testemunhas de problematização

ATENÇÃO AOS NAVEGANTES: O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS!

Mas podem respirar tranquilos, porque não são spoilers de Game of Thrones, ou de The Cursed Child. São spoilers de um filme de 1957 chamado Testemunha de Acusação (“Witness of Prosecution”). Eu tentei escrever sem os spoilers, mas pelo bem da argumentação, não tive como deixar de lado todo o enredo do filme. Desculpe, família, eu falhei.

Ontem eu vi Testemunha de Acusação com a minha mãe. Estávamos procurando um filme na netflix e aí, quando passamos por esse e minha mãe decidiu: “É esse!”. Ela já tinha visto várias e várias vezes e amado muito  e eu já tinha colocado na minha lista para ver qualquer dia, então parecia a escolha perfeita. O filme é do diretor Billy Wilder, o que me animou mais, porque eu acho ele ótimo, e nunca vi um filme dele que não gostei.

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Pra quem não sabe, o filme tem a maravilhosa Marlene Dietrich, que faz a esposa de um recém réu acusado por homicídio. O filme começa com o advogado (Charles Laughton) Wilfred Robarts, que acabou de se recuperar de um infarto. Chega até ele um amigo, também advogado, pedindo que assuma o caso de Leonard Vole (Tyrone Power), o marido de Christine Vole (Dietrich). Leonard parece ser bem ingênuo quando conta o seu lado da história; de como conheceu, por acaso, uma rica viúva, e de como eles ficaram amigos até que, numa noite, após ele ter saído da casa dela em direção à sua, a viúva fora assassinada e que ele, Leonard, se tornou o principal suspeito. Wilfred, conhecido por defender casos considerados impossíveis, logo se interessa por esse; ainda mais quando conhece a esposa do acusado, Christine Vole, que não parece muito apaixonada pelo seu marido tanto quanto ele deixou a entender. Wilfred deixa claro que somente ela pode confirmar o álibi do marido e que o juri normalmente não considera como importante o depoimento de uma esposa dedicada, mas Cristine parece o oposto de dedicada e consegue fazer os advogados duvidarem da inocência de seu marido.

Wilfred, quase mais intrigado com a esposa misteriosa do que com seu cliente, questiona Leonard sobre  como ele conheceu Christine. A história é contada toda em flashback, assim podemos ver como Cristine, uma alemã que tenta sobreviver no pós-guerra se apresentando num bar para uma centena de soldados americanos, encontra seu futuro marido, também soldado americano. No meio da apresentação, Christine, que está cantando e tocando acordeão e vestida toda de preto – calça e camiseta – começa a ser assediada pelos soldados, que pedem para ver mais de seu corpo. Começa aí uma cena bem desconfortável de se ver: a centena de soldados vão para cima de Christine e o resto da banda – e Leonard – ficam de fora, apenas observando. O barulho chama atenção da polícia, que esvazia o local. Leonard retorna e encontra Christine abaixada, tentando arrumar a bagunça do bar, com suas roupas rasgadas e cabelos bagunçados. A cena é obviamente suavizada, mas fica claro que Christine acabou de ser abusada. Leonard tenta consolá-la dizendo que a culpa foi dela mesmo, que iludiu os soldados com o cartaz de seu show – uma mulher num maiô dançando – e quebrou a expectativa deles se apresentando de calças compridas.

Essa cena me incomodou bastante, ainda mais porque conta a história de como Christine e Leonard se apaixonam um pelo outro, o que fica meio forçado, já que não acredito que uma mulher que acabou de ser abusada coletivamente possa ter um encontro romântico e ficar tudo bem com isso. Mas ok, é um filme. Eu comentei com a minha mãe sobre meu desconforto e ela me disse que se eu não tinha gostado dessa parte, ia detestar o final.

O julgamento começa e, para surpresa de todos, Christine é chamada como testemunha da acusação. Seu depoimento é bastante polêmico, pois ela não confirma o álibi de seu marido, pelo contrário, reafirma a acusação de homicídio. A reação do público e júri é bastante surpreendente, pois ninguém fica bravo com o marido, que está sendo julgado por homicídio, mas todos deixam clara a imensa antipatia pela mulher.

Com o caso quase perdido, Wilfred recebe uma ligação misteriosa de uma mulher que pode ter provas de que Christine estava mentindo. Eles marcam um encontro e ela vende ao advogado cartas de Christine para o seu suposto amante contando como ela planejava mentir no tribunal para acusar seu marido e se ver livre de um casamento infeliz. Quando essas provas são apresentadas, o júri não tem mais dúvidas e Leonard é inocentado. Aí que vem a grande reviravolta: após o término do julgamento, Christine e Wilfrid conversam e ela confessa que foi tudo uma armação. Após ele ter falado para ela, no primeiro encontro deles, que o júri nunca iria acreditar no depoimento de uma esposa dedicada, ela decidiu fazer o contrário; dizer que Leonard era mesmo culpado e depois fingir um adultério para que seu depoimento fosse descreditado e seu marido inocentado. Leonard realmente matou a velha viúva pela sua herança e os dois criaram juntos um plano para inocentá-lo no tribunal. Acontece que, ao contrario de que Christine pensava, Leonard tinha uma amante e após ser inocentado, planejava uma viajar com ela e abandonar sua esposa. No meio da revelação, Christine pega uma faca e mata seu marido e depois é levada presa por policiais. No meio dessa confusão, Wilfred decide adiar suas férias e assumir outro caso, a defesa de Cristine.

Quando o filme acabou, perguntei pra minha mãe por que ela achava que eu não iria gostar do final (na real eu tinha gostado bastante) e ela me disse: “porque a Cristine era, na verdade, a malvada”. Mas não, ela não era a malvada. Pelo contrário, a maior vítima da história era ela. Vítima por ser mulher e estar sozinha num país devastado pela guerra, vítima por ter que se submeter a abusos e assédios para sobreviver, vítima por ter que se envolver com um homem e casar com ele para conseguir sair do país, vítima por ser enganada e usada pelo mesmo homem e vítima por apenas ser mulher numa sociedade de homens.

Não quero aqui dizer que devemos parar de assistir filmes velhos. Pelo contrário! Eu adoro filmes velhos e acho que devemos continuar assistindo. Quanto mais filmes melhor! Mas eu odeio esse papo que só porque tal coisa é antiga devemos desconsiderar a problematização. Discordo completamente, até porque de que vale a problematização se ela for parcial? Odeio também esse tom acusatório que muita gente assume quando algum filme/obra/artista é problematizado, como se discutir sobre algo desmerecesse seu valor artístico. E na real, e se desmerecer? Eu, por exemplo, tenho a maior preguiça do mundo pra ler Nabokov. Ele pode ter sido um grande escritor, mas a história de Lolita me faz ter náuseas só de pensar. Pode ser uma grande obra da literatura mundial, mas eu não quero ler, estou perdendo tanta coisa assim? Afinal, tem vários outros grandes escritores por aí e eu não sou nem um pouco obrigada a ler todos.

Mas não é essa a questão. Voltemos ao filme.

A cena do abuso colocada em Testemunha de Acusação, por exemplo, só reafirma que nossa sociedade está imersa na cultura do estupro. Porque, afinal, uma mulher sozinha que se apresenta num bar cheio de soldados tem que saber o que a espera. E isso é reafirmado pela fala de seu futuro marido, que confirma sua “culpa” diante do acontecido. E aqui a desculpa que o filme é velho nem cola, por que isso acontece, infelizmente, até hoje, e com bastante frequência. Logo depois da cena, eu comentei com a minha mãe: “caraca, em que mundo uma mulher que acabou de ser estuprada convida um homem pro seu quarto?”. No mundo de ficção talvez? Ou num mundo que considera normal esse tipo de abuso? É claro não era a intenção do filme mostrar os sofrimentos de uma mulher, não era esse o ponto. A cena não foi feita para incomodar, e sim para dar o tom do romance, afinal, Leonard salvou Christine quando se casou com ela, levando-a da Alemanha derrotada para os Estados Unidos.

Mas eu me incomodei com a cena. Assim como me incomoda ver cenas de estupro ficcionais, e assim como e incomoda ver violência contra mulheres em filmes, novelas, séries, etc. Me incomoda porque a violência é real. E quando ela vai para ficção, não aparece em tom de denúncia, mas muitas vezes é romantizada, ou usadas para justificar as atitudes de personagens, ou reviravoltas do enredo.

O meu incômodo com a cena me fez pensar também que talvez eu não me incomodasse tanto uns anos atrás. E isso é óbvio, porque mudamos com o tempo. As sociedades mudam com o tempo. Os paradigmas mudam com o tempo. Tudo muda com o tempo. Então porque não podemos desconstruir e problematizar representações artísticas? A obra de arte é tão frágil que pode ser deslegitimada só pelo olhar crítico? Eu acho que não.

Ao contrário do que minha mãe achou, eu gostei bastante do filme. Os diálogos são ótimos, as reviravoltas realmente me surpreenderam, o trabalho dos atores é incrível e Marlene Dietrich é realmente muito maravilhosa. O fato de que eu me incomodei com várias coisas no filme não quer dizer que eu não tenha achado bom. Até porque, uma boa obra de arte só aumenta seu valor quando é discutida, problematizada, analisada criticamente.

Eu quero poder falar abertamente sobre cinema, sobre literatura, sobre arte. Detesto essa visão de que o artista é sagrado e que ele está acima de julgamentos. Eu quero poder falar livremente que me incomoda ver um filme do Woody Allen hoje, por mais que eu goste muito da sua obra, sem que alguém me diga que eu tenho que separar o artista da sua obra. Será mesmo que temos que separar? Eu continuo gostando muito dos filmes do Woody Allen. Annie Hall sem dúvidas é um dos meus filmes favoritos, mas me incomoda ir ao cinema e ver um filme dele, e cada vez eu tenho mais certeza que precisamos falar sobre isso. É ok continuar consumindo obras de estupradores? Polanski até hoje é proibido de voltar para os Estados Unidos e, mesmo sendo culpado de abuso sexual, continua sendo um cineasta renomado. Isso é ok? Um artista está acima da lei?

Ver Testemunha de Acusação me fez perceber que precisamos urgentemente discutir sobre isso, até porque essa também é uma das funções da obra de arte: incitar discussões, argumentos, quebrar paradigmas, e não ser algo estático, sagrado e acima de problematizações. E afinal, estamos em 2016, século XXI, precisamos perceber que as coisas mudam, até (surpreendentemente) na arte.

PS: peço perdão pelo trocadilho horrível do título. Quebrei minha cabeça pra pensar um título melhor e não consegui. Novamente, desculpe, família, falhei.

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