um outro grito

 

Pensei por muito tempo no que escrever aqui, algum tema para um novo post, algum assunto relevante o bastante para reflexão, algum livro, algum filme, alguma notícia que tenha me chamado atenção, enfim, alguma coisa.

É claro que muitas coisas me chamaram atenção; li um ou dois livros, vi filmes e séries, li jornais, notícias, textões. Aconteceu muita coisa no país nas últimas semanas, assunto não falta. Mas mesmo assim, eu não conseguia – ou não queria – sentar e escrever.

Muitas vezes, ainda mais nesse ano, achei que deveria que dar algum tipo de resposta em vista o que acontece e está acontecendo com o Brasil. Talvez desde as ~jornadas de junho~, lá em 2013, o país se deu conta da força da juventude atual, que era muito criticada por ser a geração da internet, formada nas redes sociais e não nas ruas. Muito se desdenhou da minha geração; diziam que éramos desinteressados e desinteressantes, alienados, etc. Mas em junho de 2013 demos uma virada. Eu fui em algumas manifestações contra o aumento da tarifa naquele ano, não estive na violenta noite do dia 13, mas fui na seguinte, no dia 17. Andando do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes ouvindo um coro de uma mistura de palavras de ordem com o hino nacional, cartazes pedindo o fim da corrupção e o abaixo da tarifa, bandeiras de partidos políticos, estudantes independentes, adultos, idosos e até crianças, me senti fazendo parte, senti que era preciso estar lá, me senti importante naquela multidão. O poder da união é bem forte e naquele dia eu senti isso. Apesar do medo da repressão policial, sabia que quanto mais pessoas juntas, mais fortes nos tornávamos. Dei a mão para as minhas amigas e me senti quase que invencível. Alguns dias depois, com o anúncio da redução da passagem, fiquei satisfeita. Tinha feito parte daquilo; eu, meus amigos, meus colegas, minha geração tinha feito aquilo. Foi incrível!

Depois de Junho muita gente se deu conta do poder da multidão. Os anos seguintes foram muitas as manifestações da direita, querendo também fazer sua voz ser ouvida nas ruas. Com isso, nos lembramos que movimentos fascistas não são geração espontânea, e sim fruto da nossa sociedade e como um monte de gente junta pode ser muito certo, mas é muito fácil ser muito errado também. Grupos pró-ditadura deram as caras, vimos cartazes pedindo a intervenção militar, pessoas fantasiadas de bandeira do Brasil, de camisa da CBF pedindo o fim da corrupção, e por aí vai. No começo eu admito que achava engraçado. A diversão de alguns domingos foi assistir a cobertura dos “protestos” na paulista fechada para carros pelas redes sociais. E do mesmo jeito que logo achei aquilo um absurdo, a piada foi perdendo a graça muito rápido e as consequências daquele fenômeno começaram a chegar.

O dia em que o impeachment se concretizou foi um dia esquisito. Era aniversário de uma amiga muito amiga minha e, entre a faculdade e o jantar de comemoração, saiu a notícia. Ouvi gritos de “Fora Temer”, ouvi fogos de artifício, acompanhei manifestações pela internet, do ônibus queimado na USP em resposta ao assassinato de dois meninos pela PM na comunidade perto da universidade e no meio de tudo isso comi bolo de aniversário e cantei parabéns. Me senti num filme surrealista do Buñuel, nada fazia muito sentido. Tenho me sentido num filme surrealista há algum tempo, na verdade. Vimos deputados votarem em nome de Deus e da família, vimos um golpe se concretizar ao poucos, e “dentro da lei”, vimos a polícia armar táticas de guerra contra a população,  nada disso é certo, nada disso faz sentido.

Como parte da geração que reocupou as ruas, sinto sempre a responsabilidade – e até obrigação – de me dar uma resposta para tudo isso. Não que eu realmente tenha respostas (porque eu mesma não tenho), mas parece que se eu não reagir, me manifestar de alguma forma, é como se não me afetasse. O meu maior medo sempre foi ficar indiferente, apática. Já tive pesadelos em que ficava catatônica, sem conseguir reagir às coisas. Sinto, logo existo. E eu estou sentindo. Talvez minha resposta imediata não seja ir às ruas, ou talvez seja. Talvez conversar com alguém seja mais eficiente, ou conseguir argumentar e mostrar a minha visão das coisas. Talvez o meu papel nisso tudo seja apenas resistir. Na minha vivência de estudante de universidade pública, entrei em contato com movimentos sociais e políticos, coletivos, partidos políticos, fui em assembleias, participei de greves e nisso tudo, o que sempre me incomodou é essa espécie de competição para saber que é o mais revolucionário e desconstruído de todos. Eu sempre me mantive um pé atrás de tudo isso , sempre preferi uma posição de observação. Não digo que ache isso o mais certo, mas acho que é preciso lugar para isso. Eu não preciso gritar palavras de ordem para mostrar minhas convicções políticas, mas as palavras de ordem são gritadas por alguém – e esse alguém também é necessário. A minha necessidade de dar alguma resposta é 100% pessoal. Escrever esse texto é um ato totalmente pessoal. É a forma que consegui digerir esses últimos meses. Talvez semana que vem eu esteja na rua gritando e cantando com outras milhares de pessoas, ou talvez não. Por mais que a multidão faça diferença, às vezes, a resposta precisa ser pessoal. E, às vezes, um pequeno ato pessoal pode ser revolucionário.

Um dia no jantar minha mãe disse que apesar de tudo, ela se sentia feliz de estar vivendo tudo isso; porque, segundo ela, estamos vivenciando a História (essa mesmo, com “h” maiúsculo). Isso ficou na minha cabeça porque eu amo História (e histórias também), sempre foi minha matéria favorita na escola e, de algum jeito meio louco, foi por causa dela que fui parar na Letras (mas essa já é outra história). E mesmo gostando de estudar História, sempre a vi como uma coisa distante. É preciso de distância temporal para analisar fatos históricos, é isso que nos ensinam. E mesmo assim eu concordo com a minha mãe. Estamos vivenciando momentos que com certeza serão estudados daqui a alguns anos. Não tenho dúvidas que irei contar o que vivi pros meus filhos, netos e por aí vai. Gosto da visão que diz que estamos num momento de transição, que, apesar da falta de perspectiva que podemos ter depois da consolidação final do golpe, a esquerda vai conseguir se unir para realmente conseguir vitorias. Gosto de permanecer otimista nesse marzão de notícias ruins, por mais difícil que seja. Eu só consigo passar por isso desse jeito, na verdade.

“Um grito” foi o título do meu primeiro post aqui. Foi por isso que fiz esse blog, para gritar. Acredito no poder das palavras – por mais cafona que isso possa soar – porque elas realmente fazem a diferença, principalmente para quem as grita, ou quem as escreve.

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