eu ainda vou ver o novo filme do woody allen no cinema?

Conheci Woody Allen bem novinha. Devia ter uns 12 ou 13 anos quando vi Bananas pela primeira vez e logo de cara já gostei. Minha mãe, vendo meu interesse se animou e fizemos a festa na locadora perto de casa. Não demorou muito para eu ver a maioria – se não todos até então – dos filmes do Woody Allen.

Eu perdi a conta de quantas vezes eu vi Annie Hall, Hannah e Suas Irmãs ou Poderosa Afrodite (que são meus preferidos). Vibrei quando vi O Sonho de Cassandra no cinema, porque era o primeiro lançamento do Woody Allen que acompanhei e não lembro de me divertir tanto com a minha mãe no cinema de quando fomos ver Vicky Cristina Barcelona. E depois nós duas ficamos por semanas e semanas apaixonadas pelo Javier Bardem

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um crush coletivo e compartilhado ❤ 

É claro que gostar de Woody Allen adolescente me deixava com aquele status cult e insuportável que eu gostava de ter com 15 anos e sobre o qual eu já falei aqui.

Eu me orgulhava também de conhecer mais do que os clássicos, aqueles que todos já viram, os mais famosos etc e tal. Eu, como boa fangirl que sou, fui atrás de todos os filmes do Woody Allen, dos livros dele, dos livros sobre ele e por aí vai. Eu até tive uma camiseta do cineasta, que usava meio pretensiosamente, como toda boa e velha adolescente.

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desculpe, amigas, mas pelo bem da sinceridade tive que compartilhar essa pérola.

Eu queria saber tudo sobre os filmes minuciosamente, queria entender todas as referências, queria conhecer suas influências e foi por isso que fui me apaixonando cada vez mais por cinema. Sem ter conhecido Woody Allen do jeito que conheci, nunca iria gostar de Bergman, de Fellini, de Almodóvar, Scorscese, e por aí vai. Foi vendo Woody Allen no sofá de casa com 15 anos e achando tudo aquilo o máximo que comecei a gostar de cinema. E a a partir daí, meus gostos foram se moldando para o que são hoje, eu fui me moldando para o que sou hoje. Acredito que nossos gostos importam sim, porque eles fazem parte da nossa identidade e por isso que hoje, para mim, é tão complicado falar de Woody Allen.

Quanto mais fui conhecendo a pessoa Woody Allen mais confusa fui ficando. Pode ser ingenuidade, mas para mim é muito complicado gostar de um artista com um histórico problemático. A faculdade de Letras me ensinou a separar a vida do artista de sua obra, mas toda a minha formação de fangirl me ensinou a descobrir e conhecer tudo junto e misturado, porque quanto mais informação melhor.

Woody Allen se separou de Mia Farrow, sua companheira e parceira de trabalho por 12 anos, para se casar com a filha adotiva de Farrow, Soon-Yi, que é décadas mais nova que ele. Na mesma época da separação, ele foi acusado de ter abusado sexualmente de sua filha com Mia, Dylan Farrow, o que gerou grande polêmica e foi parar nos tribunais, mas o cineasta foi absolvido das acusações.

Anos depois, em 2014, Dylan Farrow publicou uma carta no The New York Times reafirmando as acusações de estupro quando ela tinha apenas 7 anos. Ela começa a carta dizendo “What’s your favorite Woody Allen movie?“, o que toca bem no ponto que quero chegar: até quando separamos vida e obra dos artistas? É certo prestigiar homens estupradores?

O caso voltou a ocupar as manchetes quando Woody Allen recebeu uma homenagem no Globo de Ouro de 2014 e seu filho, Ronan Farrow junto da mãe, Mia Farrow, criticaram o cineasta abertamente no twitter ao mesmo tempo da premiação e do discurso de homenagem feito pela Diane Keaton.

Como fã do trabalho de Woody Allen, eu acompanhei tudo isso e fui ficando cada vez mais perdida. Eu sei o quão é sério acusar um homem, um pai, de estupro. E, como feminista, sei que muitas vezes as vozes das mulheres não são ouvidas, e aprendi a sempre acreditar na vítima. A repercussão do caso na mídia, é claro, tomou o lado do Woody Allen. Li muitos textos defendendo o cineasta, dizendo que as acusações eram falsas, chamando, tanto a Mia Farrow, quanto sua filha de loucas, acusando elas de quererem apenas atenção, li muitas coisas horríveis. Mas também li textos que não entravam na discussão de se o cineasta era culpado ou não, mas que diziam que não podemos deixar de ver seus filmes, porque eles são bons. Vi muita gente tomando partidos publicamente e senti que eu, como fã do Woody Allen, também deveria adotar um posicionamento. Mas eu não consegui.

Vi muitas mulheres nas redes sociais anunciando seu boicote aos filmes do Woody Allen. Eu não acho isso ruim. Acho importante, ainda mais hoje em dia, tomarmos posições, por mais drásticas que elas possam parecer. É possível viver sem assistir a filmes do Woody Allen, eles não são essenciais para a vida e tem muitos filmes bons por aí. Eu queria ter essa clareza, eu queria tomar uma posição e seguir com ela para sempre, mas minha formação está proximamente ligada ao Woody Allen, faz parte da minha construção de identidade, não poderia simplesmente deixar de considerar sua importância. Ao mesmo tempo, não me sinto confortável consumindo filmes de um homem que casou com sua enteada e foi acusado pela filha e ex esposa de estuprador.

Sempre quando penso sobre isso, volto ao caso do Polanski. Ao contrário do Woody Allen, Polanski foi acusado e preso por abuso sexual de uma menina de 13 anos de idade. Ele mesmo assumiu o crime e, pelo caso estar ainda em aberto, ele não retorna para os EUA para não ser preso. Aqui, Polanski assumiu o crime e foi preso por isso e mesmo assim, continuamos a assistir seus filmes sem lembrar do que aconteceu.

Acho bobagem o endeusamento de artistas. Para mim, artistas são pessoas, como eu e você. Eles não são melhores nem piores que ninguém, acho que eles devem ser julgados da mesma maneira que qualquer outra pessoa é julgada. Mas ao mesmo tempo, entendo que julgar um artista é mais complicado, às vezes não dá para ser tão maniqueísta-branco-no-branco-preto-no-preto assim. Eu, por exemplo, não leio Lolita (nem gosto de Nabókov) porque acho errado romantizar abusos, mas continuo vendo e gostando Annie Hall. As pessoas não são tão simples assim.

Por mais que eu procure uma posição clara sendo fã do Woody Allen e, ao mesmo tempo, mulher feminista, acho que o mais importante é a discussão. Poder falar e problematizar abertamente artistas tão consagrados com históricos tão complicados como Woody Allen, e conseguir entender que consumir obras de pessoas machistas/racistas/preconceituosas/abusadores é sim complicado, e que nem sempre separar vida e obra é a melhor opção é o real avanço.

Eu ainda não tenho uma posição exata. Mas tem um novo filme do Woody Allen em cartaz. Talvez não ver o filme no cinema e baixar ilegalmente seja também um ato político. Não sei.

 

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