um outro grito

 

Pensei por muito tempo no que escrever aqui, algum tema para um novo post, algum assunto relevante o bastante para reflexão, algum livro, algum filme, alguma notícia que tenha me chamado atenção, enfim, alguma coisa.

É claro que muitas coisas me chamaram atenção; li um ou dois livros, vi filmes e séries, li jornais, notícias, textões. Aconteceu muita coisa no país nas últimas semanas, assunto não falta. Mas mesmo assim, eu não conseguia – ou não queria – sentar e escrever.

Muitas vezes, ainda mais nesse ano, achei que deveria que dar algum tipo de resposta em vista o que acontece e está acontecendo com o Brasil. Talvez desde as ~jornadas de junho~, lá em 2013, o país se deu conta da força da juventude atual, que era muito criticada por ser a geração da internet, formada nas redes sociais e não nas ruas. Muito se desdenhou da minha geração; diziam que éramos desinteressados e desinteressantes, alienados, etc. Mas em junho de 2013 demos uma virada. Eu fui em algumas manifestações contra o aumento da tarifa naquele ano, não estive na violenta noite do dia 13, mas fui na seguinte, no dia 17. Andando do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes ouvindo um coro de uma mistura de palavras de ordem com o hino nacional, cartazes pedindo o fim da corrupção e o abaixo da tarifa, bandeiras de partidos políticos, estudantes independentes, adultos, idosos e até crianças, me senti fazendo parte, senti que era preciso estar lá, me senti importante naquela multidão. O poder da união é bem forte e naquele dia eu senti isso. Apesar do medo da repressão policial, sabia que quanto mais pessoas juntas, mais fortes nos tornávamos. Dei a mão para as minhas amigas e me senti quase que invencível. Alguns dias depois, com o anúncio da redução da passagem, fiquei satisfeita. Tinha feito parte daquilo; eu, meus amigos, meus colegas, minha geração tinha feito aquilo. Foi incrível!

Depois de Junho muita gente se deu conta do poder da multidão. Os anos seguintes foram muitas as manifestações da direita, querendo também fazer sua voz ser ouvida nas ruas. Com isso, nos lembramos que movimentos fascistas não são geração espontânea, e sim fruto da nossa sociedade e como um monte de gente junta pode ser muito certo, mas é muito fácil ser muito errado também. Grupos pró-ditadura deram as caras, vimos cartazes pedindo a intervenção militar, pessoas fantasiadas de bandeira do Brasil, de camisa da CBF pedindo o fim da corrupção, e por aí vai. No começo eu admito que achava engraçado. A diversão de alguns domingos foi assistir a cobertura dos “protestos” na paulista fechada para carros pelas redes sociais. E do mesmo jeito que logo achei aquilo um absurdo, a piada foi perdendo a graça muito rápido e as consequências daquele fenômeno começaram a chegar.

O dia em que o impeachment se concretizou foi um dia esquisito. Era aniversário de uma amiga muito amiga minha e, entre a faculdade e o jantar de comemoração, saiu a notícia. Ouvi gritos de “Fora Temer”, ouvi fogos de artifício, acompanhei manifestações pela internet, do ônibus queimado na USP em resposta ao assassinato de dois meninos pela PM na comunidade perto da universidade e no meio de tudo isso comi bolo de aniversário e cantei parabéns. Me senti num filme surrealista do Buñuel, nada fazia muito sentido. Tenho me sentido num filme surrealista há algum tempo, na verdade. Vimos deputados votarem em nome de Deus e da família, vimos um golpe se concretizar ao poucos, e “dentro da lei”, vimos a polícia armar táticas de guerra contra a população,  nada disso é certo, nada disso faz sentido.

Como parte da geração que reocupou as ruas, sinto sempre a responsabilidade – e até obrigação – de me dar uma resposta para tudo isso. Não que eu realmente tenha respostas (porque eu mesma não tenho), mas parece que se eu não reagir, me manifestar de alguma forma, é como se não me afetasse. O meu maior medo sempre foi ficar indiferente, apática. Já tive pesadelos em que ficava catatônica, sem conseguir reagir às coisas. Sinto, logo existo. E eu estou sentindo. Talvez minha resposta imediata não seja ir às ruas, ou talvez seja. Talvez conversar com alguém seja mais eficiente, ou conseguir argumentar e mostrar a minha visão das coisas. Talvez o meu papel nisso tudo seja apenas resistir. Na minha vivência de estudante de universidade pública, entrei em contato com movimentos sociais e políticos, coletivos, partidos políticos, fui em assembleias, participei de greves e nisso tudo, o que sempre me incomodou é essa espécie de competição para saber que é o mais revolucionário e desconstruído de todos. Eu sempre me mantive um pé atrás de tudo isso , sempre preferi uma posição de observação. Não digo que ache isso o mais certo, mas acho que é preciso lugar para isso. Eu não preciso gritar palavras de ordem para mostrar minhas convicções políticas, mas as palavras de ordem são gritadas por alguém – e esse alguém também é necessário. A minha necessidade de dar alguma resposta é 100% pessoal. Escrever esse texto é um ato totalmente pessoal. É a forma que consegui digerir esses últimos meses. Talvez semana que vem eu esteja na rua gritando e cantando com outras milhares de pessoas, ou talvez não. Por mais que a multidão faça diferença, às vezes, a resposta precisa ser pessoal. E, às vezes, um pequeno ato pessoal pode ser revolucionário.

Um dia no jantar minha mãe disse que apesar de tudo, ela se sentia feliz de estar vivendo tudo isso; porque, segundo ela, estamos vivenciando a História (essa mesmo, com “h” maiúsculo). Isso ficou na minha cabeça porque eu amo História (e histórias também), sempre foi minha matéria favorita na escola e, de algum jeito meio louco, foi por causa dela que fui parar na Letras (mas essa já é outra história). E mesmo gostando de estudar História, sempre a vi como uma coisa distante. É preciso de distância temporal para analisar fatos históricos, é isso que nos ensinam. E mesmo assim eu concordo com a minha mãe. Estamos vivenciando momentos que com certeza serão estudados daqui a alguns anos. Não tenho dúvidas que irei contar o que vivi pros meus filhos, netos e por aí vai. Gosto da visão que diz que estamos num momento de transição, que, apesar da falta de perspectiva que podemos ter depois da consolidação final do golpe, a esquerda vai conseguir se unir para realmente conseguir vitorias. Gosto de permanecer otimista nesse marzão de notícias ruins, por mais difícil que seja. Eu só consigo passar por isso desse jeito, na verdade.

“Um grito” foi o título do meu primeiro post aqui. Foi por isso que fiz esse blog, para gritar. Acredito no poder das palavras – por mais cafona que isso possa soar – porque elas realmente fazem a diferença, principalmente para quem as grita, ou quem as escreve.

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sendo fangirl

Terminei essa semana de ler Fangirl, um livro da autora Rainbow Rowell (o nome mais fofo para a escritora mais fofa de todas). Pra quem não sabe, o livro conta a história da Cath, que escreve fanfiction sobre personagens de uma famosa série de livros. A história começa quando ela e sua irmã gêmea, Wren, chegam na faculdade e têm que se separar pela primeira vez. Cath observa sua irmã se adaptando rapidamente ao novo ambiente, enquanto ela enfrenta algumas dificuldades.

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O livro, além de ser daqueles que se lê sorrindo de tão gostoso que é, fala sobre uma relação pouquíssimo explorada e muito menosprezada, vista como “mais uma bobeira adolescente™”: a relação entre a fã e seu ídolo/obra favorita, ou seja, o ser fangril.

Não preciso ir muito além para dizer que me identifiquei 100% com a protagonista do livro. Não porque eu também escrevo fanfics – porque eu nunca escrevi -,  mas porque eu também criei, ao longo da minha vida, várias relações com artistas/obras/personagens. E muitas vezes era difícil conciliar isso com outras partes da minha vida. Eu não vivia num mundo da fantasia, eu sempre vivi no mundo real, mas isso não quer dizer que eu apenas me relaciono com as pessoas ao meu redor, pois eu  também me relaciono  com os filmes que vejo, os livros que leio, as séries que eu assisto e por aí vai. Sempre foi assim.

Eu sei que eu não vou estudar em Hogwarts, ou ter um caso com o Capitão Rodrigo, ou beber vinho com o Bob Dylan (ok, esse último ainda pode acontecer) e isso não exclui a conexão que eu tenho com eles nem a importância que eles têm na minha vida. Ser fangirl é querer ir em todos os shows, ler todos os livros, assistir todos os filmes no dia da estréia, é passar horas e horas conversando e discutindo com as amigas sobre o mesmo assunto, é sofrer junto, é se identificar junto, é se entender junto. Ser fangirl é se projetar no outro, mas não em qualquer outro, num outro perfeito, que não tem os defeitos humanos, num outro ficcional, livre das falhas e erros que nós sempre estamos sujeitos.

Ser fangil é mais do que ser fã. É mais intenso. É ter naquela obra ou artista um refúgio, um conforto que sempre estará lá, não importa o tempo que passe. Ser fangirl  é criar um espaço só seu, um espaço seguro do mundo, um espaço criado com amor – porque sim, a relação o fã com seu artista/obra é uma relação de amor. Esse mundo criado pode existir apenas na imaginação da fangirl, mas não deixa de ser real (citando Dumbledore) e, diferente do mundo concreto, ele está imune à hostilidade, agressividade, ao ódio, é um lugar protegido de tudo aquilo que nos machuca.

E nada disso é bobo. Nada disso é besteira adolescente. Aliás, porque sempre consideramos a adolescência como uma coisa boba? É quando somos adolescentes que descobrimos quem somos, o que realmente gostamos; é quando começamos a conhecer um mundo fora da perspectiva dos nossos pais, é quando experimentamos um pouco de independência e responsabilidade, quando tentamos nos encaixar no mundo, por mais doloroso que seja. E é sempre doloroso. Ser adolescente é difícil. Machuca, dói. Nada disso é bobo, nada disso é ridículo.

Quando eu tinha 13 anos e ficava triste, eu me refugiava ouvindo Green Day. Aquilo era o meu lugar seguro.  Naquele momento o Billie Joe (o vocalista da banda) estava falando comigo, me ajudando a me sentir melhor, a me sentir compreendida. Acho que a coisa mais importante para um adolescente é a compreensão e a identificação. E nada mais natural do que procurar isso em algo platônico, pois assim a frustração é impossível. A minha relação com o Billie Joe era perfeita; eu o amava e ele me entendia. Era exatamente o que eu precisava.

E foi assim com Green Day, e antes com o Senhor dos Anéis, mais precisamente com o Elijah Wood – sim, era apaixonada pelo Frodo, não me julguem -, com Harry Potter e Bob Dylan ao longo de muitos anos (e até hoje) e mais recentemente com o One Direction, ou melhor, com Harry Styles. E esses são apenas alguns.

 

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como não se apaixonar por esse sorriso?

Sempre que volto pra Stars Hollow me sinto melhor. Ou quando tenho um dia ruim, nada melhor que ir para Pawnee. Quando acho que falta amor no mundo, nada melhor que Shoebox (ou qualquer outra fic de wolfstar). Esses lugares eu conheço, eu sei como funcionam, me sinto segura. É o completo oposto do “mundo real”. Não que eu queira substituir esses mundos, os dois são importantes. Não posso viver em um sem o outro, pois pertenço aos dois.

Quando mais nova, sonhava em andar por Nova York com Holden Caulfield, ou visitar a Suíça com Hans Castorp. Ser fangirl não se limita à cultura pop, pelo contrário. Ser fangirl não é perder tempo classificando a suposta qualidade de obras artísticas e ficcionais, até porque isso é besteira. Ser fangirl é amar algo, sem se importar se é real ou não, pois como o próprio Dumbledore disse e eu já citei; o que é real é bastante relativo.

Sempre amei intensamente livros, filmes, personagens, atores. Minha segunda paixão (a primeira foi o irmão mais velho da minha amiga) foi o Leonardo DiCaprio em Titanic. Eu fazia meus pais alugarem todo o final de semana, naquela época em que o DVD não existia e o filme vinha em duas VHS’s presas por um elástico. Eu lembro que ia pra escola com uma foto recortada de uma revista do Leo – e tudo isso com menos de 6 anos! Mesmo quando achava que passava dos limites e tentava me reprimir (uma grande bobagem, aliás) eu não conseguia! Era mais forte que eu. Com o tempo eu fui amadurecendo e aprendi a conciliar esses dois mundos, mas nunca deixarei de ser fangirl, pois faz parte de quem eu sou.

Um brinde à nós!

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Sirius Black, minha 4738743 paixão ❤ 

cult versus pop

Eu fui uma adolescente bem chata. Daquelas que levava livro para escola e ia ver filmes “cult” na Reserva Cultural. Não me levem a mal, eu amo ler e ainda frequento a Reserva Cultural – apesar de achar caro e preferir o Belas Artes –, não é esse o ponto. Eu era chata não porque eu gostava dessas coisas, mas porque eu achava que eu deveria ser a mais culta e inteligente, que meus gostos e preferências deviam ser sempre muito refinados. Adorava quando pessoas me diziam: “mas você não é muito jovem pra ler esse livro? ”, ou quando ficavam surpresas quando falava que escolhia os filmes pelo diretor (isso aconteceu de fato numa aula de inglês da oitava série. A professora ficou com uma cara de bunda e soltou um “sorry” meio irônico. Na hora não percebi, mas hoje vejo que era pedante pacas).

 

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foi mal pelo pedantismo, galera

Lá pelos meus 12 e até mais ou menos 15 anos, eu só ouvia punk-rock. Quer dizer, isso era o que eu gostava de afirmar, mas a real é que eu era a maior fã de Green Day que existia, e para combater aqueles que amavam me chamar de emo, eu dizia que gostava mais do começo da carreira deles, quando eles ainda não usavam lápis de olho e cantavam baladas melosas. A verdade verdadeira é que eu amava a carreira toda deles, mas não era emo de jeito nenhum! Imagine!

Para ~abrir meus horizontes~, comecei a ouvir outras coisas além de só Green Day. Fui pesquisar suas influências e acabei achando coisas muito legais. Amo até hoje o The Clash, por exemplo, e amei mais ainda sair por aí com uma camiseta deles e deixar adultos impressionados porque uma menina de 14 anos era fã de punk-rock.

Foi mais ou menos nessa época que comecei a curtir muito cinema. Acho que foi com uns 13 anos que vi Bananas do Woody Allen por acidente na tevê e fiquei encantada. Minha mãe se animou com meu interesse e me deu um “pequeno curso de cinema”, me apresentando Bergman, Fellini, Carlos Saura, Almodóvar, e por aí vai. Agora, imaginem isso: se eu já gostava de ser “aquela menina que tem gostos estranhos para idade dela”, a coisa só piorou quando meu eu de 15 anos espalhava por meio mundo que seu cineasta favorito era o Bergman!

Um tempo atrás eu vi esse tweet:

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desculpa, gente. juro que no fundo eu era legal

Nem posso explica o quanto me identifiquei com ele! Talvez eu mudasse para “se você me conheceu entre 2006-2013 me desculpa”.

Agora volto na questão: não vejo problema em gostar de ter Bergman como cineasta favorito com 15 anos, ou de ler “Crime e Castigo” com 14. Eu hoje ainda amo Bergman e Dostoiévski, talvez até mais do que antes. O problema era que eu achava que gostar dessas coisas e ser ~cult~ me impedia de curtir outras, de me identificar com a cultura pop também; de ler “Crepúsculo” (mesmo achando bem mal escrito) e ver “High School Musical” e “Camp Rock” – e gostar – sem culpa. Mesmo na minha fase punk-rock (que, na real, era bem emo mesmo, sorry), eu assistia MTV freneticamente e gostava escondido de My Chemical Romance e Panic! At the Disco.

No meu primeiro dia de aula do Ensino Médio eu tinha acabado de mudar de escola e não conhecia ninguém, só meu pai que era o professor de artes. Eu queria chegar e dar uma boa impressão logo de cara, então resolvi que no intervalo em vez de socializar com a galera, eu iria ficar lendo “Suave é a Noite” do Fitzgerald. Missão cumprida, 5 minutos depois eu era a ~intelectual~ da sala.  Pedante demais?

O que diria meu eu de 15 anos que ouvia só Beatles e Bob Dylan e via apenas filmes considerados “cabeça” para o meu eu de agora, de 22 anos, que está atualmente relendo “Harry Potter” (desde o início) e ouvindo One Direction sem parar? Não que eu não goste mais de Bob Dylan, pelo contrário, ainda amo de paixão, mas hoje eu sei que gostar de cultura pop, ouvir boybands e ver blockbusters, não deixa as pessoas menos inteligentes e interessantes. E, aliás, pensar assim é uma tremenda bobagem! Eu sempre gostei dos filmes da Disney, de ver novela com a minha mãe, de ler romances açucarados de amores impossíveis, mas eu tentava esconder, tinha vergonha. Outro dia, ouvindo minha playlist no aleatório, logo depois de tocar “AM” do último álbum do One Direction, tocou outra música que eu amo, “Beco do Mota” do Milton Nascimento. E olha só, funcionou!

Falando com uma amiga outro dia, eu brinquei dizendo que depois que eu vi “Gossip Girl” a minha vida mudou. Ela riu, mas eu sabia que era a mais pura verdade. Eu assisti a série durante uma greve da faculdade em 2014 e achei que era maravilhosa. Fiquei me perguntando: por que diabos eu não tinha visto antes?!? Depois daí a minha vida realmente mudou, porque eu achei a série tão incrível que precisava conversar sobre, e aí eu vi que todas as minhas amigas da faculdade tinham visto e que podíamos compartilhar nossas impressões. E discutir as personagens, os dramas, os plot-twists malucos, a quase doentia quantidade de waffles desperdiçados, era fantástico! Por que eu iria ficar com vergonha de fazer parte de uma coisa tão legal?

De uns tempos pra cá eu comecei a ter aversão a tudo que é “cult”. Se vejo uma resenha sobre um filme “cult”, já perco a vontade de ver. O que pode ser uma estratégia de marketing, para mim faz o efeito contrário. Eu gosto mesmo é de ir no cinema e ver filmes, seja o documentário sobre a Marina Abramovic ou o novo X-Men. Eu gosto de ler livros, seja “O Grande Sertão: Veredas” ou “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (o meu favorito da série!). Umas semanas atrás passei grande parte do meu tempo pensando em como estaria o novo cabelo do Harry Styles e eu digo com firmeza que não foi tempo desperdiçado.

Eu não me acho melhor ou pior que ninguém por gostar das coisas que gosto, até porque gosto não é mérito. O que posso afirmar com certeza é que hoje eu sou muito mais sincera comigo mesma, o que já é bem maneiro.

 

sobre leituras e reflexões

Nesses últimos dias andei lendo bastante.

Li vários textos sobre meu projeto de iniciação científica, em que vou tentar relacionar o Brasil dos anos 60 com a URSS; então tenho lido muito sobre a Ditadura Militar, o que não é uma leitura muito agradável de se fazer, ainda mais vendo tudo isso que está acontecendo com o Brasil.

Li também vários textos sobre os absurdos que acontecem no país , um atrás do outro, sem parar. Semana passada até fiquei meio doente e tenho quase 100% de certeza que grande parte foi uma reação à posse do Temer.

Já faz um tempo que o impeachment deixou de ser algo bizarro para ser algo bem triste. Ainda durante a copa, em 2014, lembro que a torcida vaiando a presidenta Dilma ainda representava algo distante e estranho (além de ser extremamente mal educado). Depois tiveram as primeiras manifestações que pediam o afastamento da presidenta, ou até a sua renúncia, e com isso muitos e muitos memes e piadas me fizeram rir e pensar que toda essa galera gritando de verde e amarelo era bem louca, e o que e seus pedidos estavam bem distantes da realidade. Afinal, a Dilma havia vencido as eleições, não é mesmo? Vi o surgimento da maravilhosa página do facebook Humans of Protesto e acompanhei através dela a cobertura de algumas manifestações na Av. Paulista. Todas com requintes de excentricidade e banalidade, o suficiente para fazer uma boa piada e seguir com a vida.

Contudo, desde o começo desse ano que, pelo menos para mim, tudo isso deixou de ter o colorido de bizarrice, de loucura e de ignorância para ser bem perigoso. Foi quando vi selfies com policiais militares e pessoas fantasiadas de CBF, cartazes pedindo a volta dos militares, pessoas dizendo que a censura, os presos políticos, as pessoas torturadas e assassinadas, a falta de liberdade de expressão, foram apenas acidentes de percurso de um governo que só fez o bem do Brasil. Ou pior: pessoas que acreditavam que aquilo mesmo que deveria acontecer, e que nunca deveria ter sido eleita como presidenta do país uma mulher, ainda mais ex-guerrilheira. Todo o preconceito, falta de consciência história, machismo, misoginia me acertou como um soco na cara: aquilo também é o mundo em que vivo, aquelas pessoas são reais, não são memes, elas não estavam lá dizendo abobrinhas, quer dizer, estavam, mas elas realmente acreditavam naquelas abobrinhas.

Conforme o processo de impeachment seguia seu curso, as coisas ficavam cada vez mais sombrias e a minha querida e amada bolha esquerdista e feminista em que vivo foi ficando cada vez mais aparente e menor. Não que pessoas que conheço e gosto começaram a apoiar o golpe, mas continuar a viver despreocupadamente, achando até graça nos panelaços, não era mais possível. Comecei aí a me sentir oprimida. Fui um dia com um amigo na frente do prédio da Fiesp, logo depois que começou aquele “acampamento” anti-Dilma. Estavam lá amarrados bem na frente do prédio o famoso pato e o pixuleco. Paramos lá e fiquei observando, bem curiosa, como aquilo funcionava. Eles tinham um daqueles jogos de colocar a cabeça num corpo de papelão para tirar fotos, que normalmente é de algum personagem, mas o deles era de policiais federais durante a Lava-Jato. Além disso, um grupo segurando uma faixa “Buzine para o impeachment”, ou algo parecido, iam no meio da rua, na frente dos carros toda vez que o semáforo fechava, causando uma profusão de buzinas imensa, além dos gritos e assovios. Achei tudo um espetáculo de bizarrices. Nos primeiros minutos que fiquei lá foi até engraçado, senti um pouco de medo do meu ~estilo~ de fflchiana me denunciar naquela massa verde-amarela, mas ninguém nos abordou. Eu e meu amigo fomos então analisar os bonecos infláveis, fazendo planos mirabolantes de como estourá-los na próxima manifestação. Ainda era meados de março e eu nem imaginava o que viria pela frente, mas na volta para casa, comecei a me sentir pequena, como se tivesse acontecido o inverso: aquilo que eu acreditava ser o certo para o país fosse o motivo de piada.

Algumas semanas depois disso, aconteceu aquela tenebrosa votação da Câmara dos deputados. Se eu as vezes já me sentia um pouco oprimida, depois daquilo foi inevitável. Ainda mais sendo mulher, ver todos aqueles homens distorcendo tudo o que politica pública representa, me deu vontade de chorar. E foi isso que fiz. Acompanhei a votação por um link, sem ver os discursos, como se fosse placar de jogo de futebol, deitada na cama e com os olhos inchados de lágrimas, incapaz até de mudar a aba do navegador para a Netflix e tentar me distrair com alguma série.

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Mesmo depois de tudo aquilo, eu não queria  falar sobre, fazer um post no facebook ou aqui. Minha timeline estava cheia de textões bem lúcidos, informes, algumas tiradas engraçadas, não achava que acrescentaria nada à discussão ao oferecer meu humilde ponto de vista. Mas aí o senado aprovou o pedido de impeachment, a presidenta foi afastada, Michel Temer assumiu e colocou ao seu lado mais homens brancos para compor seu governo, como se já não tivéssemos homens brancos suficientes para ditar nossas vidas. Na faculdade, em casa, no bar da esquina, era difícil não se falar sobre isso. O que diabos está acontecendo com o Brasil?

No dia em que a Dilma saiu da presidência, eu estava no hospital tomando soro e remédios na veia. Meu pai, que estava comigo, tentou colocar esse assunto em pauta, mas eu estava tão abatida que não consegui formular uma sentença direito, preferi ficar lendo meu livro (o último de uma saga chamada “Raven Cycle”, ou “Saga dos Corvos”, no Brasil. Eu recomendo fortemente a leitura, são livros maravilhosos). No caminho de volta para casa ligamos o rádio. Um professor da USP estava sendo entrevistado e foi questionado sobre o próximo passo da, agora, oposição ao governo. Para ele, o governo Temer irá sofre fortemente com a grande resistência da esquerda, não será fácil o aceitamento das decisões retrógradas que serão tomadas, os movimentos sociais não aceitarão os cortes que irão sofrer sem luta, ele disse. Eu e meu pai ouvimos aquilo atentamente e respiramos um pouco mais aliviados. Havia ainda pessoas pensando parecido com a gente, resistindo, assim como nós.

A minha faculdade está de greve, assim como o restante dos estudantes e funcionários da USP. Mesmo sabendo de cor e salteado todos os lados ruins de greves; as aulas perdidas, o esvaziamento da universidade, o estresse,  falta de certezas, perigo de cancelamento do semestre, etc e tal, e mesmo a minha falta de vontade de participar mais ativamente do movimento estudantil e minhas milhares ressalvas com a forma que é feita política na USP, uma das coisas que mais me irritam nesses períodos é quando colegas estudantes se descabelam preocupados com suas formações, suas notas, seus trabalhos. O que mais se vê nos grupos da faculdade são posts do tipo: “tal professor vai dar aula na greve?”. Na primeira greve de estudantes que participei na faculdade, uma professora resolveu reunir seus alunos não para dar aula (afinal estávamos de greve), mas para conversar sobre aquilo tudo que estava acontecendo. Eu ainda não entendia qual deveria ser meu posicionamento sobre a greve, se queria participar ou se queria ter aula. Era o meu segundo ano de faculdade minha primeira experiência do tipo. Lembro até hoje dela falando que, numa situação como a de greve, não importa muito suas decisões como indivíduos, mas sim como coletivo. A nossa categoria de estudantes havia votado pela greve, então; consequentemente, como boa estudante que sou, deveria respeitar essa decisão. Foi uma fala tão simples e lógica, mas me marcou profundamente. Era quase óbvio. Numa universidade pública, bancada por dinheiro público, a decisão de um coletivo de pessoas tomada em uma assembleia democrática deveria ser soberana diante da decisão pessoal de um indivíduo. Assim, talvez um professor  que não concordasse com a greve quisesse dar aula, nós, estudantes em greve não iríamos para a aula. Sem alunos não há aula. Juntos nós estaríamos protegidos. É o mesmo agora. Junto das pessoas que pensam como eu, que são contra às mesmas coisas que eu sou contra, me sinto mais protegida, me sinto representada. Por mais que me sinta sozinha nesse mundo opressor, eu sei que há várias outras pessoas assim como eu, e que juntas ficamos melhor. E é isso me tranquiliza.

 

PS: esse final saiu mais otimista e com uma vibe “juntos venceremos” do que esperava no começo do post. Mas deixarei assim. Acho que é preciso registrar esses raros momentos positivos em frente aos acontecimentos recentes. Eu comecei com a intenção de falar sobre o que estava lendo e acabei falando sobre tudo o que queria evitar de falar. Me senti satisfeita.