sobre leituras e reflexões

Nesses últimos dias andei lendo bastante.

Li vários textos sobre meu projeto de iniciação científica, em que vou tentar relacionar o Brasil dos anos 60 com a URSS; então tenho lido muito sobre a Ditadura Militar, o que não é uma leitura muito agradável de se fazer, ainda mais vendo tudo isso que está acontecendo com o Brasil.

Li também vários textos sobre os absurdos que acontecem no país , um atrás do outro, sem parar. Semana passada até fiquei meio doente e tenho quase 100% de certeza que grande parte foi uma reação à posse do Temer.

Já faz um tempo que o impeachment deixou de ser algo bizarro para ser algo bem triste. Ainda durante a copa, em 2014, lembro que a torcida vaiando a presidenta Dilma ainda representava algo distante e estranho (além de ser extremamente mal educado). Depois tiveram as primeiras manifestações que pediam o afastamento da presidenta, ou até a sua renúncia, e com isso muitos e muitos memes e piadas me fizeram rir e pensar que toda essa galera gritando de verde e amarelo era bem louca, e o que e seus pedidos estavam bem distantes da realidade. Afinal, a Dilma havia vencido as eleições, não é mesmo? Vi o surgimento da maravilhosa página do facebook Humans of Protesto e acompanhei através dela a cobertura de algumas manifestações na Av. Paulista. Todas com requintes de excentricidade e banalidade, o suficiente para fazer uma boa piada e seguir com a vida.

Contudo, desde o começo desse ano que, pelo menos para mim, tudo isso deixou de ter o colorido de bizarrice, de loucura e de ignorância para ser bem perigoso. Foi quando vi selfies com policiais militares e pessoas fantasiadas de CBF, cartazes pedindo a volta dos militares, pessoas dizendo que a censura, os presos políticos, as pessoas torturadas e assassinadas, a falta de liberdade de expressão, foram apenas acidentes de percurso de um governo que só fez o bem do Brasil. Ou pior: pessoas que acreditavam que aquilo mesmo que deveria acontecer, e que nunca deveria ter sido eleita como presidenta do país uma mulher, ainda mais ex-guerrilheira. Todo o preconceito, falta de consciência história, machismo, misoginia me acertou como um soco na cara: aquilo também é o mundo em que vivo, aquelas pessoas são reais, não são memes, elas não estavam lá dizendo abobrinhas, quer dizer, estavam, mas elas realmente acreditavam naquelas abobrinhas.

Conforme o processo de impeachment seguia seu curso, as coisas ficavam cada vez mais sombrias e a minha querida e amada bolha esquerdista e feminista em que vivo foi ficando cada vez mais aparente e menor. Não que pessoas que conheço e gosto começaram a apoiar o golpe, mas continuar a viver despreocupadamente, achando até graça nos panelaços, não era mais possível. Comecei aí a me sentir oprimida. Fui um dia com um amigo na frente do prédio da Fiesp, logo depois que começou aquele “acampamento” anti-Dilma. Estavam lá amarrados bem na frente do prédio o famoso pato e o pixuleco. Paramos lá e fiquei observando, bem curiosa, como aquilo funcionava. Eles tinham um daqueles jogos de colocar a cabeça num corpo de papelão para tirar fotos, que normalmente é de algum personagem, mas o deles era de policiais federais durante a Lava-Jato. Além disso, um grupo segurando uma faixa “Buzine para o impeachment”, ou algo parecido, iam no meio da rua, na frente dos carros toda vez que o semáforo fechava, causando uma profusão de buzinas imensa, além dos gritos e assovios. Achei tudo um espetáculo de bizarrices. Nos primeiros minutos que fiquei lá foi até engraçado, senti um pouco de medo do meu ~estilo~ de fflchiana me denunciar naquela massa verde-amarela, mas ninguém nos abordou. Eu e meu amigo fomos então analisar os bonecos infláveis, fazendo planos mirabolantes de como estourá-los na próxima manifestação. Ainda era meados de março e eu nem imaginava o que viria pela frente, mas na volta para casa, comecei a me sentir pequena, como se tivesse acontecido o inverso: aquilo que eu acreditava ser o certo para o país fosse o motivo de piada.

Algumas semanas depois disso, aconteceu aquela tenebrosa votação da Câmara dos deputados. Se eu as vezes já me sentia um pouco oprimida, depois daquilo foi inevitável. Ainda mais sendo mulher, ver todos aqueles homens distorcendo tudo o que politica pública representa, me deu vontade de chorar. E foi isso que fiz. Acompanhei a votação por um link, sem ver os discursos, como se fosse placar de jogo de futebol, deitada na cama e com os olhos inchados de lágrimas, incapaz até de mudar a aba do navegador para a Netflix e tentar me distrair com alguma série.

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Mesmo depois de tudo aquilo, eu não queria  falar sobre, fazer um post no facebook ou aqui. Minha timeline estava cheia de textões bem lúcidos, informes, algumas tiradas engraçadas, não achava que acrescentaria nada à discussão ao oferecer meu humilde ponto de vista. Mas aí o senado aprovou o pedido de impeachment, a presidenta foi afastada, Michel Temer assumiu e colocou ao seu lado mais homens brancos para compor seu governo, como se já não tivéssemos homens brancos suficientes para ditar nossas vidas. Na faculdade, em casa, no bar da esquina, era difícil não se falar sobre isso. O que diabos está acontecendo com o Brasil?

No dia em que a Dilma saiu da presidência, eu estava no hospital tomando soro e remédios na veia. Meu pai, que estava comigo, tentou colocar esse assunto em pauta, mas eu estava tão abatida que não consegui formular uma sentença direito, preferi ficar lendo meu livro (o último de uma saga chamada “Raven Cycle”, ou “Saga dos Corvos”, no Brasil. Eu recomendo fortemente a leitura, são livros maravilhosos). No caminho de volta para casa ligamos o rádio. Um professor da USP estava sendo entrevistado e foi questionado sobre o próximo passo da, agora, oposição ao governo. Para ele, o governo Temer irá sofre fortemente com a grande resistência da esquerda, não será fácil o aceitamento das decisões retrógradas que serão tomadas, os movimentos sociais não aceitarão os cortes que irão sofrer sem luta, ele disse. Eu e meu pai ouvimos aquilo atentamente e respiramos um pouco mais aliviados. Havia ainda pessoas pensando parecido com a gente, resistindo, assim como nós.

A minha faculdade está de greve, assim como o restante dos estudantes e funcionários da USP. Mesmo sabendo de cor e salteado todos os lados ruins de greves; as aulas perdidas, o esvaziamento da universidade, o estresse,  falta de certezas, perigo de cancelamento do semestre, etc e tal, e mesmo a minha falta de vontade de participar mais ativamente do movimento estudantil e minhas milhares ressalvas com a forma que é feita política na USP, uma das coisas que mais me irritam nesses períodos é quando colegas estudantes se descabelam preocupados com suas formações, suas notas, seus trabalhos. O que mais se vê nos grupos da faculdade são posts do tipo: “tal professor vai dar aula na greve?”. Na primeira greve de estudantes que participei na faculdade, uma professora resolveu reunir seus alunos não para dar aula (afinal estávamos de greve), mas para conversar sobre aquilo tudo que estava acontecendo. Eu ainda não entendia qual deveria ser meu posicionamento sobre a greve, se queria participar ou se queria ter aula. Era o meu segundo ano de faculdade minha primeira experiência do tipo. Lembro até hoje dela falando que, numa situação como a de greve, não importa muito suas decisões como indivíduos, mas sim como coletivo. A nossa categoria de estudantes havia votado pela greve, então; consequentemente, como boa estudante que sou, deveria respeitar essa decisão. Foi uma fala tão simples e lógica, mas me marcou profundamente. Era quase óbvio. Numa universidade pública, bancada por dinheiro público, a decisão de um coletivo de pessoas tomada em uma assembleia democrática deveria ser soberana diante da decisão pessoal de um indivíduo. Assim, talvez um professor  que não concordasse com a greve quisesse dar aula, nós, estudantes em greve não iríamos para a aula. Sem alunos não há aula. Juntos nós estaríamos protegidos. É o mesmo agora. Junto das pessoas que pensam como eu, que são contra às mesmas coisas que eu sou contra, me sinto mais protegida, me sinto representada. Por mais que me sinta sozinha nesse mundo opressor, eu sei que há várias outras pessoas assim como eu, e que juntas ficamos melhor. E é isso me tranquiliza.

 

PS: esse final saiu mais otimista e com uma vibe “juntos venceremos” do que esperava no começo do post. Mas deixarei assim. Acho que é preciso registrar esses raros momentos positivos em frente aos acontecimentos recentes. Eu comecei com a intenção de falar sobre o que estava lendo e acabei falando sobre tudo o que queria evitar de falar. Me senti satisfeita.

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3 comentários

  1. Carola · maio 17, 2016

    Ah Júlia, estamos aprendendo a democracia. em um país que menos de há menos de 150 aboliu a escravidão, até que estamos indo. ostro dia vi um comentário excepcional. Há dez anos, todos sabiam a escalação do flamengo. hoje sabemos pelo ao menos, o nome de três juízes do STF. a bola está com a gente!

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  2. Júlia Medina · maio 17, 2016

    hahahaha! e assim vamos, meio tropeçando, meio caindo, mas seguimos (espero) em frente.

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  3. claudiorbarros · maio 18, 2016

    Estou adorando . É muito pessoal, ao mesmo tempo é uma crônica dos nossos dias, desses dias que são de todos nós. Você os faz distintos.

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