manifesto pela dobrinha no canto da página

Como uma boa estudante de Letras, eu amo livros.

Acho até meio cafona dizer isso, mas quando ainda estava na escola decidindo o que queria fazer a vida – e de faculdade -, um dos meus critérios foi: o que eu gosto de fazer? E a minha resposta foi bem óbvia (tão quanto a pergunta): ler! Tinha tudo para dar errado, mas acho que acabou dando meio certo, porque não me imagino fazendo outra faculdade senão Letras. Considero então um sucesso.

Mas não quero falar de faculdade (depois do quinto ano esse assunto vira um tabu), e sim do que me levou a esse martírio curso. Ou seja, quero falar sobre livros.

Gosto de ler desde que me entendo por gente, antes mesmo de me alfabetizar. Na verdade eu não sei direito quando eu comecei a ler, lembro e entender algumas coisas antes de ter alfabetização na escola. Ler e escrever eram definitivamente minhas duas coisas favoritas de fazer por toda minha infância. Eu até tinha o costume e ter sempre um caderno por perto em que anotava (sem saber escrever) o que estava acontecendo em casa.

O primeiro livro que li foi a Árvore Generosa. Meu pai tentou uma vez instituir uma “hora da leitura” em casa – como se já não gostássemos e ler – e me deu esse livro. Meio contrariada porque queria mesmo brincar, li o livro todo e acabei aos prantos. Pra quem não sabe [SPOILERS], o livro conta a história da relação de um menino com uma árvore, desde a infância até a velhice, quando depois de ter cortado a madeira para vender, o menino senta no que restou da árvore e é nessa imagem trágica que acaba o livro.

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Como uma menina sensível e amante da natureza, não tive outra reação senão chorar. A tentativa do meu pai de me fazer gostar de ler poderia ter saído pela culatra, mas o resultado final foi bem satisfatório. Eu acabei relendo o livro várias vezes e tendo a mesma reação, talvez eu gostasse mesmo de manifestações catárticas,  talvez eu só quisesse chorar, ou talvez eu realmente tivesse gostado muito do livro.

Um dia, arrumando a biblioteca de casa, dei de cara com a Árvore Generosa de novo. A capa, mesmo dura, está com uns amassados nas pontas e algumas páginas estão meio dobradas. Olhando para ele logo se pensa: um livro que foi lido.

Nunca me preocupei muito com a conservação dos meus livros, muito menos quando criança. Sempre gostei de reler muitas vezes os livros que gostava, tem alguns até que perderam a capa de tanto que eu dobrei. Tenho alguns amigos que ficariam indignados com isso, mas a verdade é que prefiro muito mais um livro amassado e lido na minha mesinha de cabeceira do que um livro novinho e intocável lá longe na estante.

Nunca perdi tempo preocupada com a minha relação com os livros até que descobri que tinha algumas amigas que nunca tinham lido Harry Potter. 

Quase não acreditei, Harry Potter está presente na minha vida desde meus seis anos, quando li o primeiro livro. Desde então, li e reli a séria incontáveis vezes (a última, por exemplo, terminou algumas semanas atrás). Não tive outra reação senão emprestar meus livros para elas, até porque ser uma milenniall sem ter lido Harry Potter é uma falha e caráter.

Eu nunca tive problemas para emprestar livros, pelo contrário, eu adoro. Quando eu termino um livro que gostei, gosto de compartilhar a experiência. Acho o ato de emprestar/dar livros tão bonito, porque eles são mais que objetos, são outros mundos, outras vivências que podemos experimentar por algum tempo. Como no livro Fahrenheit 451 (eu não li o livro, mas vi o filme) em que os livros são proibidos e há uma comunidade transgressora que, para não perder o conteúdo dos livros, cada pessoa se ocupa de um livro, decorando-o até incorporar toda a história. Os book people são mais que indivíduos, eles se tornam livros ambulantes. Quando vi o filme, fiquei encantada com isso, pois é a metáfora perfeita; quando leio um livro que gosto, me torno mais do que era antes e emprestar um livro é compartilhar essa experiência .

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Fahrenheit 451

Num mundo onde os livros são proibidos, para compartilhar aquela história maneira com o seu amigo é preciso decorar todo o texto ilegalmente e recitá-lo. Mas no nosso mundo, é bem mais simples, é só emprestar o livro. E foi o que eu fiz com Harry Potter.

Quando fui pegar os Harry Potter’s da estante, reparei o estado deles. Todos estavam meio amassados, as páginas rabiscadas e dobradas, alguns até têm fitas adesivas segurando a capa. Mas é claro, são livros que foram lidos e relidos e trelidos muitas vezes durante muitos anos! É assim que gosto dos meus livros: com cara de lidos.

 

Logo quando entrei na Letras, percebi que a minha relação com livros não era unânime. Muitos dos meus colegas tratam seus livros como se fossem de porcelana, levam elas dentro de saquinhos na bolsa e leem sem abrir totalmente para não amassar a lombada. Eu até comecei a me sentir mal comparando os meus livros todos amassados e com as pontas dobradas com cópias que pareciam ter acabado de sair da livraria. Será que tinha passado toda a minha vida cuidando mal dos meus livros?

Ainda no primeiro ano da faculdade, numa aula de Literatura Brasileira sobre Manuel Bandeira,a professora contou uma anedota de quando ela estava no mestrado e participava de um grupo de estudos na casa do Mindlin (aquele bibliófilo que doou sua biblioteca para a USP, que fez um prédio novo para abrigá-la). Ela tinha estacionado o carro bem na frente da casa, mas quando ia embora, viu que seu carro, e todas suas anotações da dissertação de mestrado, não estavam lá. Ela tinha sido roubada. Para tentar compensar a perda, o Mindlin deu para ela uma primeira edição de um livro de poesias do Bandeira, tema da sua pesquisa. Os alunos amaram a história até quando a professora, toda sorridente, falou que o livro que ela havia ganhado era o que ela estava segurando, dobrado no meio, sem nenhuma proteção. A classe toda vacilou assustada num grito silencioso. Na saída da sala todos estavam comentando que a professora devia ser louca para sair de casa com aquele livro que deveria estar guardado com toda a proteção possível. Eu fiquei mais surpresa com a reação dos alunos do que com a atitude da professora. Ué, livros são para ler, ou não?

Sempre me irritei com a fetichização do livro, que no Brasil fica ainda pior, porque com o alto preço o livro vira quase um artigo de luxo. Eu realmente não sei como alguém pode se concentrar no que está lendo com toda a preocupação de não amassar o livro. Muitas das vezes eu nem me dou conta do “estrago” que fiz até terminar de ler.

Uma das coisas que mais gosto de fazer com um livro novo é abrir até dobrar a lombada, para ficar mais confortável de ler. Quando disse isso casualmente numa roda entre amigos fui fortemente rechaçada. Dobro sem culpa a folha para marcar a página quando estou sem marcador e já deixei muitas vezes respingar café nas páginas. Rabisco sem dó, odeio post-its nos livros, ficam sempre caindo. Quando releio um livro e vejo uma anotação, um respingo ou uma dobrinha no canto da página, gosto de pensar que são marcas das minhas outras leituras, são mensagens que mandei para o futuro através do livro e quando as vejo, posso voltar no tempo e lembrar e como era quando li aquele livro pela primeira vez. Se meu livro estivesse intacto, como novo, a experiência não seria a mesma. Sem as minhas marcas, o livro parece que ainda não foi lido, ainda não tem uma história.

Termino o post com um apelo: parem de censurar marcas nos livros! Elas fazem parte da experiência a leitura! Não somos monstros!

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2 comentários

  1. Páginas Em Branco · julho 19, 2016

    Vou ser sincera sou a maníaca dos livros, tomo muito cuidado e morro de medo de que aconteça alguma coisa com eles. Porém acredito que a forma que se cuida de um livro não diz nada sobre ser um bom leitor. Quem ama ler, gosta do livro, da história e sente prazer com isso. Não importa qual seja o estado do livro. Quando lemos, emprestamos e usamos sempre fica alguma marca.
    Beijos e parabéns pelo post 😘

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    • Júlia Medina · julho 19, 2016

      Sim! Na real o importante é priorizar o que está escrito em vez do objeto em si!
      Obrigada pelo comentário (:

      Curtido por 1 pessoa

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