sendo fangirl

Terminei essa semana de ler Fangirl, um livro da autora Rainbow Rowell (o nome mais fofo para a escritora mais fofa de todas). Pra quem não sabe, o livro conta a história da Cath, que escreve fanfiction sobre personagens de uma famosa série de livros. A história começa quando ela e sua irmã gêmea, Wren, chegam na faculdade e têm que se separar pela primeira vez. Cath observa sua irmã se adaptando rapidamente ao novo ambiente, enquanto ela enfrenta algumas dificuldades.

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O livro, além de ser daqueles que se lê sorrindo de tão gostoso que é, fala sobre uma relação pouquíssimo explorada e muito menosprezada, vista como “mais uma bobeira adolescente™”: a relação entre a fã e seu ídolo/obra favorita, ou seja, o ser fangril.

Não preciso ir muito além para dizer que me identifiquei 100% com a protagonista do livro. Não porque eu também escrevo fanfics – porque eu nunca escrevi -,  mas porque eu também criei, ao longo da minha vida, várias relações com artistas/obras/personagens. E muitas vezes era difícil conciliar isso com outras partes da minha vida. Eu não vivia num mundo da fantasia, eu sempre vivi no mundo real, mas isso não quer dizer que eu apenas me relaciono com as pessoas ao meu redor, pois eu  também me relaciono  com os filmes que vejo, os livros que leio, as séries que eu assisto e por aí vai. Sempre foi assim.

Eu sei que eu não vou estudar em Hogwarts, ou ter um caso com o Capitão Rodrigo, ou beber vinho com o Bob Dylan (ok, esse último ainda pode acontecer) e isso não exclui a conexão que eu tenho com eles nem a importância que eles têm na minha vida. Ser fangirl é querer ir em todos os shows, ler todos os livros, assistir todos os filmes no dia da estréia, é passar horas e horas conversando e discutindo com as amigas sobre o mesmo assunto, é sofrer junto, é se identificar junto, é se entender junto. Ser fangirl é se projetar no outro, mas não em qualquer outro, num outro perfeito, que não tem os defeitos humanos, num outro ficcional, livre das falhas e erros que nós sempre estamos sujeitos.

Ser fangil é mais do que ser fã. É mais intenso. É ter naquela obra ou artista um refúgio, um conforto que sempre estará lá, não importa o tempo que passe. Ser fangirl  é criar um espaço só seu, um espaço seguro do mundo, um espaço criado com amor – porque sim, a relação o fã com seu artista/obra é uma relação de amor. Esse mundo criado pode existir apenas na imaginação da fangirl, mas não deixa de ser real (citando Dumbledore) e, diferente do mundo concreto, ele está imune à hostilidade, agressividade, ao ódio, é um lugar protegido de tudo aquilo que nos machuca.

E nada disso é bobo. Nada disso é besteira adolescente. Aliás, porque sempre consideramos a adolescência como uma coisa boba? É quando somos adolescentes que descobrimos quem somos, o que realmente gostamos; é quando começamos a conhecer um mundo fora da perspectiva dos nossos pais, é quando experimentamos um pouco de independência e responsabilidade, quando tentamos nos encaixar no mundo, por mais doloroso que seja. E é sempre doloroso. Ser adolescente é difícil. Machuca, dói. Nada disso é bobo, nada disso é ridículo.

Quando eu tinha 13 anos e ficava triste, eu me refugiava ouvindo Green Day. Aquilo era o meu lugar seguro.  Naquele momento o Billie Joe (o vocalista da banda) estava falando comigo, me ajudando a me sentir melhor, a me sentir compreendida. Acho que a coisa mais importante para um adolescente é a compreensão e a identificação. E nada mais natural do que procurar isso em algo platônico, pois assim a frustração é impossível. A minha relação com o Billie Joe era perfeita; eu o amava e ele me entendia. Era exatamente o que eu precisava.

E foi assim com Green Day, e antes com o Senhor dos Anéis, mais precisamente com o Elijah Wood – sim, era apaixonada pelo Frodo, não me julguem -, com Harry Potter e Bob Dylan ao longo de muitos anos (e até hoje) e mais recentemente com o One Direction, ou melhor, com Harry Styles. E esses são apenas alguns.

 

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como não se apaixonar por esse sorriso?

Sempre que volto pra Stars Hollow me sinto melhor. Ou quando tenho um dia ruim, nada melhor que ir para Pawnee. Quando acho que falta amor no mundo, nada melhor que Shoebox (ou qualquer outra fic de wolfstar). Esses lugares eu conheço, eu sei como funcionam, me sinto segura. É o completo oposto do “mundo real”. Não que eu queira substituir esses mundos, os dois são importantes. Não posso viver em um sem o outro, pois pertenço aos dois.

Quando mais nova, sonhava em andar por Nova York com Holden Caulfield, ou visitar a Suíça com Hans Castorp. Ser fangirl não se limita à cultura pop, pelo contrário. Ser fangirl não é perder tempo classificando a suposta qualidade de obras artísticas e ficcionais, até porque isso é besteira. Ser fangirl é amar algo, sem se importar se é real ou não, pois como o próprio Dumbledore disse e eu já citei; o que é real é bastante relativo.

Sempre amei intensamente livros, filmes, personagens, atores. Minha segunda paixão (a primeira foi o irmão mais velho da minha amiga) foi o Leonardo DiCaprio em Titanic. Eu fazia meus pais alugarem todo o final de semana, naquela época em que o DVD não existia e o filme vinha em duas VHS’s presas por um elástico. Eu lembro que ia pra escola com uma foto recortada de uma revista do Leo – e tudo isso com menos de 6 anos! Mesmo quando achava que passava dos limites e tentava me reprimir (uma grande bobagem, aliás) eu não conseguia! Era mais forte que eu. Com o tempo eu fui amadurecendo e aprendi a conciliar esses dois mundos, mas nunca deixarei de ser fangirl, pois faz parte de quem eu sou.

Um brinde à nós!

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Sirius Black, minha 4738743 paixão ❤ 

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manifesto pela dobrinha no canto da página

Como uma boa estudante de Letras, eu amo livros.

Acho até meio cafona dizer isso, mas quando ainda estava na escola decidindo o que queria fazer a vida – e de faculdade -, um dos meus critérios foi: o que eu gosto de fazer? E a minha resposta foi bem óbvia (tão quanto a pergunta): ler! Tinha tudo para dar errado, mas acho que acabou dando meio certo, porque não me imagino fazendo outra faculdade senão Letras. Considero então um sucesso.

Mas não quero falar de faculdade (depois do quinto ano esse assunto vira um tabu), e sim do que me levou a esse martírio curso. Ou seja, quero falar sobre livros.

Gosto de ler desde que me entendo por gente, antes mesmo de me alfabetizar. Na verdade eu não sei direito quando eu comecei a ler, lembro e entender algumas coisas antes de ter alfabetização na escola. Ler e escrever eram definitivamente minhas duas coisas favoritas de fazer por toda minha infância. Eu até tinha o costume e ter sempre um caderno por perto em que anotava (sem saber escrever) o que estava acontecendo em casa.

O primeiro livro que li foi a Árvore Generosa. Meu pai tentou uma vez instituir uma “hora da leitura” em casa – como se já não gostássemos e ler – e me deu esse livro. Meio contrariada porque queria mesmo brincar, li o livro todo e acabei aos prantos. Pra quem não sabe [SPOILERS], o livro conta a história da relação de um menino com uma árvore, desde a infância até a velhice, quando depois de ter cortado a madeira para vender, o menino senta no que restou da árvore e é nessa imagem trágica que acaba o livro.

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Como uma menina sensível e amante da natureza, não tive outra reação senão chorar. A tentativa do meu pai de me fazer gostar de ler poderia ter saído pela culatra, mas o resultado final foi bem satisfatório. Eu acabei relendo o livro várias vezes e tendo a mesma reação, talvez eu gostasse mesmo de manifestações catárticas,  talvez eu só quisesse chorar, ou talvez eu realmente tivesse gostado muito do livro.

Um dia, arrumando a biblioteca de casa, dei de cara com a Árvore Generosa de novo. A capa, mesmo dura, está com uns amassados nas pontas e algumas páginas estão meio dobradas. Olhando para ele logo se pensa: um livro que foi lido.

Nunca me preocupei muito com a conservação dos meus livros, muito menos quando criança. Sempre gostei de reler muitas vezes os livros que gostava, tem alguns até que perderam a capa de tanto que eu dobrei. Tenho alguns amigos que ficariam indignados com isso, mas a verdade é que prefiro muito mais um livro amassado e lido na minha mesinha de cabeceira do que um livro novinho e intocável lá longe na estante.

Nunca perdi tempo preocupada com a minha relação com os livros até que descobri que tinha algumas amigas que nunca tinham lido Harry Potter. 

Quase não acreditei, Harry Potter está presente na minha vida desde meus seis anos, quando li o primeiro livro. Desde então, li e reli a séria incontáveis vezes (a última, por exemplo, terminou algumas semanas atrás). Não tive outra reação senão emprestar meus livros para elas, até porque ser uma milenniall sem ter lido Harry Potter é uma falha e caráter.

Eu nunca tive problemas para emprestar livros, pelo contrário, eu adoro. Quando eu termino um livro que gostei, gosto de compartilhar a experiência. Acho o ato de emprestar/dar livros tão bonito, porque eles são mais que objetos, são outros mundos, outras vivências que podemos experimentar por algum tempo. Como no livro Fahrenheit 451 (eu não li o livro, mas vi o filme) em que os livros são proibidos e há uma comunidade transgressora que, para não perder o conteúdo dos livros, cada pessoa se ocupa de um livro, decorando-o até incorporar toda a história. Os book people são mais que indivíduos, eles se tornam livros ambulantes. Quando vi o filme, fiquei encantada com isso, pois é a metáfora perfeita; quando leio um livro que gosto, me torno mais do que era antes e emprestar um livro é compartilhar essa experiência .

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Fahrenheit 451

Num mundo onde os livros são proibidos, para compartilhar aquela história maneira com o seu amigo é preciso decorar todo o texto ilegalmente e recitá-lo. Mas no nosso mundo, é bem mais simples, é só emprestar o livro. E foi o que eu fiz com Harry Potter.

Quando fui pegar os Harry Potter’s da estante, reparei o estado deles. Todos estavam meio amassados, as páginas rabiscadas e dobradas, alguns até têm fitas adesivas segurando a capa. Mas é claro, são livros que foram lidos e relidos e trelidos muitas vezes durante muitos anos! É assim que gosto dos meus livros: com cara de lidos.

 

Logo quando entrei na Letras, percebi que a minha relação com livros não era unânime. Muitos dos meus colegas tratam seus livros como se fossem de porcelana, levam elas dentro de saquinhos na bolsa e leem sem abrir totalmente para não amassar a lombada. Eu até comecei a me sentir mal comparando os meus livros todos amassados e com as pontas dobradas com cópias que pareciam ter acabado de sair da livraria. Será que tinha passado toda a minha vida cuidando mal dos meus livros?

Ainda no primeiro ano da faculdade, numa aula de Literatura Brasileira sobre Manuel Bandeira,a professora contou uma anedota de quando ela estava no mestrado e participava de um grupo de estudos na casa do Mindlin (aquele bibliófilo que doou sua biblioteca para a USP, que fez um prédio novo para abrigá-la). Ela tinha estacionado o carro bem na frente da casa, mas quando ia embora, viu que seu carro, e todas suas anotações da dissertação de mestrado, não estavam lá. Ela tinha sido roubada. Para tentar compensar a perda, o Mindlin deu para ela uma primeira edição de um livro de poesias do Bandeira, tema da sua pesquisa. Os alunos amaram a história até quando a professora, toda sorridente, falou que o livro que ela havia ganhado era o que ela estava segurando, dobrado no meio, sem nenhuma proteção. A classe toda vacilou assustada num grito silencioso. Na saída da sala todos estavam comentando que a professora devia ser louca para sair de casa com aquele livro que deveria estar guardado com toda a proteção possível. Eu fiquei mais surpresa com a reação dos alunos do que com a atitude da professora. Ué, livros são para ler, ou não?

Sempre me irritei com a fetichização do livro, que no Brasil fica ainda pior, porque com o alto preço o livro vira quase um artigo de luxo. Eu realmente não sei como alguém pode se concentrar no que está lendo com toda a preocupação de não amassar o livro. Muitas das vezes eu nem me dou conta do “estrago” que fiz até terminar de ler.

Uma das coisas que mais gosto de fazer com um livro novo é abrir até dobrar a lombada, para ficar mais confortável de ler. Quando disse isso casualmente numa roda entre amigos fui fortemente rechaçada. Dobro sem culpa a folha para marcar a página quando estou sem marcador e já deixei muitas vezes respingar café nas páginas. Rabisco sem dó, odeio post-its nos livros, ficam sempre caindo. Quando releio um livro e vejo uma anotação, um respingo ou uma dobrinha no canto da página, gosto de pensar que são marcas das minhas outras leituras, são mensagens que mandei para o futuro através do livro e quando as vejo, posso voltar no tempo e lembrar e como era quando li aquele livro pela primeira vez. Se meu livro estivesse intacto, como novo, a experiência não seria a mesma. Sem as minhas marcas, o livro parece que ainda não foi lido, ainda não tem uma história.

Termino o post com um apelo: parem de censurar marcas nos livros! Elas fazem parte da experiência a leitura! Não somos monstros!

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