romance entre os meninos. Lendo essa virada surpreendentemente heteronormativa, lembrei da minha reação lendo Grande Sertão: Veredas, quando Riobaldo descobre que Diadorim era mulher, o que de alguma forma justificaria o amor deles. Porém, Riobaldo se apaixonou por Diadorim como homem, não como mulher. E para mais uma referência pop de heteronormatividade, Li Shang se apaixonou por Mulan também como homem. Curioso, não?

harry-potter-and-the-cursed-child-to-broadway-talks-already-underway

Scorbus ❤

 

E assim chegamos à terceira e última parte desse post:

3. Nonsense:

Muitas partes são completamente nonsense em Cursed Child. Sério. Tive que reler alguns trechos só pra ter certeza do que estava escrito, que não era invenção da minha cabeça. Lendo os spoilers antes de sair o livro, tive quase certeza que tudo aquilo era invenção de um cara que resolveu enganar meio mundo sobre a história da peça. Mas, infelizmente, era tudo verdade.

Logo no começo, temos uma cena memorável. Cês lembram da tia do carrinho de comidas? Tão adorável! Tão inofensiva! Sempre arrastando seu carrinho pelo trem e deixando crianças mais felizes com sapos de chocolate e tortinhas de abóbora! Pois então, esqueçam tudo isso e lembrem apenas disso:

Por anos e anos fomos enganados, achando que as tortinhas de abóbora era apenas tortinhas de abóbora! Agora sabemos que elas são, na verdade, GRANADAS! E suas mãos se transformam em ESPINHOS!

tumblr_lx1sbgyj8i1qcmpgko1_r1_500

NÃO, OBRIGADA!!!

E novamente Hogwarts ganha o prêmio de Lugar Mais Seguro do Mundo Bruxo™.

Aqui se encaixa também toda aquela história da Bellatrix ter um filho com Voldemort. Tem coisa mais nonsense do que imaginar o Lorde das Trevas, carne e osso e sem nariz transando? Acho que não.

Quem já leu Cursed Child sabe agora que Voldemort e Bellatrix tiveram uma filha, sabe que é melhor manter distância da tia do carrinho de comidas do Expresso de Hogwarts, sabe que Albus e Scorpius são melhores amigos para sempre, sabem que quem é órfão será órfão para sempre (ótima reflexão, Harry), sabe que retratos podem chorar, sabem até que Harry tem medo de pombos. Mas ainda não descobriram como Hermione, Ron, Gina e Draco conseguiram transfigurar o Harry em Voldemort para conseguirem distrair Delphi de seguir com seu plano e impedir que seu pai seja derrotado pelo bebê-Harry. Por sete livros e oito filmes vimos inúmeros bruxos e bruxas transfigurarem objetos em animais, ou em outros objetos; vimos bruxos e bruxas tomarem a poção polissuco e se transformarem em outras pessoas, mas nunca, nunca vimos bruxos e bruxas transfigurarem pessoas em Lorde das Trevas. Como isso aconteceu? Que feitiço utilizaram? Ou foi um encantamento? Não sabemos, mas que aconteceu, aconteceutumblr_mo7mebawbv1rqqwv3o4_250

 

Se quiserem continuar a reflexão sobre Cursed Child, alguns links legais:

What The Hell Is A Panju?”, uma análise bem bacana sobre racismo na obra de J.K. Rowling. Bem mais interessante e desenvolvida do que eu coloquei aqui.

18 ‘Cursed Child’ Moments Which Honestly Make No Sense“, esse post do Buzzfeed me representa 110%.

Harry Potter and the Sanctiones Follow-On Work (or, Fanfictions vs. the Patriarchy)“, outro texto bem maneiro sobre como classificar Cursed Child como fan-fic pode ser um engano.

Harry Potter and the Cursed Child’s Strangest Twist May Have Roots in History“, o texto mais ~diferentão~, que faz uma análise histórico-comparativa de Harry Potter com o III Reich, que talvez justificaria o plot-twist mais controverso.

Harry Potter and the Cursed Child’ includes plenty of fanfic tropes, but ignores queer representation“, mais um pouco sobre a falta de personagens LGBTQA em Harry Potter.

We Need To Talk About The Trolley Witch In ‘Harry Potter And The Cursed Child“, para quem, como eu, não superou a tia do carinho de comidas do Expresso de Hogwarts, um post obrigatório.

Shoebox Project“, pra quem quer ler uma ótima fan-fic de Harry Potter, essa é a melhor opção.

Por hoje é só, meus queridos,

tumblr_loal6btwxb1qjcwuzo1_500

sendo fangirl

Terminei essa semana de ler Fangirl, um livro da autora Rainbow Rowell (o nome mais fofo para a escritora mais fofa de todas). Pra quem não sabe, o livro conta a história da Cath, que escreve fanfiction sobre personagens de uma famosa série de livros. A história começa quando ela e sua irmã gêmea, Wren, chegam na faculdade e têm que se separar pela primeira vez. Cath observa sua irmã se adaptando rapidamente ao novo ambiente, enquanto ela enfrenta algumas dificuldades.

baixar-livro-fangirl-rainbow-rowell-em-pdf-epub-e-mobi-370x532

O livro, além de ser daqueles que se lê sorrindo de tão gostoso que é, fala sobre uma relação pouquíssimo explorada e muito menosprezada, vista como “mais uma bobeira adolescente™”: a relação entre a fã e seu ídolo/obra favorita, ou seja, o ser fangril.

Não preciso ir muito além para dizer que me identifiquei 100% com a protagonista do livro. Não porque eu também escrevo fanfics – porque eu nunca escrevi -,  mas porque eu também criei, ao longo da minha vida, várias relações com artistas/obras/personagens. E muitas vezes era difícil conciliar isso com outras partes da minha vida. Eu não vivia num mundo da fantasia, eu sempre vivi no mundo real, mas isso não quer dizer que eu apenas me relaciono com as pessoas ao meu redor, pois eu  também me relaciono  com os filmes que vejo, os livros que leio, as séries que eu assisto e por aí vai. Sempre foi assim.

Eu sei que eu não vou estudar em Hogwarts, ou ter um caso com o Capitão Rodrigo, ou beber vinho com o Bob Dylan (ok, esse último ainda pode acontecer) e isso não exclui a conexão que eu tenho com eles nem a importância que eles têm na minha vida. Ser fangirl é querer ir em todos os shows, ler todos os livros, assistir todos os filmes no dia da estréia, é passar horas e horas conversando e discutindo com as amigas sobre o mesmo assunto, é sofrer junto, é se identificar junto, é se entender junto. Ser fangirl é se projetar no outro, mas não em qualquer outro, num outro perfeito, que não tem os defeitos humanos, num outro ficcional, livre das falhas e erros que nós sempre estamos sujeitos.

Ser fangil é mais do que ser fã. É mais intenso. É ter naquela obra ou artista um refúgio, um conforto que sempre estará lá, não importa o tempo que passe. Ser fangirl  é criar um espaço só seu, um espaço seguro do mundo, um espaço criado com amor – porque sim, a relação o fã com seu artista/obra é uma relação de amor. Esse mundo criado pode existir apenas na imaginação da fangirl, mas não deixa de ser real (citando Dumbledore) e, diferente do mundo concreto, ele está imune à hostilidade, agressividade, ao ódio, é um lugar protegido de tudo aquilo que nos machuca.

E nada disso é bobo. Nada disso é besteira adolescente. Aliás, porque sempre consideramos a adolescência como uma coisa boba? É quando somos adolescentes que descobrimos quem somos, o que realmente gostamos; é quando começamos a conhecer um mundo fora da perspectiva dos nossos pais, é quando experimentamos um pouco de independência e responsabilidade, quando tentamos nos encaixar no mundo, por mais doloroso que seja. E é sempre doloroso. Ser adolescente é difícil. Machuca, dói. Nada disso é bobo, nada disso é ridículo.

Quando eu tinha 13 anos e ficava triste, eu me refugiava ouvindo Green Day. Aquilo era o meu lugar seguro.  Naquele momento o Billie Joe (o vocalista da banda) estava falando comigo, me ajudando a me sentir melhor, a me sentir compreendida. Acho que a coisa mais importante para um adolescente é a compreensão e a identificação. E nada mais natural do que procurar isso em algo platônico, pois assim a frustração é impossível. A minha relação com o Billie Joe era perfeita; eu o amava e ele me entendia. Era exatamente o que eu precisava.

E foi assim com Green Day, e antes com o Senhor dos Anéis, mais precisamente com o Elijah Wood – sim, era apaixonada pelo Frodo, não me julguem -, com Harry Potter e Bob Dylan ao longo de muitos anos (e até hoje) e mais recentemente com o One Direction, ou melhor, com Harry Styles. E esses são apenas alguns.

 

9fd9c520e8

como não se apaixonar por esse sorriso?

Sempre que volto pra Stars Hollow me sinto melhor. Ou quando tenho um dia ruim, nada melhor que ir para Pawnee. Quando acho que falta amor no mundo, nada melhor que Shoebox (ou qualquer outra fic de wolfstar). Esses lugares eu conheço, eu sei como funcionam, me sinto segura. É o completo oposto do “mundo real”. Não que eu queira substituir esses mundos, os dois são importantes. Não posso viver em um sem o outro, pois pertenço aos dois.

Quando mais nova, sonhava em andar por Nova York com Holden Caulfield, ou visitar a Suíça com Hans Castorp. Ser fangirl não se limita à cultura pop, pelo contrário. Ser fangirl não é perder tempo classificando a suposta qualidade de obras artísticas e ficcionais, até porque isso é besteira. Ser fangirl é amar algo, sem se importar se é real ou não, pois como o próprio Dumbledore disse e eu já citei; o que é real é bastante relativo.

Sempre amei intensamente livros, filmes, personagens, atores. Minha segunda paixão (a primeira foi o irmão mais velho da minha amiga) foi o Leonardo DiCaprio em Titanic. Eu fazia meus pais alugarem todo o final de semana, naquela época em que o DVD não existia e o filme vinha em duas VHS’s presas por um elástico. Eu lembro que ia pra escola com uma foto recortada de uma revista do Leo – e tudo isso com menos de 6 anos! Mesmo quando achava que passava dos limites e tentava me reprimir (uma grande bobagem, aliás) eu não conseguia! Era mais forte que eu. Com o tempo eu fui amadurecendo e aprendi a conciliar esses dois mundos, mas nunca deixarei de ser fangirl, pois faz parte de quem eu sou.

Um brinde à nós!

tumblr_m8klq8zbg71qhyp2z

Sirius Black, minha 4738743 paixão ❤