um outro grito

 

Pensei por muito tempo no que escrever aqui, algum tema para um novo post, algum assunto relevante o bastante para reflexão, algum livro, algum filme, alguma notícia que tenha me chamado atenção, enfim, alguma coisa.

É claro que muitas coisas me chamaram atenção; li um ou dois livros, vi filmes e séries, li jornais, notícias, textões. Aconteceu muita coisa no país nas últimas semanas, assunto não falta. Mas mesmo assim, eu não conseguia – ou não queria – sentar e escrever.

Muitas vezes, ainda mais nesse ano, achei que deveria que dar algum tipo de resposta em vista o que acontece e está acontecendo com o Brasil. Talvez desde as ~jornadas de junho~, lá em 2013, o país se deu conta da força da juventude atual, que era muito criticada por ser a geração da internet, formada nas redes sociais e não nas ruas. Muito se desdenhou da minha geração; diziam que éramos desinteressados e desinteressantes, alienados, etc. Mas em junho de 2013 demos uma virada. Eu fui em algumas manifestações contra o aumento da tarifa naquele ano, não estive na violenta noite do dia 13, mas fui na seguinte, no dia 17. Andando do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes ouvindo um coro de uma mistura de palavras de ordem com o hino nacional, cartazes pedindo o fim da corrupção e o abaixo da tarifa, bandeiras de partidos políticos, estudantes independentes, adultos, idosos e até crianças, me senti fazendo parte, senti que era preciso estar lá, me senti importante naquela multidão. O poder da união é bem forte e naquele dia eu senti isso. Apesar do medo da repressão policial, sabia que quanto mais pessoas juntas, mais fortes nos tornávamos. Dei a mão para as minhas amigas e me senti quase que invencível. Alguns dias depois, com o anúncio da redução da passagem, fiquei satisfeita. Tinha feito parte daquilo; eu, meus amigos, meus colegas, minha geração tinha feito aquilo. Foi incrível!

Depois de Junho muita gente se deu conta do poder da multidão. Os anos seguintes foram muitas as manifestações da direita, querendo também fazer sua voz ser ouvida nas ruas. Com isso, nos lembramos que movimentos fascistas não são geração espontânea, e sim fruto da nossa sociedade e como um monte de gente junta pode ser muito certo, mas é muito fácil ser muito errado também. Grupos pró-ditadura deram as caras, vimos cartazes pedindo a intervenção militar, pessoas fantasiadas de bandeira do Brasil, de camisa da CBF pedindo o fim da corrupção, e por aí vai. No começo eu admito que achava engraçado. A diversão de alguns domingos foi assistir a cobertura dos “protestos” na paulista fechada para carros pelas redes sociais. E do mesmo jeito que logo achei aquilo um absurdo, a piada foi perdendo a graça muito rápido e as consequências daquele fenômeno começaram a chegar.

O dia em que o impeachment se concretizou foi um dia esquisito. Era aniversário de uma amiga muito amiga minha e, entre a faculdade e o jantar de comemoração, saiu a notícia. Ouvi gritos de “Fora Temer”, ouvi fogos de artifício, acompanhei manifestações pela internet, do ônibus queimado na USP em resposta ao assassinato de dois meninos pela PM na comunidade perto da universidade e no meio de tudo isso comi bolo de aniversário e cantei parabéns. Me senti num filme surrealista do Buñuel, nada fazia muito sentido. Tenho me sentido num filme surrealista há algum tempo, na verdade. Vimos deputados votarem em nome de Deus e da família, vimos um golpe se concretizar ao poucos, e “dentro da lei”, vimos a polícia armar táticas de guerra contra a população,  nada disso é certo, nada disso faz sentido.

Como parte da geração que reocupou as ruas, sinto sempre a responsabilidade – e até obrigação – de me dar uma resposta para tudo isso. Não que eu realmente tenha respostas (porque eu mesma não tenho), mas parece que se eu não reagir, me manifestar de alguma forma, é como se não me afetasse. O meu maior medo sempre foi ficar indiferente, apática. Já tive pesadelos em que ficava catatônica, sem conseguir reagir às coisas. Sinto, logo existo. E eu estou sentindo. Talvez minha resposta imediata não seja ir às ruas, ou talvez seja. Talvez conversar com alguém seja mais eficiente, ou conseguir argumentar e mostrar a minha visão das coisas. Talvez o meu papel nisso tudo seja apenas resistir. Na minha vivência de estudante de universidade pública, entrei em contato com movimentos sociais e políticos, coletivos, partidos políticos, fui em assembleias, participei de greves e nisso tudo, o que sempre me incomodou é essa espécie de competição para saber que é o mais revolucionário e desconstruído de todos. Eu sempre me mantive um pé atrás de tudo isso , sempre preferi uma posição de observação. Não digo que ache isso o mais certo, mas acho que é preciso lugar para isso. Eu não preciso gritar palavras de ordem para mostrar minhas convicções políticas, mas as palavras de ordem são gritadas por alguém – e esse alguém também é necessário. A minha necessidade de dar alguma resposta é 100% pessoal. Escrever esse texto é um ato totalmente pessoal. É a forma que consegui digerir esses últimos meses. Talvez semana que vem eu esteja na rua gritando e cantando com outras milhares de pessoas, ou talvez não. Por mais que a multidão faça diferença, às vezes, a resposta precisa ser pessoal. E, às vezes, um pequeno ato pessoal pode ser revolucionário.

Um dia no jantar minha mãe disse que apesar de tudo, ela se sentia feliz de estar vivendo tudo isso; porque, segundo ela, estamos vivenciando a História (essa mesmo, com “h” maiúsculo). Isso ficou na minha cabeça porque eu amo História (e histórias também), sempre foi minha matéria favorita na escola e, de algum jeito meio louco, foi por causa dela que fui parar na Letras (mas essa já é outra história). E mesmo gostando de estudar História, sempre a vi como uma coisa distante. É preciso de distância temporal para analisar fatos históricos, é isso que nos ensinam. E mesmo assim eu concordo com a minha mãe. Estamos vivenciando momentos que com certeza serão estudados daqui a alguns anos. Não tenho dúvidas que irei contar o que vivi pros meus filhos, netos e por aí vai. Gosto da visão que diz que estamos num momento de transição, que, apesar da falta de perspectiva que podemos ter depois da consolidação final do golpe, a esquerda vai conseguir se unir para realmente conseguir vitorias. Gosto de permanecer otimista nesse marzão de notícias ruins, por mais difícil que seja. Eu só consigo passar por isso desse jeito, na verdade.

“Um grito” foi o título do meu primeiro post aqui. Foi por isso que fiz esse blog, para gritar. Acredito no poder das palavras – por mais cafona que isso possa soar – porque elas realmente fazem a diferença, principalmente para quem as grita, ou quem as escreve.

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Harry Potter and The Cursed People (incluindo ele mesmo)

[SPOILERS, muitos spoilers de Cursed Child! Se você não leu ainda e não quer saber de nada, não leia esse post!]

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Semana passada foi lançado o tão esperado roteiro da peça Harry Potter and The Cursed Child, que narra os acontecimentos no mundo bruxo anos depois da batalha final contra Voldemort.

Muita gente já chamava o texto de “8° livro de Harry Potter“, o desfecho de toda a história. Eu pessoalmente prefiro ficar com o final do sétimo livro, Relíquias da Morte, porque me parece o final mais bem construído literariamente, além de marcar o fim da série de livros, já que Cursed Child é, originalmente, uma peça de teatro.

Desde quando soube que a autora, J.K. Rowling, iria escrever uma peça sobre Harry Potter, já fiquei com o pé atrás. É claro que como qualquer outra fã da série, toda novidade sobre o mundo mágico de Harry Potter é bem-vinda, mas o que me deixou receosa foi exatamente o gênero: Harry Potter é um fenômeno mundial, porque fazer a continuação da história como uma peça de teatro? Só quem estiver em Londres pode ver, ou quem tem muita grana para poder viajar até lá. O resto dos fãs tiveram que se contentar com o roteiro da peça.

Quando o casting foi anunciado, fiquei feliz com a escolha dos atores, principalmente de ter a Norma Dumezweni como Hermione, até porque a cor da personagem nunca foi descrita nos livros, então porque não ela ser negra?

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Hermione ❤

Assim que os spoilers vazaram, não pude me controlar e, em vez de #keepthesecrets, fui procurar sobre o que se tratava a história. Eu estava na casa da Clara quando lemos os spoilers da peça e não conseguimos acreditar que aquilo tinha sido escrito pela mesma pessoa que escreveu todos os outros livros da série. Pessoalmente, achei que podia ser tudo falso para enganar os apressados e a peça ser completamente diferente. Na verdade eu torci para que isso fosse verdade, pois a história parecia ter sido feita numa viagem de ácido.

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J.K. escrevendo Cursed Child

 

O tempo passou e Cursed Child deixou de ser meu foco principal até que, no final da semana passada, o roteiro foi finalmente lançado! Passei meu domingo lendo e, para a minha infelicidade, aqueles spoilers que tinha lido antes eram todos verdade. Mas tinha mais! Mais surpresas surreais, mais incoerências com o resto da obra, mais esteriótipos de gênero, racismo e por aí vai. Não foram só as falhas com o próprio universo que ela criou e os furos de enredo que me incomodaram – esses até me fizeram rir bastante. Eu fiquei muito mais perturbada como jovem adulta feminista do que como fã incondicional de Harry Potter. Deu pra entender a diferença? Se não, vamos aos problemas:

  1. O papel das mulheres:

Harry Potter, apesar de estar centrado num menino, sempre teve personagens mulheres de muita importância. Hermione, Gina, Luna, Profª Macgonnagall, Bellatrix, entre outras. A escolha por uma atriz negra para interpretar a Hermione na peça foi com toda a certeza um acerto e um passo à frente para a representatividade de pessoas não-brancas na obra. Tendo tudo isso como plano de fundo, Cursed Child errou muito com suas mulheres.

A única personagem feminina que realmente tem importância para  a história é a Hermione. Além de ser Ministra da Magia (sério, quem iria duvidar?), é com ela que Harry descobre o que seu filho está fazendo e juntos eles planejam como remediar a situação. Ela toma decisões e deixa claro – principalmente para seu marido Ron – que não precisa de ajuda ou proteção. Hermione diz mais de uma vez que seu trabalho é uma prioridade, e não se sente culpada de não ser tão presente em casa quanto Ron, que por trabalhar na loja Weasleys Wizard Wheezers, tem horários mais flexíveis. Tudo isso parece ótimo, não imaginaria um futuro diferente para a Hermione, mas a a história não para aí:

Na primeira vez em que Albus e Scorpius alteram o passado para tentar salvar Cedrico de morrer nas mãos do Voldemort, eles retornam para a primeira tarefa do Torneio Tribuxo e, disfarçados de estudantes de Durmstrang, eles impedem que o Cedrico termine sua tarefa na esperança de que essa derrota o impeça de ganhar e, consequentemente, ir parar no cemitério com o Harry. O plano funciona e os meninos retornam ao presente, mas não para o mesmo presente; eles retornam para uma realidade alternativa. As mudanças são poucas; Albus está na Grifinória, Ron é casado com Padma Patil e Hermione é professora de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Chocado com o presente alternativo, Albus busca mais respostas, o porquê de todas as diferenças. Ele descobre que o motivo de Ron e Hermione não estarem casados é porque ela, desconfiada de que Víctor Krum estava por trás da derrota de Cedrico na primeira tarefa do torneio, recusa seu convite para o baile e vai com o Ron. Por causa disso, Ron nunca sente ciúmes de Hermione e, ao invés de se apaixonar por ela, se apaixona por Padma. Toda a justificativa me parece absurda. Desde quando ciúmes é algo positivo? O Ron foi péssimo com a Hermione – e com a Padma também – no baile, sem contar que a tensão romântica/sexual entre os dois já era algo sendo construído. O baile não foi tão significativo assim para o relacionamento deles.

Mas não é só com o casamento de Ron e Padma que choca os meninos. A Hermione alternativa também é bem diferente. Hermione, por não ter se casado com Ron se torna solitária e má. Como professora ela é cruel, humilha os alunos e os reprime por motivos desnecessários. Ela é praticamente uma versão feminina do Snape (o que convenhamos, não é boa coisa). A personagem de Hermione nunca seria uma professora cruel, pelo contrário! Hermione é conhecida por ter uma ética e princípios fortíssimos e ela nunca vai contra eles. Além do mais, ela nunca seria professora de Defesa Contra as Artes das Trevas. Talvez Transfiguração, ou alguma outra matéria mais teórica.

Voltando à realidade principal, temos Rose Granger-Weasley, filha de Ron e Hermione. A princípio ela parece bastante promissora, mas infelizmente só ficamos com esse princípio, já que ela mal aparece na peça. Só a vemos no início da história e bem no final, para justificar a súbita heterossexualidade de Scorpius.

A Gina, que nos livros nunca passou despercebida – mesmo sendo a mais nova de seis irmãos -, na peça ela quase desaparece. Com exceção dos dois momentos em que ela fica brava com o Harry e por proibir que ele e seus filhos comam açúcar. Mas a Gina jamais iria passar despercebida. Ela se torna jornalista esportiva para o Profeta Diário, o que é uma profissão bem bacana para uma mulher, que normalmente nunca está associada a esportes, mas é só. Gina não tem relevância para o enredo da peça, ela só está lá, cumprindo seu papel de esposa do Harry, sem grandes desenvolvimentos.

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encontro de Ginas! Parabéns a esse casting!

 

Bellatrix, apesar de ter morrido antes dos acontecimentos da peça, também tem uma trajetória questionável. Delphi, a jovem que persuade Albus a voltar no tempo e salvar o Cedrico, é na verdade filha de Voldemort com Bellatrix, e nasceu em algum momento antes da Batalha de Hogwarts na mansão dos Malfoy. Toda essa trama me parece surreal, porque a Bellatrix representada nos livros nunca teria filhos. E ok, nem todas as mulheres querem/precisam ter filhos, é uma escolha, não um destino. Ter uma personagem feminina claramente má, intimidadora, cruel e que devotou sua vida para uma causa era um ponto positivo na obra. Não que eu goste da Bellatrix, ela era horrível; torturou os pais do Neville, matou Sirius, seu primo, sem pensar duas vezes. Mas ela ia além da representação comum mulheres na ficção. Mas aí ela se torna mãe, o que além de ser improvável, enfraquece a sua própria construção como personagem. Sem contar que, sejamos sinceras, Voldemort não transa, né.

2. As incoerências:

Até agora já foram algumas incoerências; Bellatrix ficar grávida do Voldemort, Hermione ficar solitária, amarga e uma péssima professora, Voldemort transando,  e por aí vai. Mas aos absurdos não param por aí.

Na segunda vez que Albus e Scorpius alteram o passado, eles decidem retornar para a segunda tarefa. Como da primeira vez o boicote do Cedrico não deu certo, eles decidem que irão causar mais danos do que o fracasso do campeão lufano; eles resolvem humilhar o pobre Cedrico. Como a segunda tarefa foi realizada no lago, eles voltam no tempo no banheiro da Murta-que-geme e pelos encanamentos chegam até o lago e fazem um feitiço para a cabeça de Cedrico aumentar, fazendo com que o menino boie ao invés de mergulhar. Conclusão:  Cedrico é motivo de piada e perde o Torneio de vez. Voltando ao presente, apenas Scorpius retorna, pois a realidade foi alterada uma segunda vez.

Cedrico, nessa nova realidade, não morre. Mas por ter sido humilhado no Torneio Tribuxo, ele se torna Comensal da Morte e mata Neville na Batalha de Hogwarts. Por causa disso a Nagini não morre, nem Voldemort, que mata Harry e o mundo bruxo se torna o pior lugar possível.

A ideia de que as alterações do passado criem realidades alternativas funciona bem na peça. O que fica difícil de aceitar é o Cedrico, o galã-coração-de-ouro lufano se tornar um Comensal da Morte, e ainda matar um ex-colega de escola!

É compreensível que, por ser uma obra diferente do restante da saga, os personagens tenham aspectos e interpretações diferentes das dos outros livros. Mas o problema é que Cursed Child é, oficialmente, a continuação da história, o 8° livro da série. Por isso todos esses plot-twists soam falsos e forçados, como se fosse uma fan-fic má escrita (ou até um spin-off de Pretty Little Liars). O Cedrico Diggory que conhecemos nunca se tornaria um Comensal da Morte.

Scorpius, depois de entender o que causou tamanho desastre, consegue achar Snape – que ainda está vivo –  e convence-lo de que aquela realidade não precisa ser a única verdade. Aqui é outra cena bem problemática. É verdade que o canon, a J.K. Rowling e muitos dos fãs de Harry Potter, tratarem Snape como herói. Isso sempre me deu arrepios, porque por mais surpreendente o desfecho dele, Snape nunca foi uma boa pessoa. Ele sofreu bullying dos Marotos em Hogwarts? Sim, mas nada disso justifica o fato de que ele entrou para uma seita fascista e racista. Ok, ele deixou de ser Comensal da Morte para ser espião de Dumbledore, mas ele só saiu porque descobriu que Voldemort iria matar Lily, não porque ele discordasse do Lorde das Trevas. E falando na Lily, por favor, aquilo não era amor. Snape era abusivo, tanto como homem quanto como professor. Ele claramente favorecia os alunos da Sonserina e reprimia injustamente os grifinórios, em especial Harry, Hermione e Neville. Foi ele quem denunciou Lupin, fazendo com que ele pedisse demissão do talvez único emprego estável que ele teve. Snape não era legal, não era uma pessoa maneira. Toda vez que vejo uma referência àquela última fala: “always”, tenho arrepios. Isso não era amor, era relacionamento abusivo cilada.

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CRUZ CREDO

E é exatamente isso que ocorre com Snape em Cursed Child, mais uma vez esse personagem, que necessita urgentemente de desconstrução, é heroizado mais uma vez.

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Outra grande incongruência da peça, e que deixou quase todo o fandom bravo, foi o relacionamento entre Albus e Scorpius. Em muitas, muitas passagens do texto, vemos que os dois meninos se importam muito um com o outro. É em Albus que Scorpius pensa quando chegam os dementadores e ele tem de encontrar uma lembrança feliz, é por ele também que Scorpius desiste de ser “Scorpio King” da realidade alternativa para ter seu amigo de volta. Obviamente há uma tensão sexual sendo construída ao longo do texto. O que deixa seu final ainda mais problemático, pois nas últimas páginas, Scorpius lembra de que pertence a um universo heteronormativo e demonstra interesse amoroso em Rose, filha de Ron e Hermione, que mal aparece na peça.

J.K. Rowling nunca apresentou um personagem LGBTQA em Harry Potter. Apesar dela ter afirmado que Dumbledore era gay, nada disso foi escrito em seus livros. Cursed Child poderia ter sido um passo maior para a melhor representatividade na sua obra. Se Hermione é negra, porque não um casal gay? Ainda mais que, em muitos trechos do texto é possível interpretar o início de um romance entre os meninos. Lendo essa virada surpreendentemente heteronormativa, lembrei da minha reação lendo Grande Sertão: Veredas, quando Riobaldo descobre que Diadorim era mulher, o que de alguma forma justificaria o amor deles. Porém, Riobaldo se apaixonou por Diadorim como homem, não como mulher. E para mais uma referência pop de heteronormatividade, Li Shang se apaixonou por Mulan também como homem. Curioso, não?

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Scorbus ❤

 

E assim chegamos à terceira e última parte desse post:

3. Nonsense:

Muitas partes são completamente nonsense em Cursed Child. Sério. Tive que reler alguns trechos só pra ter certeza do que estava escrito, que não era invenção da minha cabeça. Lendo os spoilers antes de sair o livro, tive quase certeza que tudo aquilo era invenção de um cara que resolveu enganar meio mundo sobre a história da peça. Mas, infelizmente, era tudo verdade.

Logo no começo, temos uma cena memorável. Cês lembram da tia do carrinho de comidas? Tão adorável! Tão inofensiva! Sempre arrastando seu carrinho pelo trem e deixando crianças mais felizes com sapos de chocolate e tortinhas de abóbora! Pois então, esqueçam tudo isso e lembrem apenas disso:

Por anos e anos fomos enganados, achando que as tortinhas de abóbora era apenas tortinhas de abóbora! Agora sabemos que elas são, na verdade, GRANADAS! E suas mãos se transformam em ESPINHOS!

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NÃO, OBRIGADA!!!

E novamente Hogwarts ganha o prêmio de Lugar Mais Seguro do Mundo Bruxo™.

Aqui se encaixa também toda aquela história da Bellatrix ter um filho com Voldemort. Tem coisa mais nonsense do que imaginar o Lorde das Trevas, carne e osso e sem nariz transando? Acho que não.

Quem já leu Cursed Child sabe agora que Voldemort e Bellatrix tiveram uma filha, sabe que é melhor manter distância da tia do carrinho de comidas do Expresso de Hogwarts, sabe que Albus e Scorpius são melhores amigos para sempre, sabem que quem é órfão será órfão para sempre (ótima reflexão, Harry), sabe que retratos podem chorar, sabem até que Harry tem medo de pombos. Mas ainda não descobriram como Hermione, Ron, Gina e Draco conseguiram transfigurar o Harry em Voldemort para conseguirem distrair Delphi de seguir com seu plano e impedir que seu pai seja derrotado pelo bebê-Harry. Por sete livros e oito filmes vimos inúmeros bruxos e bruxas transfigurarem objetos em animais, ou em outros objetos; vimos bruxos e bruxas tomarem a poção polissuco e se transformarem em outras pessoas, mas nunca, nunca vimos bruxos e bruxas transfigurarem pessoas em Lorde das Trevas. Como isso aconteceu? Que feitiço utilizaram? Ou foi um encantamento? Não sabemos, mas que aconteceu, aconteceutumblr_mo7mebawbv1rqqwv3o4_250

 

Se quiserem continuar a reflexão sobre Cursed Child, alguns links legais:

What The Hell Is A Panju?”, uma análise bem bacana sobre racismo na obra de J.K. Rowling. Bem mais interessante e desenvolvida do que eu coloquei aqui.

18 ‘Cursed Child’ Moments Which Honestly Make No Sense“, esse post do Buzzfeed me representa 110%.

Harry Potter and the Sanctiones Follow-On Work (or, Fanfictions vs. the Patriarchy)“, outro texto bem maneiro sobre como classificar Cursed Child como fan-fic pode ser um engano.

Harry Potter and the Cursed Child’s Strangest Twist May Have Roots in History“, o texto mais ~diferentão~, que faz uma análise histórico-comparativa de Harry Potter com o III Reich, que talvez justificaria o plot-twist mais controverso.

Harry Potter and the Cursed Child’ includes plenty of fanfic tropes, but ignores queer representation“, mais um pouco sobre a falta de personagens LGBTQA em Harry Potter.

We Need To Talk About The Trolley Witch In ‘Harry Potter And The Cursed Child“, para quem, como eu, não superou a tia do carinho de comidas do Expresso de Hogwarts, um post obrigatório.

Shoebox Project“, pra quem quer ler uma ótima fan-fic de Harry Potter, essa é a melhor opção.

Por hoje é só, meus queridos,

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testemunhas de problematização

ATENÇÃO AOS NAVEGANTES: O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS!

Mas podem respirar tranquilos, porque não são spoilers de Game of Thrones, ou de The Cursed Child. São spoilers de um filme de 1957 chamado Testemunha de Acusação (“Witness of Prosecution”). Eu tentei escrever sem os spoilers, mas pelo bem da argumentação, não tive como deixar de lado todo o enredo do filme. Desculpe, família, eu falhei.

Ontem eu vi Testemunha de Acusação com a minha mãe. Estávamos procurando um filme na netflix e aí, quando passamos por esse e minha mãe decidiu: “É esse!”. Ela já tinha visto várias e várias vezes e amado muito  e eu já tinha colocado na minha lista para ver qualquer dia, então parecia a escolha perfeita. O filme é do diretor Billy Wilder, o que me animou mais, porque eu acho ele ótimo, e nunca vi um filme dele que não gostei.

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Pra quem não sabe, o filme tem a maravilhosa Marlene Dietrich, que faz a esposa de um recém réu acusado por homicídio. O filme começa com o advogado (Charles Laughton) Wilfred Robarts, que acabou de se recuperar de um infarto. Chega até ele um amigo, também advogado, pedindo que assuma o caso de Leonard Vole (Tyrone Power), o marido de Christine Vole (Dietrich). Leonard parece ser bem ingênuo quando conta o seu lado da história; de como conheceu, por acaso, uma rica viúva, e de como eles ficaram amigos até que, numa noite, após ele ter saído da casa dela em direção à sua, a viúva fora assassinada e que ele, Leonard, se tornou o principal suspeito. Wilfred, conhecido por defender casos considerados impossíveis, logo se interessa por esse; ainda mais quando conhece a esposa do acusado, Christine Vole, que não parece muito apaixonada pelo seu marido tanto quanto ele deixou a entender. Wilfred deixa claro que somente ela pode confirmar o álibi do marido e que o juri normalmente não considera como importante o depoimento de uma esposa dedicada, mas Cristine parece o oposto de dedicada e consegue fazer os advogados duvidarem da inocência de seu marido.

Wilfred, quase mais intrigado com a esposa misteriosa do que com seu cliente, questiona Leonard sobre  como ele conheceu Christine. A história é contada toda em flashback, assim podemos ver como Cristine, uma alemã que tenta sobreviver no pós-guerra se apresentando num bar para uma centena de soldados americanos, encontra seu futuro marido, também soldado americano. No meio da apresentação, Christine, que está cantando e tocando acordeão e vestida toda de preto – calça e camiseta – começa a ser assediada pelos soldados, que pedem para ver mais de seu corpo. Começa aí uma cena bem desconfortável de se ver: a centena de soldados vão para cima de Christine e o resto da banda – e Leonard – ficam de fora, apenas observando. O barulho chama atenção da polícia, que esvazia o local. Leonard retorna e encontra Christine abaixada, tentando arrumar a bagunça do bar, com suas roupas rasgadas e cabelos bagunçados. A cena é obviamente suavizada, mas fica claro que Christine acabou de ser abusada. Leonard tenta consolá-la dizendo que a culpa foi dela mesmo, que iludiu os soldados com o cartaz de seu show – uma mulher num maiô dançando – e quebrou a expectativa deles se apresentando de calças compridas.

Essa cena me incomodou bastante, ainda mais porque conta a história de como Christine e Leonard se apaixonam um pelo outro, o que fica meio forçado, já que não acredito que uma mulher que acabou de ser abusada coletivamente possa ter um encontro romântico e ficar tudo bem com isso. Mas ok, é um filme. Eu comentei com a minha mãe sobre meu desconforto e ela me disse que se eu não tinha gostado dessa parte, ia detestar o final.

O julgamento começa e, para surpresa de todos, Christine é chamada como testemunha da acusação. Seu depoimento é bastante polêmico, pois ela não confirma o álibi de seu marido, pelo contrário, reafirma a acusação de homicídio. A reação do público e júri é bastante surpreendente, pois ninguém fica bravo com o marido, que está sendo julgado por homicídio, mas todos deixam clara a imensa antipatia pela mulher.

Com o caso quase perdido, Wilfred recebe uma ligação misteriosa de uma mulher que pode ter provas de que Christine estava mentindo. Eles marcam um encontro e ela vende ao advogado cartas de Christine para o seu suposto amante contando como ela planejava mentir no tribunal para acusar seu marido e se ver livre de um casamento infeliz. Quando essas provas são apresentadas, o júri não tem mais dúvidas e Leonard é inocentado. Aí que vem a grande reviravolta: após o término do julgamento, Christine e Wilfrid conversam e ela confessa que foi tudo uma armação. Após ele ter falado para ela, no primeiro encontro deles, que o júri nunca iria acreditar no depoimento de uma esposa dedicada, ela decidiu fazer o contrário; dizer que Leonard era mesmo culpado e depois fingir um adultério para que seu depoimento fosse descreditado e seu marido inocentado. Leonard realmente matou a velha viúva pela sua herança e os dois criaram juntos um plano para inocentá-lo no tribunal. Acontece que, ao contrario de que Christine pensava, Leonard tinha uma amante e após ser inocentado, planejava uma viajar com ela e abandonar sua esposa. No meio da revelação, Christine pega uma faca e mata seu marido e depois é levada presa por policiais. No meio dessa confusão, Wilfred decide adiar suas férias e assumir outro caso, a defesa de Cristine.

Quando o filme acabou, perguntei pra minha mãe por que ela achava que eu não iria gostar do final (na real eu tinha gostado bastante) e ela me disse: “porque a Cristine era, na verdade, a malvada”. Mas não, ela não era a malvada. Pelo contrário, a maior vítima da história era ela. Vítima por ser mulher e estar sozinha num país devastado pela guerra, vítima por ter que se submeter a abusos e assédios para sobreviver, vítima por ter que se envolver com um homem e casar com ele para conseguir sair do país, vítima por ser enganada e usada pelo mesmo homem e vítima por apenas ser mulher numa sociedade de homens.

Não quero aqui dizer que devemos parar de assistir filmes velhos. Pelo contrário! Eu adoro filmes velhos e acho que devemos continuar assistindo. Quanto mais filmes melhor! Mas eu odeio esse papo que só porque tal coisa é antiga devemos desconsiderar a problematização. Discordo completamente, até porque de que vale a problematização se ela for parcial? Odeio também esse tom acusatório que muita gente assume quando algum filme/obra/artista é problematizado, como se discutir sobre algo desmerecesse seu valor artístico. E na real, e se desmerecer? Eu, por exemplo, tenho a maior preguiça do mundo pra ler Nabokov. Ele pode ter sido um grande escritor, mas a história de Lolita me faz ter náuseas só de pensar. Pode ser uma grande obra da literatura mundial, mas eu não quero ler, estou perdendo tanta coisa assim? Afinal, tem vários outros grandes escritores por aí e eu não sou nem um pouco obrigada a ler todos.

Mas não é essa a questão. Voltemos ao filme.

A cena do abuso colocada em Testemunha de Acusação, por exemplo, só reafirma que nossa sociedade está imersa na cultura do estupro. Porque, afinal, uma mulher sozinha que se apresenta num bar cheio de soldados tem que saber o que a espera. E isso é reafirmado pela fala de seu futuro marido, que confirma sua “culpa” diante do acontecido. E aqui a desculpa que o filme é velho nem cola, por que isso acontece, infelizmente, até hoje, e com bastante frequência. Logo depois da cena, eu comentei com a minha mãe: “caraca, em que mundo uma mulher que acabou de ser estuprada convida um homem pro seu quarto?”. No mundo de ficção talvez? Ou num mundo que considera normal esse tipo de abuso? É claro não era a intenção do filme mostrar os sofrimentos de uma mulher, não era esse o ponto. A cena não foi feita para incomodar, e sim para dar o tom do romance, afinal, Leonard salvou Christine quando se casou com ela, levando-a da Alemanha derrotada para os Estados Unidos.

Mas eu me incomodei com a cena. Assim como me incomoda ver cenas de estupro ficcionais, e assim como e incomoda ver violência contra mulheres em filmes, novelas, séries, etc. Me incomoda porque a violência é real. E quando ela vai para ficção, não aparece em tom de denúncia, mas muitas vezes é romantizada, ou usadas para justificar as atitudes de personagens, ou reviravoltas do enredo.

O meu incômodo com a cena me fez pensar também que talvez eu não me incomodasse tanto uns anos atrás. E isso é óbvio, porque mudamos com o tempo. As sociedades mudam com o tempo. Os paradigmas mudam com o tempo. Tudo muda com o tempo. Então porque não podemos desconstruir e problematizar representações artísticas? A obra de arte é tão frágil que pode ser deslegitimada só pelo olhar crítico? Eu acho que não.

Ao contrário do que minha mãe achou, eu gostei bastante do filme. Os diálogos são ótimos, as reviravoltas realmente me surpreenderam, o trabalho dos atores é incrível e Marlene Dietrich é realmente muito maravilhosa. O fato de que eu me incomodei com várias coisas no filme não quer dizer que eu não tenha achado bom. Até porque, uma boa obra de arte só aumenta seu valor quando é discutida, problematizada, analisada criticamente.

Eu quero poder falar abertamente sobre cinema, sobre literatura, sobre arte. Detesto essa visão de que o artista é sagrado e que ele está acima de julgamentos. Eu quero poder falar livremente que me incomoda ver um filme do Woody Allen hoje, por mais que eu goste muito da sua obra, sem que alguém me diga que eu tenho que separar o artista da sua obra. Será mesmo que temos que separar? Eu continuo gostando muito dos filmes do Woody Allen. Annie Hall sem dúvidas é um dos meus filmes favoritos, mas me incomoda ir ao cinema e ver um filme dele, e cada vez eu tenho mais certeza que precisamos falar sobre isso. É ok continuar consumindo obras de estupradores? Polanski até hoje é proibido de voltar para os Estados Unidos e, mesmo sendo culpado de abuso sexual, continua sendo um cineasta renomado. Isso é ok? Um artista está acima da lei?

Ver Testemunha de Acusação me fez perceber que precisamos urgentemente discutir sobre isso, até porque essa também é uma das funções da obra de arte: incitar discussões, argumentos, quebrar paradigmas, e não ser algo estático, sagrado e acima de problematizações. E afinal, estamos em 2016, século XXI, precisamos perceber que as coisas mudam, até (surpreendentemente) na arte.

PS: peço perdão pelo trocadilho horrível do título. Quebrei minha cabeça pra pensar um título melhor e não consegui. Novamente, desculpe, família, falhei.

sobre leituras e reflexões

Nesses últimos dias andei lendo bastante.

Li vários textos sobre meu projeto de iniciação científica, em que vou tentar relacionar o Brasil dos anos 60 com a URSS; então tenho lido muito sobre a Ditadura Militar, o que não é uma leitura muito agradável de se fazer, ainda mais vendo tudo isso que está acontecendo com o Brasil.

Li também vários textos sobre os absurdos que acontecem no país , um atrás do outro, sem parar. Semana passada até fiquei meio doente e tenho quase 100% de certeza que grande parte foi uma reação à posse do Temer.

Já faz um tempo que o impeachment deixou de ser algo bizarro para ser algo bem triste. Ainda durante a copa, em 2014, lembro que a torcida vaiando a presidenta Dilma ainda representava algo distante e estranho (além de ser extremamente mal educado). Depois tiveram as primeiras manifestações que pediam o afastamento da presidenta, ou até a sua renúncia, e com isso muitos e muitos memes e piadas me fizeram rir e pensar que toda essa galera gritando de verde e amarelo era bem louca, e o que e seus pedidos estavam bem distantes da realidade. Afinal, a Dilma havia vencido as eleições, não é mesmo? Vi o surgimento da maravilhosa página do facebook Humans of Protesto e acompanhei através dela a cobertura de algumas manifestações na Av. Paulista. Todas com requintes de excentricidade e banalidade, o suficiente para fazer uma boa piada e seguir com a vida.

Contudo, desde o começo desse ano que, pelo menos para mim, tudo isso deixou de ter o colorido de bizarrice, de loucura e de ignorância para ser bem perigoso. Foi quando vi selfies com policiais militares e pessoas fantasiadas de CBF, cartazes pedindo a volta dos militares, pessoas dizendo que a censura, os presos políticos, as pessoas torturadas e assassinadas, a falta de liberdade de expressão, foram apenas acidentes de percurso de um governo que só fez o bem do Brasil. Ou pior: pessoas que acreditavam que aquilo mesmo que deveria acontecer, e que nunca deveria ter sido eleita como presidenta do país uma mulher, ainda mais ex-guerrilheira. Todo o preconceito, falta de consciência história, machismo, misoginia me acertou como um soco na cara: aquilo também é o mundo em que vivo, aquelas pessoas são reais, não são memes, elas não estavam lá dizendo abobrinhas, quer dizer, estavam, mas elas realmente acreditavam naquelas abobrinhas.

Conforme o processo de impeachment seguia seu curso, as coisas ficavam cada vez mais sombrias e a minha querida e amada bolha esquerdista e feminista em que vivo foi ficando cada vez mais aparente e menor. Não que pessoas que conheço e gosto começaram a apoiar o golpe, mas continuar a viver despreocupadamente, achando até graça nos panelaços, não era mais possível. Comecei aí a me sentir oprimida. Fui um dia com um amigo na frente do prédio da Fiesp, logo depois que começou aquele “acampamento” anti-Dilma. Estavam lá amarrados bem na frente do prédio o famoso pato e o pixuleco. Paramos lá e fiquei observando, bem curiosa, como aquilo funcionava. Eles tinham um daqueles jogos de colocar a cabeça num corpo de papelão para tirar fotos, que normalmente é de algum personagem, mas o deles era de policiais federais durante a Lava-Jato. Além disso, um grupo segurando uma faixa “Buzine para o impeachment”, ou algo parecido, iam no meio da rua, na frente dos carros toda vez que o semáforo fechava, causando uma profusão de buzinas imensa, além dos gritos e assovios. Achei tudo um espetáculo de bizarrices. Nos primeiros minutos que fiquei lá foi até engraçado, senti um pouco de medo do meu ~estilo~ de fflchiana me denunciar naquela massa verde-amarela, mas ninguém nos abordou. Eu e meu amigo fomos então analisar os bonecos infláveis, fazendo planos mirabolantes de como estourá-los na próxima manifestação. Ainda era meados de março e eu nem imaginava o que viria pela frente, mas na volta para casa, comecei a me sentir pequena, como se tivesse acontecido o inverso: aquilo que eu acreditava ser o certo para o país fosse o motivo de piada.

Algumas semanas depois disso, aconteceu aquela tenebrosa votação da Câmara dos deputados. Se eu as vezes já me sentia um pouco oprimida, depois daquilo foi inevitável. Ainda mais sendo mulher, ver todos aqueles homens distorcendo tudo o que politica pública representa, me deu vontade de chorar. E foi isso que fiz. Acompanhei a votação por um link, sem ver os discursos, como se fosse placar de jogo de futebol, deitada na cama e com os olhos inchados de lágrimas, incapaz até de mudar a aba do navegador para a Netflix e tentar me distrair com alguma série.

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Mesmo depois de tudo aquilo, eu não queria  falar sobre, fazer um post no facebook ou aqui. Minha timeline estava cheia de textões bem lúcidos, informes, algumas tiradas engraçadas, não achava que acrescentaria nada à discussão ao oferecer meu humilde ponto de vista. Mas aí o senado aprovou o pedido de impeachment, a presidenta foi afastada, Michel Temer assumiu e colocou ao seu lado mais homens brancos para compor seu governo, como se já não tivéssemos homens brancos suficientes para ditar nossas vidas. Na faculdade, em casa, no bar da esquina, era difícil não se falar sobre isso. O que diabos está acontecendo com o Brasil?

No dia em que a Dilma saiu da presidência, eu estava no hospital tomando soro e remédios na veia. Meu pai, que estava comigo, tentou colocar esse assunto em pauta, mas eu estava tão abatida que não consegui formular uma sentença direito, preferi ficar lendo meu livro (o último de uma saga chamada “Raven Cycle”, ou “Saga dos Corvos”, no Brasil. Eu recomendo fortemente a leitura, são livros maravilhosos). No caminho de volta para casa ligamos o rádio. Um professor da USP estava sendo entrevistado e foi questionado sobre o próximo passo da, agora, oposição ao governo. Para ele, o governo Temer irá sofre fortemente com a grande resistência da esquerda, não será fácil o aceitamento das decisões retrógradas que serão tomadas, os movimentos sociais não aceitarão os cortes que irão sofrer sem luta, ele disse. Eu e meu pai ouvimos aquilo atentamente e respiramos um pouco mais aliviados. Havia ainda pessoas pensando parecido com a gente, resistindo, assim como nós.

A minha faculdade está de greve, assim como o restante dos estudantes e funcionários da USP. Mesmo sabendo de cor e salteado todos os lados ruins de greves; as aulas perdidas, o esvaziamento da universidade, o estresse,  falta de certezas, perigo de cancelamento do semestre, etc e tal, e mesmo a minha falta de vontade de participar mais ativamente do movimento estudantil e minhas milhares ressalvas com a forma que é feita política na USP, uma das coisas que mais me irritam nesses períodos é quando colegas estudantes se descabelam preocupados com suas formações, suas notas, seus trabalhos. O que mais se vê nos grupos da faculdade são posts do tipo: “tal professor vai dar aula na greve?”. Na primeira greve de estudantes que participei na faculdade, uma professora resolveu reunir seus alunos não para dar aula (afinal estávamos de greve), mas para conversar sobre aquilo tudo que estava acontecendo. Eu ainda não entendia qual deveria ser meu posicionamento sobre a greve, se queria participar ou se queria ter aula. Era o meu segundo ano de faculdade minha primeira experiência do tipo. Lembro até hoje dela falando que, numa situação como a de greve, não importa muito suas decisões como indivíduos, mas sim como coletivo. A nossa categoria de estudantes havia votado pela greve, então; consequentemente, como boa estudante que sou, deveria respeitar essa decisão. Foi uma fala tão simples e lógica, mas me marcou profundamente. Era quase óbvio. Numa universidade pública, bancada por dinheiro público, a decisão de um coletivo de pessoas tomada em uma assembleia democrática deveria ser soberana diante da decisão pessoal de um indivíduo. Assim, talvez um professor  que não concordasse com a greve quisesse dar aula, nós, estudantes em greve não iríamos para a aula. Sem alunos não há aula. Juntos nós estaríamos protegidos. É o mesmo agora. Junto das pessoas que pensam como eu, que são contra às mesmas coisas que eu sou contra, me sinto mais protegida, me sinto representada. Por mais que me sinta sozinha nesse mundo opressor, eu sei que há várias outras pessoas assim como eu, e que juntas ficamos melhor. E é isso me tranquiliza.

 

PS: esse final saiu mais otimista e com uma vibe “juntos venceremos” do que esperava no começo do post. Mas deixarei assim. Acho que é preciso registrar esses raros momentos positivos em frente aos acontecimentos recentes. Eu comecei com a intenção de falar sobre o que estava lendo e acabei falando sobre tudo o que queria evitar de falar. Me senti satisfeita.

Zona Oeste e seus mistérios

Apesar dos meus pais serem cariocas, eu e meus irmãos somos todos paulistanos, born and raised com orgulho em São Paulo. Tirando os momentos em que quero largar tudo e ir morar no meio do mato – o que tem acontecido com bastante frequência nos últimos tempos -, eu amo ter nascido em SP, amo mesmo. E muitas vezes sou bem clichê; amo andar à pé no centro antigo, atravessar a Paulista na chuva (menos a esquina da Paulista com a Augusta, que está no meu top 5 de lugares que mais odeio), caminhar pela cidade no inverno, quando o vento é bem frio, mas  o sol é bem quente, gosto muito chegar de viagem à noite e poder ver o contraste entre o escuro do céu com as luzes dos prédios, olhar para cima e me sentir bem pequenininha no meio da imensidão da cidade grande.

Andar à pé pela cidade é uma das coisas que mais gosto de fazer, “caminhando contra o vento sem lenço, sem documento”, assim, que nem Caetano. Mesmo tendo tirado a carta de habilitação, o carro é de longe o meio de transporte que menos gosto. Então, acumulei anos e anos de experiência pelas calçadas da cidade. Porém, mesmo com toda a minha vivência ~das ruas~, eu nunca consegui entender muito bem a divisão dos bairros de São Paulo.

Eu moro na Zona Oeste desde bebê, e estou na casa em que moro hoje há mais de quinze anos, o que me dá uma boa vivência pelos bairros da ZO. Moro na Lapa, minha mãe trabalha em Perdizes (ou será Pompéia?), já morei na Vila Leopoldina, estudo na USP, no Butantã, frequento muito Pinheiros, fazia terapia na Dr. Arnaldo, já caminhei muito pela Vila Madalena, posso andar de olhos fechados pela Heitor Penteado e ficar ok. Posso afirmar que conheço bem grande parte da Zona Oeste paulistana, mas mesmo assim tenho muitas dúvidas. Já perguntei para várias pessoas mais entendidas de direção que eu e continuei com muitas questões. Parece mesmo que a divisão de bairros é realmente um grande mistério. Pensando nisso, separei minhas maiores questões para expor aqui.

A Zona Oeste de São Paulo é composta por três grandes bairros e cada um desses bairros são administrados por uma subprefeitura. As três subprefeituras administram toda a região. Os bairros são:

  • Lapa
  • Pinheiros
  • Butantã
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olhem como tudo ainda parece claro e fácil de compreender

Até agora parece simples, mas com um olhar mais apurado é fácil perceber a bagunça que é essa região paulistana. Vamos começar pelo primeiro grande bairro, a Lapa.

Sou lapeana há mais de quinze anos, a maior parte da minha vida eu morei nesse bairro, mas mesmo assim tenho tantas duvidas que parece que sou recém-chegada. Minha casa, por exemplo, para alguns pode ficar situada na Vila Romana, mas é só andar poucas quadras que estamos no Alto da Lapa, ou se formos na direção contrária, posso chegar na Vila Ipojuca. A Lapa é conhecida por ser confusa. Aqui é onde as ruas fazem curvas, bifurcam, dão uma volta e permanecem sendo a mesma rua. Se eu sair de casa, descer a rua e virar à direita, estarei na Vila Romana, mas se eu seguir pela rua e virar novamente à direita, vou entrar na Vila Ipojuca, e tudo isso sem sair da mesma rua! Não é confuso? Por que não simplificar e chamar tudo de Lapa? Afinal, a Vila Romana é nada mais do que um conjunto de ruas cujos nomes tem alguma relação com o Império Romano, por exemplo: a rua Tito, rua Coriolano, rua Crasso, Espártaco, Aurélia e por aí vai. Mas o nome da minha rua não tem a menor relação com Roma, será por isso que não moro na Vila Romana? Qual será o real critério para essa divisão?

A Lapa tem outros mistérios: o Sesc Pompéia, por exemplo. Algum desavisado poderia supor que fica localizado na Pompéia, mas ele fica na rua Clélia, que ainda é Lapa. Falando em Pompéia, eu ainda não estou convencida de que esse bairro realmente exista. Para mim ele é pura invenção, obra de alguma teoria da conspiração. Metade dele é Lapa e a outra metade é Perdizes, Pompéia mesmo é só o nome da avenida.

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Zona Oeste: não vejo nenhum bairro chamado Pompéia!

Logo após o Sesc Pompéia, a rua Clélia acaba e começa a Avenida Francisco Matarazzo, que vai até o Elevado e a São João. Mas antes do centro, a Francisco Matarazzo ainda é Zona Oeste, mas em que bairro que ela fica? É Barra Funda? Água Branca? Afinal, Água Branca é realmente um bairro ou só o nome daquele parque? Em alguns lugares a Barra Funda é classificada como centro de São Paulo, mas deve ser apenas intriga da oposição, espero.

Um dia estava no carro com meu pai, estávamos na rua Heitor Penteado, a caminho da Paulista e eu perguntei: “Pai, que bairro que fica essa rua?” e ele respondeu: “Sei não filha, acho que é Sumarezinho”. Sumarezinho? O que diabos é Sumarezinho?? Fui pesquisar: aparentemente, Sumarezinho é um bairro do distrito de Pinheiros e por alguma razão do destino, é onde fica a estação de metrô da Vila Madalena. Não, meus queridos, o metrô Vila Madalena não fica na Vila Madalena, e sim no bairro de Sumarezinho!

argh

aaaaaaaaaah isso não faz sentidooooooooo!

Já que eu falei em Vila Madalena, eu tenho as minhas dúvidas quanto esse bairro. Reduto do ~cool~, de jovens alternativos, dos barzinhos bacanas, point do carnaval paulistano, das baladas lowkey, etc e tal, a Vila Madalena às vezes me parece ser que nem a Pompéia, fruto de alguma conspiração zona-oestiana para dificultar a locomoção pela região. Eu posso até estar exagerando, mas na maioria das vezes em que eu acho que estou na Vila Madalena, na real eu estou em Pinheiros. Sério, qual é a fronteira entre os bairros? É tão estreita a linha divisória entre eles que eu sempre atravesso sem perceber? Voto por placas “Bem Vindo à Vila Madalena”, só para poupar o estresse.

Vou preservar vocês da dor de cabeça que é Vila Ida (e volta), Vila Anastácio, Vila Beatriz, Vila Hamburguesa, Parque da Lapa, Alto da Lapa, City Lapa, Alto de Pinheiros, e por aí vai, infinitamente.

Quero terminar o post com um apelo: se alguém que leu minhas lamentações e entender melhor de Zona Oeste que eu, por favor, sinta-se livre para comentar, responder, me dar uma aula sobre o assunto. Mais do que um post, isso aqui é um desabafo de anos de dúvidas e incompreensão.

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