Harry Potter and The Cursed People (incluindo ele mesmo)

[SPOILERS, muitos spoilers de Cursed Child! Se você não leu ainda e não quer saber de nada, não leia esse post!]

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Semana passada foi lançado o tão esperado roteiro da peça Harry Potter and The Cursed Child, que narra os acontecimentos no mundo bruxo anos depois da batalha final contra Voldemort.

Muita gente já chamava o texto de “8° livro de Harry Potter“, o desfecho de toda a história. Eu pessoalmente prefiro ficar com o final do sétimo livro, Relíquias da Morte, porque me parece o final mais bem construído literariamente, além de marcar o fim da série de livros, já que Cursed Child é, originalmente, uma peça de teatro.

Desde quando soube que a autora, J.K. Rowling, iria escrever uma peça sobre Harry Potter, já fiquei com o pé atrás. É claro que como qualquer outra fã da série, toda novidade sobre o mundo mágico de Harry Potter é bem-vinda, mas o que me deixou receosa foi exatamente o gênero: Harry Potter é um fenômeno mundial, porque fazer a continuação da história como uma peça de teatro? Só quem estiver em Londres pode ver, ou quem tem muita grana para poder viajar até lá. O resto dos fãs tiveram que se contentar com o roteiro da peça.

Quando o casting foi anunciado, fiquei feliz com a escolha dos atores, principalmente de ter a Norma Dumezweni como Hermione, até porque a cor da personagem nunca foi descrita nos livros, então porque não ela ser negra?

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Hermione ❤

Assim que os spoilers vazaram, não pude me controlar e, em vez de #keepthesecrets, fui procurar sobre o que se tratava a história. Eu estava na casa da Clara quando lemos os spoilers da peça e não conseguimos acreditar que aquilo tinha sido escrito pela mesma pessoa que escreveu todos os outros livros da série. Pessoalmente, achei que podia ser tudo falso para enganar os apressados e a peça ser completamente diferente. Na verdade eu torci para que isso fosse verdade, pois a história parecia ter sido feita numa viagem de ácido.

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J.K. escrevendo Cursed Child

 

O tempo passou e Cursed Child deixou de ser meu foco principal até que, no final da semana passada, o roteiro foi finalmente lançado! Passei meu domingo lendo e, para a minha infelicidade, aqueles spoilers que tinha lido antes eram todos verdade. Mas tinha mais! Mais surpresas surreais, mais incoerências com o resto da obra, mais esteriótipos de gênero, racismo e por aí vai. Não foram só as falhas com o próprio universo que ela criou e os furos de enredo que me incomodaram – esses até me fizeram rir bastante. Eu fiquei muito mais perturbada como jovem adulta feminista do que como fã incondicional de Harry Potter. Deu pra entender a diferença? Se não, vamos aos problemas:

  1. O papel das mulheres:

Harry Potter, apesar de estar centrado num menino, sempre teve personagens mulheres de muita importância. Hermione, Gina, Luna, Profª Macgonnagall, Bellatrix, entre outras. A escolha por uma atriz negra para interpretar a Hermione na peça foi com toda a certeza um acerto e um passo à frente para a representatividade de pessoas não-brancas na obra. Tendo tudo isso como plano de fundo, Cursed Child errou muito com suas mulheres.

A única personagem feminina que realmente tem importância para  a história é a Hermione. Além de ser Ministra da Magia (sério, quem iria duvidar?), é com ela que Harry descobre o que seu filho está fazendo e juntos eles planejam como remediar a situação. Ela toma decisões e deixa claro – principalmente para seu marido Ron – que não precisa de ajuda ou proteção. Hermione diz mais de uma vez que seu trabalho é uma prioridade, e não se sente culpada de não ser tão presente em casa quanto Ron, que por trabalhar na loja Weasleys Wizard Wheezers, tem horários mais flexíveis. Tudo isso parece ótimo, não imaginaria um futuro diferente para a Hermione, mas a a história não para aí:

Na primeira vez em que Albus e Scorpius alteram o passado para tentar salvar Cedrico de morrer nas mãos do Voldemort, eles retornam para a primeira tarefa do Torneio Tribuxo e, disfarçados de estudantes de Durmstrang, eles impedem que o Cedrico termine sua tarefa na esperança de que essa derrota o impeça de ganhar e, consequentemente, ir parar no cemitério com o Harry. O plano funciona e os meninos retornam ao presente, mas não para o mesmo presente; eles retornam para uma realidade alternativa. As mudanças são poucas; Albus está na Grifinória, Ron é casado com Padma Patil e Hermione é professora de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Chocado com o presente alternativo, Albus busca mais respostas, o porquê de todas as diferenças. Ele descobre que o motivo de Ron e Hermione não estarem casados é porque ela, desconfiada de que Víctor Krum estava por trás da derrota de Cedrico na primeira tarefa do torneio, recusa seu convite para o baile e vai com o Ron. Por causa disso, Ron nunca sente ciúmes de Hermione e, ao invés de se apaixonar por ela, se apaixona por Padma. Toda a justificativa me parece absurda. Desde quando ciúmes é algo positivo? O Ron foi péssimo com a Hermione – e com a Padma também – no baile, sem contar que a tensão romântica/sexual entre os dois já era algo sendo construído. O baile não foi tão significativo assim para o relacionamento deles.

Mas não é só com o casamento de Ron e Padma que choca os meninos. A Hermione alternativa também é bem diferente. Hermione, por não ter se casado com Ron se torna solitária e má. Como professora ela é cruel, humilha os alunos e os reprime por motivos desnecessários. Ela é praticamente uma versão feminina do Snape (o que convenhamos, não é boa coisa). A personagem de Hermione nunca seria uma professora cruel, pelo contrário! Hermione é conhecida por ter uma ética e princípios fortíssimos e ela nunca vai contra eles. Além do mais, ela nunca seria professora de Defesa Contra as Artes das Trevas. Talvez Transfiguração, ou alguma outra matéria mais teórica.

Voltando à realidade principal, temos Rose Granger-Weasley, filha de Ron e Hermione. A princípio ela parece bastante promissora, mas infelizmente só ficamos com esse princípio, já que ela mal aparece na peça. Só a vemos no início da história e bem no final, para justificar a súbita heterossexualidade de Scorpius.

A Gina, que nos livros nunca passou despercebida – mesmo sendo a mais nova de seis irmãos -, na peça ela quase desaparece. Com exceção dos dois momentos em que ela fica brava com o Harry e por proibir que ele e seus filhos comam açúcar. Mas a Gina jamais iria passar despercebida. Ela se torna jornalista esportiva para o Profeta Diário, o que é uma profissão bem bacana para uma mulher, que normalmente nunca está associada a esportes, mas é só. Gina não tem relevância para o enredo da peça, ela só está lá, cumprindo seu papel de esposa do Harry, sem grandes desenvolvimentos.

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encontro de Ginas! Parabéns a esse casting!

 

Bellatrix, apesar de ter morrido antes dos acontecimentos da peça, também tem uma trajetória questionável. Delphi, a jovem que persuade Albus a voltar no tempo e salvar o Cedrico, é na verdade filha de Voldemort com Bellatrix, e nasceu em algum momento antes da Batalha de Hogwarts na mansão dos Malfoy. Toda essa trama me parece surreal, porque a Bellatrix representada nos livros nunca teria filhos. E ok, nem todas as mulheres querem/precisam ter filhos, é uma escolha, não um destino. Ter uma personagem feminina claramente má, intimidadora, cruel e que devotou sua vida para uma causa era um ponto positivo na obra. Não que eu goste da Bellatrix, ela era horrível; torturou os pais do Neville, matou Sirius, seu primo, sem pensar duas vezes. Mas ela ia além da representação comum mulheres na ficção. Mas aí ela se torna mãe, o que além de ser improvável, enfraquece a sua própria construção como personagem. Sem contar que, sejamos sinceras, Voldemort não transa, né.

2. As incoerências:

Até agora já foram algumas incoerências; Bellatrix ficar grávida do Voldemort, Hermione ficar solitária, amarga e uma péssima professora, Voldemort transando,  e por aí vai. Mas aos absurdos não param por aí.

Na segunda vez que Albus e Scorpius alteram o passado, eles decidem retornar para a segunda tarefa. Como da primeira vez o boicote do Cedrico não deu certo, eles decidem que irão causar mais danos do que o fracasso do campeão lufano; eles resolvem humilhar o pobre Cedrico. Como a segunda tarefa foi realizada no lago, eles voltam no tempo no banheiro da Murta-que-geme e pelos encanamentos chegam até o lago e fazem um feitiço para a cabeça de Cedrico aumentar, fazendo com que o menino boie ao invés de mergulhar. Conclusão:  Cedrico é motivo de piada e perde o Torneio de vez. Voltando ao presente, apenas Scorpius retorna, pois a realidade foi alterada uma segunda vez.

Cedrico, nessa nova realidade, não morre. Mas por ter sido humilhado no Torneio Tribuxo, ele se torna Comensal da Morte e mata Neville na Batalha de Hogwarts. Por causa disso a Nagini não morre, nem Voldemort, que mata Harry e o mundo bruxo se torna o pior lugar possível.

A ideia de que as alterações do passado criem realidades alternativas funciona bem na peça. O que fica difícil de aceitar é o Cedrico, o galã-coração-de-ouro lufano se tornar um Comensal da Morte, e ainda matar um ex-colega de escola!

É compreensível que, por ser uma obra diferente do restante da saga, os personagens tenham aspectos e interpretações diferentes das dos outros livros. Mas o problema é que Cursed Child é, oficialmente, a continuação da história, o 8° livro da série. Por isso todos esses plot-twists soam falsos e forçados, como se fosse uma fan-fic má escrita (ou até um spin-off de Pretty Little Liars). O Cedrico Diggory que conhecemos nunca se tornaria um Comensal da Morte.

Scorpius, depois de entender o que causou tamanho desastre, consegue achar Snape – que ainda está vivo –  e convence-lo de que aquela realidade não precisa ser a única verdade. Aqui é outra cena bem problemática. É verdade que o canon, a J.K. Rowling e muitos dos fãs de Harry Potter, tratarem Snape como herói. Isso sempre me deu arrepios, porque por mais surpreendente o desfecho dele, Snape nunca foi uma boa pessoa. Ele sofreu bullying dos Marotos em Hogwarts? Sim, mas nada disso justifica o fato de que ele entrou para uma seita fascista e racista. Ok, ele deixou de ser Comensal da Morte para ser espião de Dumbledore, mas ele só saiu porque descobriu que Voldemort iria matar Lily, não porque ele discordasse do Lorde das Trevas. E falando na Lily, por favor, aquilo não era amor. Snape era abusivo, tanto como homem quanto como professor. Ele claramente favorecia os alunos da Sonserina e reprimia injustamente os grifinórios, em especial Harry, Hermione e Neville. Foi ele quem denunciou Lupin, fazendo com que ele pedisse demissão do talvez único emprego estável que ele teve. Snape não era legal, não era uma pessoa maneira. Toda vez que vejo uma referência àquela última fala: “always”, tenho arrepios. Isso não era amor, era relacionamento abusivo cilada.

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CRUZ CREDO

E é exatamente isso que ocorre com Snape em Cursed Child, mais uma vez esse personagem, que necessita urgentemente de desconstrução, é heroizado mais uma vez.

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Outra grande incongruência da peça, e que deixou quase todo o fandom bravo, foi o relacionamento entre Albus e Scorpius. Em muitas, muitas passagens do texto, vemos que os dois meninos se importam muito um com o outro. É em Albus que Scorpius pensa quando chegam os dementadores e ele tem de encontrar uma lembrança feliz, é por ele também que Scorpius desiste de ser “Scorpio King” da realidade alternativa para ter seu amigo de volta. Obviamente há uma tensão sexual sendo construída ao longo do texto. O que deixa seu final ainda mais problemático, pois nas últimas páginas, Scorpius lembra de que pertence a um universo heteronormativo e demonstra interesse amoroso em Rose, filha de Ron e Hermione, que mal aparece na peça.

J.K. Rowling nunca apresentou um personagem LGBTQA em Harry Potter. Apesar dela ter afirmado que Dumbledore era gay, nada disso foi escrito em seus livros. Cursed Child poderia ter sido um passo maior para a melhor representatividade na sua obra. Se Hermione é negra, porque não um casal gay? Ainda mais que, em muitos trechos do texto é possível interpretar o início de um romance entre os meninos. Lendo essa virada surpreendentemente heteronormativa, lembrei da minha reação lendo Grande Sertão: Veredas, quando Riobaldo descobre que Diadorim era mulher, o que de alguma forma justificaria o amor deles. Porém, Riobaldo se apaixonou por Diadorim como homem, não como mulher. E para mais uma referência pop de heteronormatividade, Li Shang se apaixonou por Mulan também como homem. Curioso, não?

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Scorbus ❤

 

E assim chegamos à terceira e última parte desse post:

3. Nonsense:

Muitas partes são completamente nonsense em Cursed Child. Sério. Tive que reler alguns trechos só pra ter certeza do que estava escrito, que não era invenção da minha cabeça. Lendo os spoilers antes de sair o livro, tive quase certeza que tudo aquilo era invenção de um cara que resolveu enganar meio mundo sobre a história da peça. Mas, infelizmente, era tudo verdade.

Logo no começo, temos uma cena memorável. Cês lembram da tia do carrinho de comidas? Tão adorável! Tão inofensiva! Sempre arrastando seu carrinho pelo trem e deixando crianças mais felizes com sapos de chocolate e tortinhas de abóbora! Pois então, esqueçam tudo isso e lembrem apenas disso:

Por anos e anos fomos enganados, achando que as tortinhas de abóbora era apenas tortinhas de abóbora! Agora sabemos que elas são, na verdade, GRANADAS! E suas mãos se transformam em ESPINHOS!

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NÃO, OBRIGADA!!!

E novamente Hogwarts ganha o prêmio de Lugar Mais Seguro do Mundo Bruxo™.

Aqui se encaixa também toda aquela história da Bellatrix ter um filho com Voldemort. Tem coisa mais nonsense do que imaginar o Lorde das Trevas, carne e osso e sem nariz transando? Acho que não.

Quem já leu Cursed Child sabe agora que Voldemort e Bellatrix tiveram uma filha, sabe que é melhor manter distância da tia do carrinho de comidas do Expresso de Hogwarts, sabe que Albus e Scorpius são melhores amigos para sempre, sabem que quem é órfão será órfão para sempre (ótima reflexão, Harry), sabe que retratos podem chorar, sabem até que Harry tem medo de pombos. Mas ainda não descobriram como Hermione, Ron, Gina e Draco conseguiram transfigurar o Harry em Voldemort para conseguirem distrair Delphi de seguir com seu plano e impedir que seu pai seja derrotado pelo bebê-Harry. Por sete livros e oito filmes vimos inúmeros bruxos e bruxas transfigurarem objetos em animais, ou em outros objetos; vimos bruxos e bruxas tomarem a poção polissuco e se transformarem em outras pessoas, mas nunca, nunca vimos bruxos e bruxas transfigurarem pessoas em Lorde das Trevas. Como isso aconteceu? Que feitiço utilizaram? Ou foi um encantamento? Não sabemos, mas que aconteceu, aconteceutumblr_mo7mebawbv1rqqwv3o4_250

 

Se quiserem continuar a reflexão sobre Cursed Child, alguns links legais:

What The Hell Is A Panju?”, uma análise bem bacana sobre racismo na obra de J.K. Rowling. Bem mais interessante e desenvolvida do que eu coloquei aqui.

18 ‘Cursed Child’ Moments Which Honestly Make No Sense“, esse post do Buzzfeed me representa 110%.

Harry Potter and the Sanctiones Follow-On Work (or, Fanfictions vs. the Patriarchy)“, outro texto bem maneiro sobre como classificar Cursed Child como fan-fic pode ser um engano.

Harry Potter and the Cursed Child’s Strangest Twist May Have Roots in History“, o texto mais ~diferentão~, que faz uma análise histórico-comparativa de Harry Potter com o III Reich, que talvez justificaria o plot-twist mais controverso.

Harry Potter and the Cursed Child’ includes plenty of fanfic tropes, but ignores queer representation“, mais um pouco sobre a falta de personagens LGBTQA em Harry Potter.

We Need To Talk About The Trolley Witch In ‘Harry Potter And The Cursed Child“, para quem, como eu, não superou a tia do carinho de comidas do Expresso de Hogwarts, um post obrigatório.

Shoebox Project“, pra quem quer ler uma ótima fan-fic de Harry Potter, essa é a melhor opção.

Por hoje é só, meus queridos,

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1 comentário

  1. Thay · agosto 28, 2016

    Como faz para casar com esse texto? Gente, que coisa maravilhosa! Tudo bem que ainda não li o roteiro, mas andei fuçando tudo quanto é spoiler e fiquei besta com tudo isso. Voldemort e Belatrix fizeram sexo e tiveram uma filha? COMO ASSIM JO?! Acho que nunca me senti tão trouxa na vida (risos).

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