eu ainda vou ver o novo filme do woody allen no cinema?

Conheci Woody Allen bem novinha. Devia ter uns 12 ou 13 anos quando vi Bananas pela primeira vez e logo de cara já gostei. Minha mãe, vendo meu interesse se animou e fizemos a festa na locadora perto de casa. Não demorou muito para eu ver a maioria – se não todos até então – dos filmes do Woody Allen.

Eu perdi a conta de quantas vezes eu vi Annie Hall, Hannah e Suas Irmãs ou Poderosa Afrodite (que são meus preferidos). Vibrei quando vi O Sonho de Cassandra no cinema, porque era o primeiro lançamento do Woody Allen que acompanhei e não lembro de me divertir tanto com a minha mãe no cinema de quando fomos ver Vicky Cristina Barcelona. E depois nós duas ficamos por semanas e semanas apaixonadas pelo Javier Bardem

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um crush coletivo e compartilhado ❤ 

É claro que gostar de Woody Allen adolescente me deixava com aquele status cult e insuportável que eu gostava de ter com 15 anos e sobre o qual eu já falei aqui.

Eu me orgulhava também de conhecer mais do que os clássicos, aqueles que todos já viram, os mais famosos etc e tal. Eu, como boa fangirl que sou, fui atrás de todos os filmes do Woody Allen, dos livros dele, dos livros sobre ele e por aí vai. Eu até tive uma camiseta do cineasta, que usava meio pretensiosamente, como toda boa e velha adolescente.

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desculpe, amigas, mas pelo bem da sinceridade tive que compartilhar essa pérola.

Eu queria saber tudo sobre os filmes minuciosamente, queria entender todas as referências, queria conhecer suas influências e foi por isso que fui me apaixonando cada vez mais por cinema. Sem ter conhecido Woody Allen do jeito que conheci, nunca iria gostar de Bergman, de Fellini, de Almodóvar, Scorscese, e por aí vai. Foi vendo Woody Allen no sofá de casa com 15 anos e achando tudo aquilo o máximo que comecei a gostar de cinema. E a a partir daí, meus gostos foram se moldando para o que são hoje, eu fui me moldando para o que sou hoje. Acredito que nossos gostos importam sim, porque eles fazem parte da nossa identidade e por isso que hoje, para mim, é tão complicado falar de Woody Allen.

Quanto mais fui conhecendo a pessoa Woody Allen mais confusa fui ficando. Pode ser ingenuidade, mas para mim é muito complicado gostar de um artista com um histórico problemático. A faculdade de Letras me ensinou a separar a vida do artista de sua obra, mas toda a minha formação de fangirl me ensinou a descobrir e conhecer tudo junto e misturado, porque quanto mais informação melhor.

Woody Allen se separou de Mia Farrow, sua companheira e parceira de trabalho por 12 anos, para se casar com a filha adotiva de Farrow, Soon-Yi, que é décadas mais nova que ele. Na mesma época da separação, ele foi acusado de ter abusado sexualmente de sua filha com Mia, Dylan Farrow, o que gerou grande polêmica e foi parar nos tribunais, mas o cineasta foi absolvido das acusações.

Anos depois, em 2014, Dylan Farrow publicou uma carta no The New York Times reafirmando as acusações de estupro quando ela tinha apenas 7 anos. Ela começa a carta dizendo “What’s your favorite Woody Allen movie?“, o que toca bem no ponto que quero chegar: até quando separamos vida e obra dos artistas? É certo prestigiar homens estupradores?

O caso voltou a ocupar as manchetes quando Woody Allen recebeu uma homenagem no Globo de Ouro de 2014 e seu filho, Ronan Farrow junto da mãe, Mia Farrow, criticaram o cineasta abertamente no twitter ao mesmo tempo da premiação e do discurso de homenagem feito pela Diane Keaton.

Como fã do trabalho de Woody Allen, eu acompanhei tudo isso e fui ficando cada vez mais perdida. Eu sei o quão é sério acusar um homem, um pai, de estupro. E, como feminista, sei que muitas vezes as vozes das mulheres não são ouvidas, e aprendi a sempre acreditar na vítima. A repercussão do caso na mídia, é claro, tomou o lado do Woody Allen. Li muitos textos defendendo o cineasta, dizendo que as acusações eram falsas, chamando, tanto a Mia Farrow, quanto sua filha de loucas, acusando elas de quererem apenas atenção, li muitas coisas horríveis. Mas também li textos que não entravam na discussão de se o cineasta era culpado ou não, mas que diziam que não podemos deixar de ver seus filmes, porque eles são bons. Vi muita gente tomando partidos publicamente e senti que eu, como fã do Woody Allen, também deveria adotar um posicionamento. Mas eu não consegui.

Vi muitas mulheres nas redes sociais anunciando seu boicote aos filmes do Woody Allen. Eu não acho isso ruim. Acho importante, ainda mais hoje em dia, tomarmos posições, por mais drásticas que elas possam parecer. É possível viver sem assistir a filmes do Woody Allen, eles não são essenciais para a vida e tem muitos filmes bons por aí. Eu queria ter essa clareza, eu queria tomar uma posição e seguir com ela para sempre, mas minha formação está proximamente ligada ao Woody Allen, faz parte da minha construção de identidade, não poderia simplesmente deixar de considerar sua importância. Ao mesmo tempo, não me sinto confortável consumindo filmes de um homem que casou com sua enteada e foi acusado pela filha e ex esposa de estuprador.

Sempre quando penso sobre isso, volto ao caso do Polanski. Ao contrário do Woody Allen, Polanski foi acusado e preso por abuso sexual de uma menina de 13 anos de idade. Ele mesmo assumiu o crime e, pelo caso estar ainda em aberto, ele não retorna para os EUA para não ser preso. Aqui, Polanski assumiu o crime e foi preso por isso e mesmo assim, continuamos a assistir seus filmes sem lembrar do que aconteceu.

Acho bobagem o endeusamento de artistas. Para mim, artistas são pessoas, como eu e você. Eles não são melhores nem piores que ninguém, acho que eles devem ser julgados da mesma maneira que qualquer outra pessoa é julgada. Mas ao mesmo tempo, entendo que julgar um artista é mais complicado, às vezes não dá para ser tão maniqueísta-branco-no-branco-preto-no-preto assim. Eu, por exemplo, não leio Lolita (nem gosto de Nabókov) porque acho errado romantizar abusos, mas continuo vendo e gostando Annie Hall. As pessoas não são tão simples assim.

Por mais que eu procure uma posição clara sendo fã do Woody Allen e, ao mesmo tempo, mulher feminista, acho que o mais importante é a discussão. Poder falar e problematizar abertamente artistas tão consagrados com históricos tão complicados como Woody Allen, e conseguir entender que consumir obras de pessoas machistas/racistas/preconceituosas/abusadores é sim complicado, e que nem sempre separar vida e obra é a melhor opção é o real avanço.

Eu ainda não tenho uma posição exata. Mas tem um novo filme do Woody Allen em cartaz. Talvez não ver o filme no cinema e baixar ilegalmente seja também um ato político. Não sei.

 

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um outro grito

 

Pensei por muito tempo no que escrever aqui, algum tema para um novo post, algum assunto relevante o bastante para reflexão, algum livro, algum filme, alguma notícia que tenha me chamado atenção, enfim, alguma coisa.

É claro que muitas coisas me chamaram atenção; li um ou dois livros, vi filmes e séries, li jornais, notícias, textões. Aconteceu muita coisa no país nas últimas semanas, assunto não falta. Mas mesmo assim, eu não conseguia – ou não queria – sentar e escrever.

Muitas vezes, ainda mais nesse ano, achei que deveria que dar algum tipo de resposta em vista o que acontece e está acontecendo com o Brasil. Talvez desde as ~jornadas de junho~, lá em 2013, o país se deu conta da força da juventude atual, que era muito criticada por ser a geração da internet, formada nas redes sociais e não nas ruas. Muito se desdenhou da minha geração; diziam que éramos desinteressados e desinteressantes, alienados, etc. Mas em junho de 2013 demos uma virada. Eu fui em algumas manifestações contra o aumento da tarifa naquele ano, não estive na violenta noite do dia 13, mas fui na seguinte, no dia 17. Andando do Largo da Batata até o Palácio dos Bandeirantes ouvindo um coro de uma mistura de palavras de ordem com o hino nacional, cartazes pedindo o fim da corrupção e o abaixo da tarifa, bandeiras de partidos políticos, estudantes independentes, adultos, idosos e até crianças, me senti fazendo parte, senti que era preciso estar lá, me senti importante naquela multidão. O poder da união é bem forte e naquele dia eu senti isso. Apesar do medo da repressão policial, sabia que quanto mais pessoas juntas, mais fortes nos tornávamos. Dei a mão para as minhas amigas e me senti quase que invencível. Alguns dias depois, com o anúncio da redução da passagem, fiquei satisfeita. Tinha feito parte daquilo; eu, meus amigos, meus colegas, minha geração tinha feito aquilo. Foi incrível!

Depois de Junho muita gente se deu conta do poder da multidão. Os anos seguintes foram muitas as manifestações da direita, querendo também fazer sua voz ser ouvida nas ruas. Com isso, nos lembramos que movimentos fascistas não são geração espontânea, e sim fruto da nossa sociedade e como um monte de gente junta pode ser muito certo, mas é muito fácil ser muito errado também. Grupos pró-ditadura deram as caras, vimos cartazes pedindo a intervenção militar, pessoas fantasiadas de bandeira do Brasil, de camisa da CBF pedindo o fim da corrupção, e por aí vai. No começo eu admito que achava engraçado. A diversão de alguns domingos foi assistir a cobertura dos “protestos” na paulista fechada para carros pelas redes sociais. E do mesmo jeito que logo achei aquilo um absurdo, a piada foi perdendo a graça muito rápido e as consequências daquele fenômeno começaram a chegar.

O dia em que o impeachment se concretizou foi um dia esquisito. Era aniversário de uma amiga muito amiga minha e, entre a faculdade e o jantar de comemoração, saiu a notícia. Ouvi gritos de “Fora Temer”, ouvi fogos de artifício, acompanhei manifestações pela internet, do ônibus queimado na USP em resposta ao assassinato de dois meninos pela PM na comunidade perto da universidade e no meio de tudo isso comi bolo de aniversário e cantei parabéns. Me senti num filme surrealista do Buñuel, nada fazia muito sentido. Tenho me sentido num filme surrealista há algum tempo, na verdade. Vimos deputados votarem em nome de Deus e da família, vimos um golpe se concretizar ao poucos, e “dentro da lei”, vimos a polícia armar táticas de guerra contra a população,  nada disso é certo, nada disso faz sentido.

Como parte da geração que reocupou as ruas, sinto sempre a responsabilidade – e até obrigação – de me dar uma resposta para tudo isso. Não que eu realmente tenha respostas (porque eu mesma não tenho), mas parece que se eu não reagir, me manifestar de alguma forma, é como se não me afetasse. O meu maior medo sempre foi ficar indiferente, apática. Já tive pesadelos em que ficava catatônica, sem conseguir reagir às coisas. Sinto, logo existo. E eu estou sentindo. Talvez minha resposta imediata não seja ir às ruas, ou talvez seja. Talvez conversar com alguém seja mais eficiente, ou conseguir argumentar e mostrar a minha visão das coisas. Talvez o meu papel nisso tudo seja apenas resistir. Na minha vivência de estudante de universidade pública, entrei em contato com movimentos sociais e políticos, coletivos, partidos políticos, fui em assembleias, participei de greves e nisso tudo, o que sempre me incomodou é essa espécie de competição para saber que é o mais revolucionário e desconstruído de todos. Eu sempre me mantive um pé atrás de tudo isso , sempre preferi uma posição de observação. Não digo que ache isso o mais certo, mas acho que é preciso lugar para isso. Eu não preciso gritar palavras de ordem para mostrar minhas convicções políticas, mas as palavras de ordem são gritadas por alguém – e esse alguém também é necessário. A minha necessidade de dar alguma resposta é 100% pessoal. Escrever esse texto é um ato totalmente pessoal. É a forma que consegui digerir esses últimos meses. Talvez semana que vem eu esteja na rua gritando e cantando com outras milhares de pessoas, ou talvez não. Por mais que a multidão faça diferença, às vezes, a resposta precisa ser pessoal. E, às vezes, um pequeno ato pessoal pode ser revolucionário.

Um dia no jantar minha mãe disse que apesar de tudo, ela se sentia feliz de estar vivendo tudo isso; porque, segundo ela, estamos vivenciando a História (essa mesmo, com “h” maiúsculo). Isso ficou na minha cabeça porque eu amo História (e histórias também), sempre foi minha matéria favorita na escola e, de algum jeito meio louco, foi por causa dela que fui parar na Letras (mas essa já é outra história). E mesmo gostando de estudar História, sempre a vi como uma coisa distante. É preciso de distância temporal para analisar fatos históricos, é isso que nos ensinam. E mesmo assim eu concordo com a minha mãe. Estamos vivenciando momentos que com certeza serão estudados daqui a alguns anos. Não tenho dúvidas que irei contar o que vivi pros meus filhos, netos e por aí vai. Gosto da visão que diz que estamos num momento de transição, que, apesar da falta de perspectiva que podemos ter depois da consolidação final do golpe, a esquerda vai conseguir se unir para realmente conseguir vitorias. Gosto de permanecer otimista nesse marzão de notícias ruins, por mais difícil que seja. Eu só consigo passar por isso desse jeito, na verdade.

“Um grito” foi o título do meu primeiro post aqui. Foi por isso que fiz esse blog, para gritar. Acredito no poder das palavras – por mais cafona que isso possa soar – porque elas realmente fazem a diferença, principalmente para quem as grita, ou quem as escreve.

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Harry Potter and The Cursed People (incluindo ele mesmo)

[SPOILERS, muitos spoilers de Cursed Child! Se você não leu ainda e não quer saber de nada, não leia esse post!]

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Semana passada foi lançado o tão esperado roteiro da peça Harry Potter and The Cursed Child, que narra os acontecimentos no mundo bruxo anos depois da batalha final contra Voldemort.

Muita gente já chamava o texto de “8° livro de Harry Potter“, o desfecho de toda a história. Eu pessoalmente prefiro ficar com o final do sétimo livro, Relíquias da Morte, porque me parece o final mais bem construído literariamente, além de marcar o fim da série de livros, já que Cursed Child é, originalmente, uma peça de teatro.

Desde quando soube que a autora, J.K. Rowling, iria escrever uma peça sobre Harry Potter, já fiquei com o pé atrás. É claro que como qualquer outra fã da série, toda novidade sobre o mundo mágico de Harry Potter é bem-vinda, mas o que me deixou receosa foi exatamente o gênero: Harry Potter é um fenômeno mundial, porque fazer a continuação da história como uma peça de teatro? Só quem estiver em Londres pode ver, ou quem tem muita grana para poder viajar até lá. O resto dos fãs tiveram que se contentar com o roteiro da peça.

Quando o casting foi anunciado, fiquei feliz com a escolha dos atores, principalmente de ter a Norma Dumezweni como Hermione, até porque a cor da personagem nunca foi descrita nos livros, então porque não ela ser negra?

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Hermione ❤

Assim que os spoilers vazaram, não pude me controlar e, em vez de #keepthesecrets, fui procurar sobre o que se tratava a história. Eu estava na casa da Clara quando lemos os spoilers da peça e não conseguimos acreditar que aquilo tinha sido escrito pela mesma pessoa que escreveu todos os outros livros da série. Pessoalmente, achei que podia ser tudo falso para enganar os apressados e a peça ser completamente diferente. Na verdade eu torci para que isso fosse verdade, pois a história parecia ter sido feita numa viagem de ácido.

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J.K. escrevendo Cursed Child

 

O tempo passou e Cursed Child deixou de ser meu foco principal até que, no final da semana passada, o roteiro foi finalmente lançado! Passei meu domingo lendo e, para a minha infelicidade, aqueles spoilers que tinha lido antes eram todos verdade. Mas tinha mais! Mais surpresas surreais, mais incoerências com o resto da obra, mais esteriótipos de gênero, racismo e por aí vai. Não foram só as falhas com o próprio universo que ela criou e os furos de enredo que me incomodaram – esses até me fizeram rir bastante. Eu fiquei muito mais perturbada como jovem adulta feminista do que como fã incondicional de Harry Potter. Deu pra entender a diferença? Se não, vamos aos problemas:

  1. O papel das mulheres:

Harry Potter, apesar de estar centrado num menino, sempre teve personagens mulheres de muita importância. Hermione, Gina, Luna, Profª Macgonnagall, Bellatrix, entre outras. A escolha por uma atriz negra para interpretar a Hermione na peça foi com toda a certeza um acerto e um passo à frente para a representatividade de pessoas não-brancas na obra. Tendo tudo isso como plano de fundo, Cursed Child errou muito com suas mulheres.

A única personagem feminina que realmente tem importância para  a história é a Hermione. Além de ser Ministra da Magia (sério, quem iria duvidar?), é com ela que Harry descobre o que seu filho está fazendo e juntos eles planejam como remediar a situação. Ela toma decisões e deixa claro – principalmente para seu marido Ron – que não precisa de ajuda ou proteção. Hermione diz mais de uma vez que seu trabalho é uma prioridade, e não se sente culpada de não ser tão presente em casa quanto Ron, que por trabalhar na loja Weasleys Wizard Wheezers, tem horários mais flexíveis. Tudo isso parece ótimo, não imaginaria um futuro diferente para a Hermione, mas a a história não para aí:

Na primeira vez em que Albus e Scorpius alteram o passado para tentar salvar Cedrico de morrer nas mãos do Voldemort, eles retornam para a primeira tarefa do Torneio Tribuxo e, disfarçados de estudantes de Durmstrang, eles impedem que o Cedrico termine sua tarefa na esperança de que essa derrota o impeça de ganhar e, consequentemente, ir parar no cemitério com o Harry. O plano funciona e os meninos retornam ao presente, mas não para o mesmo presente; eles retornam para uma realidade alternativa. As mudanças são poucas; Albus está na Grifinória, Ron é casado com Padma Patil e Hermione é professora de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Chocado com o presente alternativo, Albus busca mais respostas, o porquê de todas as diferenças. Ele descobre que o motivo de Ron e Hermione não estarem casados é porque ela, desconfiada de que Víctor Krum estava por trás da derrota de Cedrico na primeira tarefa do torneio, recusa seu convite para o baile e vai com o Ron. Por causa disso, Ron nunca sente ciúmes de Hermione e, ao invés de se apaixonar por ela, se apaixona por Padma. Toda a justificativa me parece absurda. Desde quando ciúmes é algo positivo? O Ron foi péssimo com a Hermione – e com a Padma também – no baile, sem contar que a tensão romântica/sexual entre os dois já era algo sendo construído. O baile não foi tão significativo assim para o relacionamento deles.

Mas não é só com o casamento de Ron e Padma que choca os meninos. A Hermione alternativa também é bem diferente. Hermione, por não ter se casado com Ron se torna solitária e má. Como professora ela é cruel, humilha os alunos e os reprime por motivos desnecessários. Ela é praticamente uma versão feminina do Snape (o que convenhamos, não é boa coisa). A personagem de Hermione nunca seria uma professora cruel, pelo contrário! Hermione é conhecida por ter uma ética e princípios fortíssimos e ela nunca vai contra eles. Além do mais, ela nunca seria professora de Defesa Contra as Artes das Trevas. Talvez Transfiguração, ou alguma outra matéria mais teórica.

Voltando à realidade principal, temos Rose Granger-Weasley, filha de Ron e Hermione. A princípio ela parece bastante promissora, mas infelizmente só ficamos com esse princípio, já que ela mal aparece na peça. Só a vemos no início da história e bem no final, para justificar a súbita heterossexualidade de Scorpius.

A Gina, que nos livros nunca passou despercebida – mesmo sendo a mais nova de seis irmãos -, na peça ela quase desaparece. Com exceção dos dois momentos em que ela fica brava com o Harry e por proibir que ele e seus filhos comam açúcar. Mas a Gina jamais iria passar despercebida. Ela se torna jornalista esportiva para o Profeta Diário, o que é uma profissão bem bacana para uma mulher, que normalmente nunca está associada a esportes, mas é só. Gina não tem relevância para o enredo da peça, ela só está lá, cumprindo seu papel de esposa do Harry, sem grandes desenvolvimentos.

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encontro de Ginas! Parabéns a esse casting!

 

Bellatrix, apesar de ter morrido antes dos acontecimentos da peça, também tem uma trajetória questionável. Delphi, a jovem que persuade Albus a voltar no tempo e salvar o Cedrico, é na verdade filha de Voldemort com Bellatrix, e nasceu em algum momento antes da Batalha de Hogwarts na mansão dos Malfoy. Toda essa trama me parece surreal, porque a Bellatrix representada nos livros nunca teria filhos. E ok, nem todas as mulheres querem/precisam ter filhos, é uma escolha, não um destino. Ter uma personagem feminina claramente má, intimidadora, cruel e que devotou sua vida para uma causa era um ponto positivo na obra. Não que eu goste da Bellatrix, ela era horrível; torturou os pais do Neville, matou Sirius, seu primo, sem pensar duas vezes. Mas ela ia além da representação comum mulheres na ficção. Mas aí ela se torna mãe, o que além de ser improvável, enfraquece a sua própria construção como personagem. Sem contar que, sejamos sinceras, Voldemort não transa, né.

2. As incoerências:

Até agora já foram algumas incoerências; Bellatrix ficar grávida do Voldemort, Hermione ficar solitária, amarga e uma péssima professora, Voldemort transando,  e por aí vai. Mas aos absurdos não param por aí.

Na segunda vez que Albus e Scorpius alteram o passado, eles decidem retornar para a segunda tarefa. Como da primeira vez o boicote do Cedrico não deu certo, eles decidem que irão causar mais danos do que o fracasso do campeão lufano; eles resolvem humilhar o pobre Cedrico. Como a segunda tarefa foi realizada no lago, eles voltam no tempo no banheiro da Murta-que-geme e pelos encanamentos chegam até o lago e fazem um feitiço para a cabeça de Cedrico aumentar, fazendo com que o menino boie ao invés de mergulhar. Conclusão:  Cedrico é motivo de piada e perde o Torneio de vez. Voltando ao presente, apenas Scorpius retorna, pois a realidade foi alterada uma segunda vez.

Cedrico, nessa nova realidade, não morre. Mas por ter sido humilhado no Torneio Tribuxo, ele se torna Comensal da Morte e mata Neville na Batalha de Hogwarts. Por causa disso a Nagini não morre, nem Voldemort, que mata Harry e o mundo bruxo se torna o pior lugar possível.

A ideia de que as alterações do passado criem realidades alternativas funciona bem na peça. O que fica difícil de aceitar é o Cedrico, o galã-coração-de-ouro lufano se tornar um Comensal da Morte, e ainda matar um ex-colega de escola!

É compreensível que, por ser uma obra diferente do restante da saga, os personagens tenham aspectos e interpretações diferentes das dos outros livros. Mas o problema é que Cursed Child é, oficialmente, a continuação da história, o 8° livro da série. Por isso todos esses plot-twists soam falsos e forçados, como se fosse uma fan-fic má escrita (ou até um spin-off de Pretty Little Liars). O Cedrico Diggory que conhecemos nunca se tornaria um Comensal da Morte.

Scorpius, depois de entender o que causou tamanho desastre, consegue achar Snape – que ainda está vivo –  e convence-lo de que aquela realidade não precisa ser a única verdade. Aqui é outra cena bem problemática. É verdade que o canon, a J.K. Rowling e muitos dos fãs de Harry Potter, tratarem Snape como herói. Isso sempre me deu arrepios, porque por mais surpreendente o desfecho dele, Snape nunca foi uma boa pessoa. Ele sofreu bullying dos Marotos em Hogwarts? Sim, mas nada disso justifica o fato de que ele entrou para uma seita fascista e racista. Ok, ele deixou de ser Comensal da Morte para ser espião de Dumbledore, mas ele só saiu porque descobriu que Voldemort iria matar Lily, não porque ele discordasse do Lorde das Trevas. E falando na Lily, por favor, aquilo não era amor. Snape era abusivo, tanto como homem quanto como professor. Ele claramente favorecia os alunos da Sonserina e reprimia injustamente os grifinórios, em especial Harry, Hermione e Neville. Foi ele quem denunciou Lupin, fazendo com que ele pedisse demissão do talvez único emprego estável que ele teve. Snape não era legal, não era uma pessoa maneira. Toda vez que vejo uma referência àquela última fala: “always”, tenho arrepios. Isso não era amor, era relacionamento abusivo cilada.

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CRUZ CREDO

E é exatamente isso que ocorre com Snape em Cursed Child, mais uma vez esse personagem, que necessita urgentemente de desconstrução, é heroizado mais uma vez.

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Outra grande incongruência da peça, e que deixou quase todo o fandom bravo, foi o relacionamento entre Albus e Scorpius. Em muitas, muitas passagens do texto, vemos que os dois meninos se importam muito um com o outro. É em Albus que Scorpius pensa quando chegam os dementadores e ele tem de encontrar uma lembrança feliz, é por ele também que Scorpius desiste de ser “Scorpio King” da realidade alternativa para ter seu amigo de volta. Obviamente há uma tensão sexual sendo construída ao longo do texto. O que deixa seu final ainda mais problemático, pois nas últimas páginas, Scorpius lembra de que pertence a um universo heteronormativo e demonstra interesse amoroso em Rose, filha de Ron e Hermione, que mal aparece na peça.

J.K. Rowling nunca apresentou um personagem LGBTQA em Harry Potter. Apesar dela ter afirmado que Dumbledore era gay, nada disso foi escrito em seus livros. Cursed Child poderia ter sido um passo maior para a melhor representatividade na sua obra. Se Hermione é negra, porque não um casal gay? Ainda mais que, em muitos trechos do texto é possível interpretar o início de um romance entre os meninos. Lendo essa virada surpreendentemente heteronormativa, lembrei da minha reação lendo Grande Sertão: Veredas, quando Riobaldo descobre que Diadorim era mulher, o que de alguma forma justificaria o amor deles. Porém, Riobaldo se apaixonou por Diadorim como homem, não como mulher. E para mais uma referência pop de heteronormatividade, Li Shang se apaixonou por Mulan também como homem. Curioso, não?

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Scorbus ❤

 

E assim chegamos à terceira e última parte desse post:

3. Nonsense:

Muitas partes são completamente nonsense em Cursed Child. Sério. Tive que reler alguns trechos só pra ter certeza do que estava escrito, que não era invenção da minha cabeça. Lendo os spoilers antes de sair o livro, tive quase certeza que tudo aquilo era invenção de um cara que resolveu enganar meio mundo sobre a história da peça. Mas, infelizmente, era tudo verdade.

Logo no começo, temos uma cena memorável. Cês lembram da tia do carrinho de comidas? Tão adorável! Tão inofensiva! Sempre arrastando seu carrinho pelo trem e deixando crianças mais felizes com sapos de chocolate e tortinhas de abóbora! Pois então, esqueçam tudo isso e lembrem apenas disso:

Por anos e anos fomos enganados, achando que as tortinhas de abóbora era apenas tortinhas de abóbora! Agora sabemos que elas são, na verdade, GRANADAS! E suas mãos se transformam em ESPINHOS!

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NÃO, OBRIGADA!!!

E novamente Hogwarts ganha o prêmio de Lugar Mais Seguro do Mundo Bruxo™.

Aqui se encaixa também toda aquela história da Bellatrix ter um filho com Voldemort. Tem coisa mais nonsense do que imaginar o Lorde das Trevas, carne e osso e sem nariz transando? Acho que não.

Quem já leu Cursed Child sabe agora que Voldemort e Bellatrix tiveram uma filha, sabe que é melhor manter distância da tia do carrinho de comidas do Expresso de Hogwarts, sabe que Albus e Scorpius são melhores amigos para sempre, sabem que quem é órfão será órfão para sempre (ótima reflexão, Harry), sabe que retratos podem chorar, sabem até que Harry tem medo de pombos. Mas ainda não descobriram como Hermione, Ron, Gina e Draco conseguiram transfigurar o Harry em Voldemort para conseguirem distrair Delphi de seguir com seu plano e impedir que seu pai seja derrotado pelo bebê-Harry. Por sete livros e oito filmes vimos inúmeros bruxos e bruxas transfigurarem objetos em animais, ou em outros objetos; vimos bruxos e bruxas tomarem a poção polissuco e se transformarem em outras pessoas, mas nunca, nunca vimos bruxos e bruxas transfigurarem pessoas em Lorde das Trevas. Como isso aconteceu? Que feitiço utilizaram? Ou foi um encantamento? Não sabemos, mas que aconteceu, aconteceutumblr_mo7mebawbv1rqqwv3o4_250

 

Se quiserem continuar a reflexão sobre Cursed Child, alguns links legais:

What The Hell Is A Panju?”, uma análise bem bacana sobre racismo na obra de J.K. Rowling. Bem mais interessante e desenvolvida do que eu coloquei aqui.

18 ‘Cursed Child’ Moments Which Honestly Make No Sense“, esse post do Buzzfeed me representa 110%.

Harry Potter and the Sanctiones Follow-On Work (or, Fanfictions vs. the Patriarchy)“, outro texto bem maneiro sobre como classificar Cursed Child como fan-fic pode ser um engano.

Harry Potter and the Cursed Child’s Strangest Twist May Have Roots in History“, o texto mais ~diferentão~, que faz uma análise histórico-comparativa de Harry Potter com o III Reich, que talvez justificaria o plot-twist mais controverso.

Harry Potter and the Cursed Child’ includes plenty of fanfic tropes, but ignores queer representation“, mais um pouco sobre a falta de personagens LGBTQA em Harry Potter.

We Need To Talk About The Trolley Witch In ‘Harry Potter And The Cursed Child“, para quem, como eu, não superou a tia do carinho de comidas do Expresso de Hogwarts, um post obrigatório.

Shoebox Project“, pra quem quer ler uma ótima fan-fic de Harry Potter, essa é a melhor opção.

Por hoje é só, meus queridos,

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Terminei essa semana de ler Fangirl, um livro da autora Rainbow Rowell (o nome mais fofo para a escritora mais fofa de todas). Pra quem não sabe, o livro conta a história da Cath, que escreve fanfiction sobre personagens de uma famosa série de livros. A história começa quando ela e sua irmã gêmea, Wren, chegam na faculdade e têm que se separar pela primeira vez. Cath observa sua irmã se adaptando rapidamente ao novo ambiente, enquanto ela enfrenta algumas dificuldades.

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O livro, além de ser daqueles que se lê sorrindo de tão gostoso que é, fala sobre uma relação pouquíssimo explorada e muito menosprezada, vista como “mais uma bobeira adolescente™”: a relação entre a fã e seu ídolo/obra favorita, ou seja, o ser fangril.

Não preciso ir muito além para dizer que me identifiquei 100% com a protagonista do livro. Não porque eu também escrevo fanfics – porque eu nunca escrevi -,  mas porque eu também criei, ao longo da minha vida, várias relações com artistas/obras/personagens. E muitas vezes era difícil conciliar isso com outras partes da minha vida. Eu não vivia num mundo da fantasia, eu sempre vivi no mundo real, mas isso não quer dizer que eu apenas me relaciono com as pessoas ao meu redor, pois eu  também me relaciono  com os filmes que vejo, os livros que leio, as séries que eu assisto e por aí vai. Sempre foi assim.

Eu sei que eu não vou estudar em Hogwarts, ou ter um caso com o Capitão Rodrigo, ou beber vinho com o Bob Dylan (ok, esse último ainda pode acontecer) e isso não exclui a conexão que eu tenho com eles nem a importância que eles têm na minha vida. Ser fangirl é querer ir em todos os shows, ler todos os livros, assistir todos os filmes no dia da estréia, é passar horas e horas conversando e discutindo com as amigas sobre o mesmo assunto, é sofrer junto, é se identificar junto, é se entender junto. Ser fangirl é se projetar no outro, mas não em qualquer outro, num outro perfeito, que não tem os defeitos humanos, num outro ficcional, livre das falhas e erros que nós sempre estamos sujeitos.

Ser fangil é mais do que ser fã. É mais intenso. É ter naquela obra ou artista um refúgio, um conforto que sempre estará lá, não importa o tempo que passe. Ser fangirl  é criar um espaço só seu, um espaço seguro do mundo, um espaço criado com amor – porque sim, a relação o fã com seu artista/obra é uma relação de amor. Esse mundo criado pode existir apenas na imaginação da fangirl, mas não deixa de ser real (citando Dumbledore) e, diferente do mundo concreto, ele está imune à hostilidade, agressividade, ao ódio, é um lugar protegido de tudo aquilo que nos machuca.

E nada disso é bobo. Nada disso é besteira adolescente. Aliás, porque sempre consideramos a adolescência como uma coisa boba? É quando somos adolescentes que descobrimos quem somos, o que realmente gostamos; é quando começamos a conhecer um mundo fora da perspectiva dos nossos pais, é quando experimentamos um pouco de independência e responsabilidade, quando tentamos nos encaixar no mundo, por mais doloroso que seja. E é sempre doloroso. Ser adolescente é difícil. Machuca, dói. Nada disso é bobo, nada disso é ridículo.

Quando eu tinha 13 anos e ficava triste, eu me refugiava ouvindo Green Day. Aquilo era o meu lugar seguro.  Naquele momento o Billie Joe (o vocalista da banda) estava falando comigo, me ajudando a me sentir melhor, a me sentir compreendida. Acho que a coisa mais importante para um adolescente é a compreensão e a identificação. E nada mais natural do que procurar isso em algo platônico, pois assim a frustração é impossível. A minha relação com o Billie Joe era perfeita; eu o amava e ele me entendia. Era exatamente o que eu precisava.

E foi assim com Green Day, e antes com o Senhor dos Anéis, mais precisamente com o Elijah Wood – sim, era apaixonada pelo Frodo, não me julguem -, com Harry Potter e Bob Dylan ao longo de muitos anos (e até hoje) e mais recentemente com o One Direction, ou melhor, com Harry Styles. E esses são apenas alguns.

 

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como não se apaixonar por esse sorriso?

Sempre que volto pra Stars Hollow me sinto melhor. Ou quando tenho um dia ruim, nada melhor que ir para Pawnee. Quando acho que falta amor no mundo, nada melhor que Shoebox (ou qualquer outra fic de wolfstar). Esses lugares eu conheço, eu sei como funcionam, me sinto segura. É o completo oposto do “mundo real”. Não que eu queira substituir esses mundos, os dois são importantes. Não posso viver em um sem o outro, pois pertenço aos dois.

Quando mais nova, sonhava em andar por Nova York com Holden Caulfield, ou visitar a Suíça com Hans Castorp. Ser fangirl não se limita à cultura pop, pelo contrário. Ser fangirl não é perder tempo classificando a suposta qualidade de obras artísticas e ficcionais, até porque isso é besteira. Ser fangirl é amar algo, sem se importar se é real ou não, pois como o próprio Dumbledore disse e eu já citei; o que é real é bastante relativo.

Sempre amei intensamente livros, filmes, personagens, atores. Minha segunda paixão (a primeira foi o irmão mais velho da minha amiga) foi o Leonardo DiCaprio em Titanic. Eu fazia meus pais alugarem todo o final de semana, naquela época em que o DVD não existia e o filme vinha em duas VHS’s presas por um elástico. Eu lembro que ia pra escola com uma foto recortada de uma revista do Leo – e tudo isso com menos de 6 anos! Mesmo quando achava que passava dos limites e tentava me reprimir (uma grande bobagem, aliás) eu não conseguia! Era mais forte que eu. Com o tempo eu fui amadurecendo e aprendi a conciliar esses dois mundos, mas nunca deixarei de ser fangirl, pois faz parte de quem eu sou.

Um brinde à nós!

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Sirius Black, minha 4738743 paixão ❤ 

manifesto pela dobrinha no canto da página

Como uma boa estudante de Letras, eu amo livros.

Acho até meio cafona dizer isso, mas quando ainda estava na escola decidindo o que queria fazer a vida – e de faculdade -, um dos meus critérios foi: o que eu gosto de fazer? E a minha resposta foi bem óbvia (tão quanto a pergunta): ler! Tinha tudo para dar errado, mas acho que acabou dando meio certo, porque não me imagino fazendo outra faculdade senão Letras. Considero então um sucesso.

Mas não quero falar de faculdade (depois do quinto ano esse assunto vira um tabu), e sim do que me levou a esse martírio curso. Ou seja, quero falar sobre livros.

Gosto de ler desde que me entendo por gente, antes mesmo de me alfabetizar. Na verdade eu não sei direito quando eu comecei a ler, lembro e entender algumas coisas antes de ter alfabetização na escola. Ler e escrever eram definitivamente minhas duas coisas favoritas de fazer por toda minha infância. Eu até tinha o costume e ter sempre um caderno por perto em que anotava (sem saber escrever) o que estava acontecendo em casa.

O primeiro livro que li foi a Árvore Generosa. Meu pai tentou uma vez instituir uma “hora da leitura” em casa – como se já não gostássemos e ler – e me deu esse livro. Meio contrariada porque queria mesmo brincar, li o livro todo e acabei aos prantos. Pra quem não sabe [SPOILERS], o livro conta a história da relação de um menino com uma árvore, desde a infância até a velhice, quando depois de ter cortado a madeira para vender, o menino senta no que restou da árvore e é nessa imagem trágica que acaba o livro.

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Como uma menina sensível e amante da natureza, não tive outra reação senão chorar. A tentativa do meu pai de me fazer gostar de ler poderia ter saído pela culatra, mas o resultado final foi bem satisfatório. Eu acabei relendo o livro várias vezes e tendo a mesma reação, talvez eu gostasse mesmo de manifestações catárticas,  talvez eu só quisesse chorar, ou talvez eu realmente tivesse gostado muito do livro.

Um dia, arrumando a biblioteca de casa, dei de cara com a Árvore Generosa de novo. A capa, mesmo dura, está com uns amassados nas pontas e algumas páginas estão meio dobradas. Olhando para ele logo se pensa: um livro que foi lido.

Nunca me preocupei muito com a conservação dos meus livros, muito menos quando criança. Sempre gostei de reler muitas vezes os livros que gostava, tem alguns até que perderam a capa de tanto que eu dobrei. Tenho alguns amigos que ficariam indignados com isso, mas a verdade é que prefiro muito mais um livro amassado e lido na minha mesinha de cabeceira do que um livro novinho e intocável lá longe na estante.

Nunca perdi tempo preocupada com a minha relação com os livros até que descobri que tinha algumas amigas que nunca tinham lido Harry Potter. 

Quase não acreditei, Harry Potter está presente na minha vida desde meus seis anos, quando li o primeiro livro. Desde então, li e reli a séria incontáveis vezes (a última, por exemplo, terminou algumas semanas atrás). Não tive outra reação senão emprestar meus livros para elas, até porque ser uma milenniall sem ter lido Harry Potter é uma falha e caráter.

Eu nunca tive problemas para emprestar livros, pelo contrário, eu adoro. Quando eu termino um livro que gostei, gosto de compartilhar a experiência. Acho o ato de emprestar/dar livros tão bonito, porque eles são mais que objetos, são outros mundos, outras vivências que podemos experimentar por algum tempo. Como no livro Fahrenheit 451 (eu não li o livro, mas vi o filme) em que os livros são proibidos e há uma comunidade transgressora que, para não perder o conteúdo dos livros, cada pessoa se ocupa de um livro, decorando-o até incorporar toda a história. Os book people são mais que indivíduos, eles se tornam livros ambulantes. Quando vi o filme, fiquei encantada com isso, pois é a metáfora perfeita; quando leio um livro que gosto, me torno mais do que era antes e emprestar um livro é compartilhar essa experiência .

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Fahrenheit 451

Num mundo onde os livros são proibidos, para compartilhar aquela história maneira com o seu amigo é preciso decorar todo o texto ilegalmente e recitá-lo. Mas no nosso mundo, é bem mais simples, é só emprestar o livro. E foi o que eu fiz com Harry Potter.

Quando fui pegar os Harry Potter’s da estante, reparei o estado deles. Todos estavam meio amassados, as páginas rabiscadas e dobradas, alguns até têm fitas adesivas segurando a capa. Mas é claro, são livros que foram lidos e relidos e trelidos muitas vezes durante muitos anos! É assim que gosto dos meus livros: com cara de lidos.

 

Logo quando entrei na Letras, percebi que a minha relação com livros não era unânime. Muitos dos meus colegas tratam seus livros como se fossem de porcelana, levam elas dentro de saquinhos na bolsa e leem sem abrir totalmente para não amassar a lombada. Eu até comecei a me sentir mal comparando os meus livros todos amassados e com as pontas dobradas com cópias que pareciam ter acabado de sair da livraria. Será que tinha passado toda a minha vida cuidando mal dos meus livros?

Ainda no primeiro ano da faculdade, numa aula de Literatura Brasileira sobre Manuel Bandeira,a professora contou uma anedota de quando ela estava no mestrado e participava de um grupo de estudos na casa do Mindlin (aquele bibliófilo que doou sua biblioteca para a USP, que fez um prédio novo para abrigá-la). Ela tinha estacionado o carro bem na frente da casa, mas quando ia embora, viu que seu carro, e todas suas anotações da dissertação de mestrado, não estavam lá. Ela tinha sido roubada. Para tentar compensar a perda, o Mindlin deu para ela uma primeira edição de um livro de poesias do Bandeira, tema da sua pesquisa. Os alunos amaram a história até quando a professora, toda sorridente, falou que o livro que ela havia ganhado era o que ela estava segurando, dobrado no meio, sem nenhuma proteção. A classe toda vacilou assustada num grito silencioso. Na saída da sala todos estavam comentando que a professora devia ser louca para sair de casa com aquele livro que deveria estar guardado com toda a proteção possível. Eu fiquei mais surpresa com a reação dos alunos do que com a atitude da professora. Ué, livros são para ler, ou não?

Sempre me irritei com a fetichização do livro, que no Brasil fica ainda pior, porque com o alto preço o livro vira quase um artigo de luxo. Eu realmente não sei como alguém pode se concentrar no que está lendo com toda a preocupação de não amassar o livro. Muitas das vezes eu nem me dou conta do “estrago” que fiz até terminar de ler.

Uma das coisas que mais gosto de fazer com um livro novo é abrir até dobrar a lombada, para ficar mais confortável de ler. Quando disse isso casualmente numa roda entre amigos fui fortemente rechaçada. Dobro sem culpa a folha para marcar a página quando estou sem marcador e já deixei muitas vezes respingar café nas páginas. Rabisco sem dó, odeio post-its nos livros, ficam sempre caindo. Quando releio um livro e vejo uma anotação, um respingo ou uma dobrinha no canto da página, gosto de pensar que são marcas das minhas outras leituras, são mensagens que mandei para o futuro através do livro e quando as vejo, posso voltar no tempo e lembrar e como era quando li aquele livro pela primeira vez. Se meu livro estivesse intacto, como novo, a experiência não seria a mesma. Sem as minhas marcas, o livro parece que ainda não foi lido, ainda não tem uma história.

Termino o post com um apelo: parem de censurar marcas nos livros! Elas fazem parte da experiência a leitura! Não somos monstros!

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ATENÇÃO AOS NAVEGANTES: O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS!

Mas podem respirar tranquilos, porque não são spoilers de Game of Thrones, ou de The Cursed Child. São spoilers de um filme de 1957 chamado Testemunha de Acusação (“Witness of Prosecution”). Eu tentei escrever sem os spoilers, mas pelo bem da argumentação, não tive como deixar de lado todo o enredo do filme. Desculpe, família, eu falhei.

Ontem eu vi Testemunha de Acusação com a minha mãe. Estávamos procurando um filme na netflix e aí, quando passamos por esse e minha mãe decidiu: “É esse!”. Ela já tinha visto várias e várias vezes e amado muito  e eu já tinha colocado na minha lista para ver qualquer dia, então parecia a escolha perfeita. O filme é do diretor Billy Wilder, o que me animou mais, porque eu acho ele ótimo, e nunca vi um filme dele que não gostei.

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Pra quem não sabe, o filme tem a maravilhosa Marlene Dietrich, que faz a esposa de um recém réu acusado por homicídio. O filme começa com o advogado (Charles Laughton) Wilfred Robarts, que acabou de se recuperar de um infarto. Chega até ele um amigo, também advogado, pedindo que assuma o caso de Leonard Vole (Tyrone Power), o marido de Christine Vole (Dietrich). Leonard parece ser bem ingênuo quando conta o seu lado da história; de como conheceu, por acaso, uma rica viúva, e de como eles ficaram amigos até que, numa noite, após ele ter saído da casa dela em direção à sua, a viúva fora assassinada e que ele, Leonard, se tornou o principal suspeito. Wilfred, conhecido por defender casos considerados impossíveis, logo se interessa por esse; ainda mais quando conhece a esposa do acusado, Christine Vole, que não parece muito apaixonada pelo seu marido tanto quanto ele deixou a entender. Wilfred deixa claro que somente ela pode confirmar o álibi do marido e que o juri normalmente não considera como importante o depoimento de uma esposa dedicada, mas Cristine parece o oposto de dedicada e consegue fazer os advogados duvidarem da inocência de seu marido.

Wilfred, quase mais intrigado com a esposa misteriosa do que com seu cliente, questiona Leonard sobre  como ele conheceu Christine. A história é contada toda em flashback, assim podemos ver como Cristine, uma alemã que tenta sobreviver no pós-guerra se apresentando num bar para uma centena de soldados americanos, encontra seu futuro marido, também soldado americano. No meio da apresentação, Christine, que está cantando e tocando acordeão e vestida toda de preto – calça e camiseta – começa a ser assediada pelos soldados, que pedem para ver mais de seu corpo. Começa aí uma cena bem desconfortável de se ver: a centena de soldados vão para cima de Christine e o resto da banda – e Leonard – ficam de fora, apenas observando. O barulho chama atenção da polícia, que esvazia o local. Leonard retorna e encontra Christine abaixada, tentando arrumar a bagunça do bar, com suas roupas rasgadas e cabelos bagunçados. A cena é obviamente suavizada, mas fica claro que Christine acabou de ser abusada. Leonard tenta consolá-la dizendo que a culpa foi dela mesmo, que iludiu os soldados com o cartaz de seu show – uma mulher num maiô dançando – e quebrou a expectativa deles se apresentando de calças compridas.

Essa cena me incomodou bastante, ainda mais porque conta a história de como Christine e Leonard se apaixonam um pelo outro, o que fica meio forçado, já que não acredito que uma mulher que acabou de ser abusada coletivamente possa ter um encontro romântico e ficar tudo bem com isso. Mas ok, é um filme. Eu comentei com a minha mãe sobre meu desconforto e ela me disse que se eu não tinha gostado dessa parte, ia detestar o final.

O julgamento começa e, para surpresa de todos, Christine é chamada como testemunha da acusação. Seu depoimento é bastante polêmico, pois ela não confirma o álibi de seu marido, pelo contrário, reafirma a acusação de homicídio. A reação do público e júri é bastante surpreendente, pois ninguém fica bravo com o marido, que está sendo julgado por homicídio, mas todos deixam clara a imensa antipatia pela mulher.

Com o caso quase perdido, Wilfred recebe uma ligação misteriosa de uma mulher que pode ter provas de que Christine estava mentindo. Eles marcam um encontro e ela vende ao advogado cartas de Christine para o seu suposto amante contando como ela planejava mentir no tribunal para acusar seu marido e se ver livre de um casamento infeliz. Quando essas provas são apresentadas, o júri não tem mais dúvidas e Leonard é inocentado. Aí que vem a grande reviravolta: após o término do julgamento, Christine e Wilfrid conversam e ela confessa que foi tudo uma armação. Após ele ter falado para ela, no primeiro encontro deles, que o júri nunca iria acreditar no depoimento de uma esposa dedicada, ela decidiu fazer o contrário; dizer que Leonard era mesmo culpado e depois fingir um adultério para que seu depoimento fosse descreditado e seu marido inocentado. Leonard realmente matou a velha viúva pela sua herança e os dois criaram juntos um plano para inocentá-lo no tribunal. Acontece que, ao contrario de que Christine pensava, Leonard tinha uma amante e após ser inocentado, planejava uma viajar com ela e abandonar sua esposa. No meio da revelação, Christine pega uma faca e mata seu marido e depois é levada presa por policiais. No meio dessa confusão, Wilfred decide adiar suas férias e assumir outro caso, a defesa de Cristine.

Quando o filme acabou, perguntei pra minha mãe por que ela achava que eu não iria gostar do final (na real eu tinha gostado bastante) e ela me disse: “porque a Cristine era, na verdade, a malvada”. Mas não, ela não era a malvada. Pelo contrário, a maior vítima da história era ela. Vítima por ser mulher e estar sozinha num país devastado pela guerra, vítima por ter que se submeter a abusos e assédios para sobreviver, vítima por ter que se envolver com um homem e casar com ele para conseguir sair do país, vítima por ser enganada e usada pelo mesmo homem e vítima por apenas ser mulher numa sociedade de homens.

Não quero aqui dizer que devemos parar de assistir filmes velhos. Pelo contrário! Eu adoro filmes velhos e acho que devemos continuar assistindo. Quanto mais filmes melhor! Mas eu odeio esse papo que só porque tal coisa é antiga devemos desconsiderar a problematização. Discordo completamente, até porque de que vale a problematização se ela for parcial? Odeio também esse tom acusatório que muita gente assume quando algum filme/obra/artista é problematizado, como se discutir sobre algo desmerecesse seu valor artístico. E na real, e se desmerecer? Eu, por exemplo, tenho a maior preguiça do mundo pra ler Nabokov. Ele pode ter sido um grande escritor, mas a história de Lolita me faz ter náuseas só de pensar. Pode ser uma grande obra da literatura mundial, mas eu não quero ler, estou perdendo tanta coisa assim? Afinal, tem vários outros grandes escritores por aí e eu não sou nem um pouco obrigada a ler todos.

Mas não é essa a questão. Voltemos ao filme.

A cena do abuso colocada em Testemunha de Acusação, por exemplo, só reafirma que nossa sociedade está imersa na cultura do estupro. Porque, afinal, uma mulher sozinha que se apresenta num bar cheio de soldados tem que saber o que a espera. E isso é reafirmado pela fala de seu futuro marido, que confirma sua “culpa” diante do acontecido. E aqui a desculpa que o filme é velho nem cola, por que isso acontece, infelizmente, até hoje, e com bastante frequência. Logo depois da cena, eu comentei com a minha mãe: “caraca, em que mundo uma mulher que acabou de ser estuprada convida um homem pro seu quarto?”. No mundo de ficção talvez? Ou num mundo que considera normal esse tipo de abuso? É claro não era a intenção do filme mostrar os sofrimentos de uma mulher, não era esse o ponto. A cena não foi feita para incomodar, e sim para dar o tom do romance, afinal, Leonard salvou Christine quando se casou com ela, levando-a da Alemanha derrotada para os Estados Unidos.

Mas eu me incomodei com a cena. Assim como me incomoda ver cenas de estupro ficcionais, e assim como e incomoda ver violência contra mulheres em filmes, novelas, séries, etc. Me incomoda porque a violência é real. E quando ela vai para ficção, não aparece em tom de denúncia, mas muitas vezes é romantizada, ou usadas para justificar as atitudes de personagens, ou reviravoltas do enredo.

O meu incômodo com a cena me fez pensar também que talvez eu não me incomodasse tanto uns anos atrás. E isso é óbvio, porque mudamos com o tempo. As sociedades mudam com o tempo. Os paradigmas mudam com o tempo. Tudo muda com o tempo. Então porque não podemos desconstruir e problematizar representações artísticas? A obra de arte é tão frágil que pode ser deslegitimada só pelo olhar crítico? Eu acho que não.

Ao contrário do que minha mãe achou, eu gostei bastante do filme. Os diálogos são ótimos, as reviravoltas realmente me surpreenderam, o trabalho dos atores é incrível e Marlene Dietrich é realmente muito maravilhosa. O fato de que eu me incomodei com várias coisas no filme não quer dizer que eu não tenha achado bom. Até porque, uma boa obra de arte só aumenta seu valor quando é discutida, problematizada, analisada criticamente.

Eu quero poder falar abertamente sobre cinema, sobre literatura, sobre arte. Detesto essa visão de que o artista é sagrado e que ele está acima de julgamentos. Eu quero poder falar livremente que me incomoda ver um filme do Woody Allen hoje, por mais que eu goste muito da sua obra, sem que alguém me diga que eu tenho que separar o artista da sua obra. Será mesmo que temos que separar? Eu continuo gostando muito dos filmes do Woody Allen. Annie Hall sem dúvidas é um dos meus filmes favoritos, mas me incomoda ir ao cinema e ver um filme dele, e cada vez eu tenho mais certeza que precisamos falar sobre isso. É ok continuar consumindo obras de estupradores? Polanski até hoje é proibido de voltar para os Estados Unidos e, mesmo sendo culpado de abuso sexual, continua sendo um cineasta renomado. Isso é ok? Um artista está acima da lei?

Ver Testemunha de Acusação me fez perceber que precisamos urgentemente discutir sobre isso, até porque essa também é uma das funções da obra de arte: incitar discussões, argumentos, quebrar paradigmas, e não ser algo estático, sagrado e acima de problematizações. E afinal, estamos em 2016, século XXI, precisamos perceber que as coisas mudam, até (surpreendentemente) na arte.

PS: peço perdão pelo trocadilho horrível do título. Quebrei minha cabeça pra pensar um título melhor e não consegui. Novamente, desculpe, família, falhei.

sobre família, identidade, referências e etc.

Na minha casa sempre foi eu, minha mãe, meu pai, minha irmã mais velha e meu irmão mais novo. Essa é a minha família. Minhas referências vieram quase todas daí. Assim que aprendi a lidar com as pessoas; vendo como se davam as relações na minha casa, entre meus pais e meus irmãos, as brigas, os momentos de grude, as mudanças de humor, as crises, as fases boas e as fazes más, enfim, tudo o que a família oferece.

Crescendo, tive amigos com outros tipos de família. Mas o que mais me chamava a atenção eram aqueles que vinham de família grande, que tinham vó, tios e muitos primos dentro da mesma casa, convivendo cotidianamente. Eu também venho de uma família grande. Só do lado da minha mãe, por exemplo, tenho cinco tias, um tio e não-sei-quantos primos espalhados por aí. Mas ao contrário de alguns amigos que tive, nunca convivi com eles, não no dia a  dia, pelo menos. Me acostumei a ver minha “família estendida” uma vez por ano, geralmente na época do natal (ou às vezes nem isso).

Meus pais saíram de casa muito cedo. Os dois são cariocas, mas vieram pra São Paulo há mais de vinte anos. Eles não vieram juntos, mas ambos decidiram formar aqui sua família (eu pessoalmente acho essa história bem bonita, mas minha opinião nesse caso é bem parcial). Por um lado, eles deixaram para trás todo um suporte familiar já existente, mas por outro, tiveram a chance de começar do zero, sem suas antigas referências, o que é bem corajoso. E assim eles fizeram. E acho até que fizeram bem, porque somos todos meio grudados e auto-suficientes, só nós nos bastamos.

Mas sempre que vamos ao Rio visitar a família, ou alguém vem pra cá e fica hospedado em casa, parece que todos aqueles anos e toda a distância não existiram. É claro que não conheço tão bem minhas tias como conheço minha mãe, ou meus primos como conheço meus irmãos, e vice e versa. Eu costumo brincar com a minha mãe que ela é igual à suas irmãs, principalmente quando elas vêm pra cá. Ela odeia a comparação, mas é a pura verdade. Por mais ~diferentões~ que meus pais queiram ser do resto de suas famílias, e por maior a distância entre nós e eles, sempre vai ter algo que conecta, que nos liga, que nos une. É inevitável.

Um dia, minha mãe achou uma foto dela e de suas irmãs bem novinhas, uma foto que eu nunca tinha visto antes. Quando olhei para a minha mãe ali, quase trinta anos mais nova, eu tomei um susto. Ela estava vestindo um vestido branco de linho quase igual ao que tinha acabado de comprar. Aconteceu a mesma coisa quando cortei meu cabelo curtinho, anos atrás, quando minha mãe me viu, ela tomou um susto e disse que eu parecia demais com ela. Tudo isso totalmente não intencional.

Adoro histórias de família. Entre meus livros preferidos estão “Cem Anos de Solidão”, “O Tempo e o Vento” e “Pais e Filhos” que são, antes de tudo, histórias de família. Amo o desenrolar dos relacionamentos familiares, filhos que crescem, vão embora e depois voltam, irmãos que se reencontram, histórias que se repetem entre as gerações, semelhanças bizarras entre uma pessoa e sua tataravó, órfãos que encontram suas origens, maldições de famílias, etc. Deve se por isso que ando tão viciada em “Keeping Up With The Kardashians”.

Mesmo longe do restante da minha família, eu sei que há outras pessoas parecidas comigo, pessoas que compartilham dos mesmos genes que eu (sim, eu acredito em memória genética), que compartilham da mesma história. Nossa conexão sempre vai existir, mesmo que paremos de nos ver, pois ela é mais forte que a convivência, e isso é uma das coisas mais bonitas nas famílias.

E isso nem tem tanto a ver com genética assim. É claro que os genes influenciam bastante, já que eles definem características tanto externas quanto internas, e até doenças! Mas o elo familiar é bem mais que isso, porque família não é só aquela galera que compartilha o mesmo sobrenome, mas sim as pessoas que escolhemos para compartilhar nossas vidas. E para isso não é preciso estar presente o tempo todo, nem ver a pessoa todos os dias.

Quando meu avô morreu, eu fiquei bem triste. Eu só o via poucas vezes no ano, mas sempre que nos encontrávamos, ele fazia o máximo para me conhecer e me agradar. Ele sempre nos levava no shopping e comprava qualquer coisa que quiséssemos e sempre que ia na casa dele, saía de lá carregando um caderno novo e pacotes de chocolate. E foi assim todos os anos até ele morrer. Por mais que ele quisesse me conhecer, eu nunca senti que conhecia ele. Eu sabia de histórias, mas nunca era ele que as contava. O tempo que passávamos juntos era agradável, mas nunca achei que precisasse fazer perguntas, ter interesse na vida dele, conhecer ele, assim como se faz quando se conhece gente nova.  Eu fiquei triste quando ele morreu não só porque ele era meu avô e eu o amava, mas também porque eu tinha perdido a chance de conhecê-lo. Com o tempo, fui descobrindo coisas novas sobre ele; das coisas que ele gostava, dos livros que ele lia, dos filmes que ele via,  e parecia que assim estava sabendo melhor como ele era. Hoje, às vezes me pego pensando no que meu vô diria sobre alguma situação, notícia, filme no cinema, e assim é a nossa relação. Mesmo não estando mais presente, nós continuamos compartilhando momentos juntos.

Voltando às Kardashians, mesmo com todas as polêmicas, o que as fez tão famosas foi um reality-show sobre a vida delas, sobre família. E como famílias podem ser interessantes! Nos episódios, entre uma briguinha e outra, vemos elas se esforçando para ver todos bem, incluindo os agregados e ex-maridos nos jantares de família, visitando uns aos outros, fazendo companhia em consultas médicas e tratamentos estéticos e por aí vai. O que se sobressai é o amor de família e o suporte que elas dão aos outros. É meio maluco que isso seja um programa de tevê e que elas ganhem muito dinheiro se expondo assim, porque o que é vendido é a vida em família, que já temos de graça, mas isso já é outro papo.

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senhoras e senhores, apresento-lhes a zoeira

Sempre fui bem humorada. Meus pais até dizem que nasci sorrindo uma mentira que força a barra mas eu gosto de acreditar. Mas meu humor tem suas peculiaridades, não é qualquer coisa que me faz rir e eu também não consigo unanimidade no quesito piada. Eu sou muito irônica, o que muitas vezes faz com que as pessoas não entendam muito bem o que eu estou falando, me obrigando a cometer o crime de explicar a piada.

Como já disse no post anterior, percebi é besteira ficar julgando a cultura pop com os parâmetros do que é “erudito”. E como sempre tento conseguir o melhor dos dois mundos, o meu sonho de vida é estudar seriamente a zoeira; seja na literatura (já que faço letras, né), ou em qualquer outra área do conhecimento. Tenho até um rascunho de estudo mais ou menos preparado sobre o quão zoeira é a literatura russa. Sempre vez que falo que estudo literatura e cultura russa na faculdade a galera toda acha que sou super séria, profunda e filosófica, só porque os autores russos ficaram com essa fama, mas é tudo mentira (ok, nem tudo, peço perdão aos meus professores da facool). A verdade é que, assim como eu, muito da literatura russa (aka: o que eu mais gosto) tem muita ironia, o que já é o primeiro passo para a zoeira.

Aqui nesse post vou tentar fazer um manifesto da zoeira, porque se tem alguém que lê o meu blógue e não acha a zoeira de extrema importância na vida de um ser humano, migue, me desculpe, mas pfvr melhore.

Já que o assunto é humor, é sempre bom lembrar daquelas piadas ofensivas, daqueles youtubers e apresentadores ~polêmicos~ que de tempos em tempos são processados e respondem dizendo que o humor não pode ter limites e que se deve fazer piada de tudo. Eu não concordo, mas não literalmente. O meu ponto é que; para mim, o humor não pode ser ofensivo. Se ofende alguém, não é piada e não tem que ter graça, simples assim. Por isso que uma das minhas séries preferidas é Parks and Recreation, que é a série mais amorzinho-abraço no coração-chocolate quente no frio-bolo de fubá de todos os tempos. Parks and Rec  não precisa de nenhuma piada machista/racista/etc pra fazer rir, e olha que eu sempre gargalho alto quando assisto.

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parks and rec me deixa assim: felizona.

 

Como muitos da minha geração, um dos meus lugares favoritos é a internet. É lá que eu tenho acesso ao crème de la crème da zoeira. É por isso que segui os conselhos de uma grande amiga minha e fiz uma conta no Twitter em pleno 2015 (atrasadona, eu sei), porque segundo ela, a zoeira chega primeiro lá. No fascinante reino do cyberespaço, as piadas rolam sem parar, ainda mais nos tempos sombrios em que estamos vivendo, a internet se torna um refúgio, um suspiro de alívio, uma motivação para seguir vivendo. E nesse assunto, nós brasileiros somos privilegiados, porque a internet e a zoeira brasileira são as melhores do mundo. Mas a zoeira brasileira vai muito além da internet. Deve ser alguma coisa na água do Brasil, porque as coisas aqui funcionam diferente. Por exemplo, cês lembram, lá nos anos 80, do verão da lata? Em qual outro lugar do mundo um navio iria naufragar fazendo com que toneladas de maconha chegassem na costa? É tão surreal que tem gente que acha que é tudo lenda urbana. Ou um outro exemplo recente: o “japonês da federal”, aquele que prendia todos os acusados pela Lava Jato, foi preso também, o que rendeu essa imagem maravilhosa:

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Japonês da federal sendo preso pelo japonês da federal: não, não é inception, é Brasil.

Continuando no Brasil, toda a crise política está sendo registrada através das lentes da zoeira. Afinal, de que outra forma iríamos sobreviver à posse do Temer se não fosse a semelhança dele com Voldemort? Ou a confirmação de que ele é Mefisto carne, osso e bruxaria com aquela mudança de voz bizarra no seu discurso?

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Voltando ao universo de Harry Potter, recomendo acompanharem os acontecimentos da política brasileira através da página Hogwats vai virar Cuba. É de lá que retiro grande parte do meu acervo de memes favoritos.

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E se for da USP e quiser continuar no universo do Harry Potter, tem também a página Universidade de Magia e Bruxaria de São Paulo.

(ia pedir perdão àqueles que não gostam pelas várias referências à Harry Potter, mas a real é que se você não gosta de Harry Potter, boa pessoa não é. brinks).

Acho que o melhor da zoeira do Brasil é que ela é 99% baseada em fatos reais. Aqui acontecem as coisas mais bizarras do mundo, talvez só perca para a Rússia. Por isso que custo a acreditar que a Dona Cecilia não seja brasileira, pois ela já tem o espírito do nosso país. Cês lembram dela e da maravilhosa restauração que ela fez?

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uma obra prima! picasso who?

Ainda no mundo ~das artes~, temos o nosso representante-mor das Artes Plásticas, sucesso de vendas em Miami, criador de imagens que vão com tudo: móveis, capas de caderno, estampa de roupas e sapatos e até quadros! Quem é esse gênio? Ele mesmo, Romero Britto! Quando falo dele as pessoas já começam a rir, mas olha, tem que ser muito inteligente e mestre da zoeira para criar um padrão de cores, repeti-lo nos mais diversos formatos, imagens e objetos e ficar muito rico fazendo isso. Depois do meu estudo sobre a zoeira na literatura russa vou fazer a academia brasileira aceitar um trabalho sobre Romero Britto. #lifegoals.

E quando o melhor pintor do Brasil se encontra com o melhor escritor, eles fazem o que? História:

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encontro de titãs.

Se for pesquisar mais a fundo pela internet, se encontra a deep web teorias da conspiração. Mas não aquelas chatas de ETs, Roswell, se foram os EUA que atacaram o World Trade Center, Paul McCartney morreu, etc. As teorias da conspiração boas são aquelas mais inesperadas e mirabolantes! Que ETs podem ser realidade todo mundo já cansou de ouvir, já teve até Linha Direta sobre isso (cês lembram do Linha Direta? Me dá logo um frio na espinha só de lembrar da música de entrada).

Um bom exemplo de teoria da conspiração zoeira é o  Avril Lavigne está morta. Mais uma vez os brasileiros ficam à frente do resto do mundo no quesito zoeira, já que o site dedicado à essa teoria é todo feito por nossos conterrâneos. Ainda dentro do fandom, tem a maravilhosa teoria de que o bebê do Louis Tomlinson, integrante do One Direction, é de mentira (quero deixar aqui registrado o meu imenso respeito pelas fãs do One Direction. Elas são maravilhosas). Boatos dizem que quem começou essa ideia foram as fãs que shippam o Louis com o Harry Styles. A invenção do bebê serviria  para encobrir o romance dos dois (!!!). Fala sério, palmas para essa fãs! Pessoas que criam esse tipo de coisa podem conquistar tudo o que quiserem na vida!

Acho que já deixei bem claro o espaço que a zoeira ocupa na minha vida, que é bem grande. Seja quando era criança e enganava minha irmã mais velha dizendo que ela foi encontrada no lixo, ou agora, já meio adulta e tendo papos sérios com as migas sobre bebês falsos e pixações toscas nas portas dos banheiros da faculdade. A zoeira é muito importante. É pela zoeira que grandes artistas quebraram os paradigmas anteriores e se tornaram de vanguarda. Ou cês acham que Michel Duchamp colocou um vaso sanitário no museu para ser levado à sério? Esse sim é o rei da zoeira! Os impressionistas também foram bem zoeiros quando inventaram o Salão dos Recusados para exporem suas obras. E nem vamos começar a falar das vanguardas russas, porque esses russos sim eram bem zoeiros!

Para encerrar, vou deixar aqui alguns links ótimos para não deixar a zoeira acabar, porque, como sabemos, zoeira has no end.

Deixo vocês com uma última zoeira, ela teve seu fim no começo do ano, mas nos marcou profundamente na memória: Leo ganhando o Oscar com o apoio de seu melhor migo:

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cult versus pop

Eu fui uma adolescente bem chata. Daquelas que levava livro para escola e ia ver filmes “cult” na Reserva Cultural. Não me levem a mal, eu amo ler e ainda frequento a Reserva Cultural – apesar de achar caro e preferir o Belas Artes –, não é esse o ponto. Eu era chata não porque eu gostava dessas coisas, mas porque eu achava que eu deveria ser a mais culta e inteligente, que meus gostos e preferências deviam ser sempre muito refinados. Adorava quando pessoas me diziam: “mas você não é muito jovem pra ler esse livro? ”, ou quando ficavam surpresas quando falava que escolhia os filmes pelo diretor (isso aconteceu de fato numa aula de inglês da oitava série. A professora ficou com uma cara de bunda e soltou um “sorry” meio irônico. Na hora não percebi, mas hoje vejo que era pedante pacas).

 

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foi mal pelo pedantismo, galera

Lá pelos meus 12 e até mais ou menos 15 anos, eu só ouvia punk-rock. Quer dizer, isso era o que eu gostava de afirmar, mas a real é que eu era a maior fã de Green Day que existia, e para combater aqueles que amavam me chamar de emo, eu dizia que gostava mais do começo da carreira deles, quando eles ainda não usavam lápis de olho e cantavam baladas melosas. A verdade verdadeira é que eu amava a carreira toda deles, mas não era emo de jeito nenhum! Imagine!

Para ~abrir meus horizontes~, comecei a ouvir outras coisas além de só Green Day. Fui pesquisar suas influências e acabei achando coisas muito legais. Amo até hoje o The Clash, por exemplo, e amei mais ainda sair por aí com uma camiseta deles e deixar adultos impressionados porque uma menina de 14 anos era fã de punk-rock.

Foi mais ou menos nessa época que comecei a curtir muito cinema. Acho que foi com uns 13 anos que vi Bananas do Woody Allen por acidente na tevê e fiquei encantada. Minha mãe se animou com meu interesse e me deu um “pequeno curso de cinema”, me apresentando Bergman, Fellini, Carlos Saura, Almodóvar, e por aí vai. Agora, imaginem isso: se eu já gostava de ser “aquela menina que tem gostos estranhos para idade dela”, a coisa só piorou quando meu eu de 15 anos espalhava por meio mundo que seu cineasta favorito era o Bergman!

Um tempo atrás eu vi esse tweet:

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desculpa, gente. juro que no fundo eu era legal

Nem posso explica o quanto me identifiquei com ele! Talvez eu mudasse para “se você me conheceu entre 2006-2013 me desculpa”.

Agora volto na questão: não vejo problema em gostar de ter Bergman como cineasta favorito com 15 anos, ou de ler “Crime e Castigo” com 14. Eu hoje ainda amo Bergman e Dostoiévski, talvez até mais do que antes. O problema era que eu achava que gostar dessas coisas e ser ~cult~ me impedia de curtir outras, de me identificar com a cultura pop também; de ler “Crepúsculo” (mesmo achando bem mal escrito) e ver “High School Musical” e “Camp Rock” – e gostar – sem culpa. Mesmo na minha fase punk-rock (que, na real, era bem emo mesmo, sorry), eu assistia MTV freneticamente e gostava escondido de My Chemical Romance e Panic! At the Disco.

No meu primeiro dia de aula do Ensino Médio eu tinha acabado de mudar de escola e não conhecia ninguém, só meu pai que era o professor de artes. Eu queria chegar e dar uma boa impressão logo de cara, então resolvi que no intervalo em vez de socializar com a galera, eu iria ficar lendo “Suave é a Noite” do Fitzgerald. Missão cumprida, 5 minutos depois eu era a ~intelectual~ da sala.  Pedante demais?

O que diria meu eu de 15 anos que ouvia só Beatles e Bob Dylan e via apenas filmes considerados “cabeça” para o meu eu de agora, de 22 anos, que está atualmente relendo “Harry Potter” (desde o início) e ouvindo One Direction sem parar? Não que eu não goste mais de Bob Dylan, pelo contrário, ainda amo de paixão, mas hoje eu sei que gostar de cultura pop, ouvir boybands e ver blockbusters, não deixa as pessoas menos inteligentes e interessantes. E, aliás, pensar assim é uma tremenda bobagem! Eu sempre gostei dos filmes da Disney, de ver novela com a minha mãe, de ler romances açucarados de amores impossíveis, mas eu tentava esconder, tinha vergonha. Outro dia, ouvindo minha playlist no aleatório, logo depois de tocar “AM” do último álbum do One Direction, tocou outra música que eu amo, “Beco do Mota” do Milton Nascimento. E olha só, funcionou!

Falando com uma amiga outro dia, eu brinquei dizendo que depois que eu vi “Gossip Girl” a minha vida mudou. Ela riu, mas eu sabia que era a mais pura verdade. Eu assisti a série durante uma greve da faculdade em 2014 e achei que era maravilhosa. Fiquei me perguntando: por que diabos eu não tinha visto antes?!? Depois daí a minha vida realmente mudou, porque eu achei a série tão incrível que precisava conversar sobre, e aí eu vi que todas as minhas amigas da faculdade tinham visto e que podíamos compartilhar nossas impressões. E discutir as personagens, os dramas, os plot-twists malucos, a quase doentia quantidade de waffles desperdiçados, era fantástico! Por que eu iria ficar com vergonha de fazer parte de uma coisa tão legal?

De uns tempos pra cá eu comecei a ter aversão a tudo que é “cult”. Se vejo uma resenha sobre um filme “cult”, já perco a vontade de ver. O que pode ser uma estratégia de marketing, para mim faz o efeito contrário. Eu gosto mesmo é de ir no cinema e ver filmes, seja o documentário sobre a Marina Abramovic ou o novo X-Men. Eu gosto de ler livros, seja “O Grande Sertão: Veredas” ou “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (o meu favorito da série!). Umas semanas atrás passei grande parte do meu tempo pensando em como estaria o novo cabelo do Harry Styles e eu digo com firmeza que não foi tempo desperdiçado.

Eu não me acho melhor ou pior que ninguém por gostar das coisas que gosto, até porque gosto não é mérito. O que posso afirmar com certeza é que hoje eu sou muito mais sincera comigo mesma, o que já é bem maneiro.

 

sobre leituras e reflexões

Nesses últimos dias andei lendo bastante.

Li vários textos sobre meu projeto de iniciação científica, em que vou tentar relacionar o Brasil dos anos 60 com a URSS; então tenho lido muito sobre a Ditadura Militar, o que não é uma leitura muito agradável de se fazer, ainda mais vendo tudo isso que está acontecendo com o Brasil.

Li também vários textos sobre os absurdos que acontecem no país , um atrás do outro, sem parar. Semana passada até fiquei meio doente e tenho quase 100% de certeza que grande parte foi uma reação à posse do Temer.

Já faz um tempo que o impeachment deixou de ser algo bizarro para ser algo bem triste. Ainda durante a copa, em 2014, lembro que a torcida vaiando a presidenta Dilma ainda representava algo distante e estranho (além de ser extremamente mal educado). Depois tiveram as primeiras manifestações que pediam o afastamento da presidenta, ou até a sua renúncia, e com isso muitos e muitos memes e piadas me fizeram rir e pensar que toda essa galera gritando de verde e amarelo era bem louca, e o que e seus pedidos estavam bem distantes da realidade. Afinal, a Dilma havia vencido as eleições, não é mesmo? Vi o surgimento da maravilhosa página do facebook Humans of Protesto e acompanhei através dela a cobertura de algumas manifestações na Av. Paulista. Todas com requintes de excentricidade e banalidade, o suficiente para fazer uma boa piada e seguir com a vida.

Contudo, desde o começo desse ano que, pelo menos para mim, tudo isso deixou de ter o colorido de bizarrice, de loucura e de ignorância para ser bem perigoso. Foi quando vi selfies com policiais militares e pessoas fantasiadas de CBF, cartazes pedindo a volta dos militares, pessoas dizendo que a censura, os presos políticos, as pessoas torturadas e assassinadas, a falta de liberdade de expressão, foram apenas acidentes de percurso de um governo que só fez o bem do Brasil. Ou pior: pessoas que acreditavam que aquilo mesmo que deveria acontecer, e que nunca deveria ter sido eleita como presidenta do país uma mulher, ainda mais ex-guerrilheira. Todo o preconceito, falta de consciência história, machismo, misoginia me acertou como um soco na cara: aquilo também é o mundo em que vivo, aquelas pessoas são reais, não são memes, elas não estavam lá dizendo abobrinhas, quer dizer, estavam, mas elas realmente acreditavam naquelas abobrinhas.

Conforme o processo de impeachment seguia seu curso, as coisas ficavam cada vez mais sombrias e a minha querida e amada bolha esquerdista e feminista em que vivo foi ficando cada vez mais aparente e menor. Não que pessoas que conheço e gosto começaram a apoiar o golpe, mas continuar a viver despreocupadamente, achando até graça nos panelaços, não era mais possível. Comecei aí a me sentir oprimida. Fui um dia com um amigo na frente do prédio da Fiesp, logo depois que começou aquele “acampamento” anti-Dilma. Estavam lá amarrados bem na frente do prédio o famoso pato e o pixuleco. Paramos lá e fiquei observando, bem curiosa, como aquilo funcionava. Eles tinham um daqueles jogos de colocar a cabeça num corpo de papelão para tirar fotos, que normalmente é de algum personagem, mas o deles era de policiais federais durante a Lava-Jato. Além disso, um grupo segurando uma faixa “Buzine para o impeachment”, ou algo parecido, iam no meio da rua, na frente dos carros toda vez que o semáforo fechava, causando uma profusão de buzinas imensa, além dos gritos e assovios. Achei tudo um espetáculo de bizarrices. Nos primeiros minutos que fiquei lá foi até engraçado, senti um pouco de medo do meu ~estilo~ de fflchiana me denunciar naquela massa verde-amarela, mas ninguém nos abordou. Eu e meu amigo fomos então analisar os bonecos infláveis, fazendo planos mirabolantes de como estourá-los na próxima manifestação. Ainda era meados de março e eu nem imaginava o que viria pela frente, mas na volta para casa, comecei a me sentir pequena, como se tivesse acontecido o inverso: aquilo que eu acreditava ser o certo para o país fosse o motivo de piada.

Algumas semanas depois disso, aconteceu aquela tenebrosa votação da Câmara dos deputados. Se eu as vezes já me sentia um pouco oprimida, depois daquilo foi inevitável. Ainda mais sendo mulher, ver todos aqueles homens distorcendo tudo o que politica pública representa, me deu vontade de chorar. E foi isso que fiz. Acompanhei a votação por um link, sem ver os discursos, como se fosse placar de jogo de futebol, deitada na cama e com os olhos inchados de lágrimas, incapaz até de mudar a aba do navegador para a Netflix e tentar me distrair com alguma série.

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Mesmo depois de tudo aquilo, eu não queria  falar sobre, fazer um post no facebook ou aqui. Minha timeline estava cheia de textões bem lúcidos, informes, algumas tiradas engraçadas, não achava que acrescentaria nada à discussão ao oferecer meu humilde ponto de vista. Mas aí o senado aprovou o pedido de impeachment, a presidenta foi afastada, Michel Temer assumiu e colocou ao seu lado mais homens brancos para compor seu governo, como se já não tivéssemos homens brancos suficientes para ditar nossas vidas. Na faculdade, em casa, no bar da esquina, era difícil não se falar sobre isso. O que diabos está acontecendo com o Brasil?

No dia em que a Dilma saiu da presidência, eu estava no hospital tomando soro e remédios na veia. Meu pai, que estava comigo, tentou colocar esse assunto em pauta, mas eu estava tão abatida que não consegui formular uma sentença direito, preferi ficar lendo meu livro (o último de uma saga chamada “Raven Cycle”, ou “Saga dos Corvos”, no Brasil. Eu recomendo fortemente a leitura, são livros maravilhosos). No caminho de volta para casa ligamos o rádio. Um professor da USP estava sendo entrevistado e foi questionado sobre o próximo passo da, agora, oposição ao governo. Para ele, o governo Temer irá sofre fortemente com a grande resistência da esquerda, não será fácil o aceitamento das decisões retrógradas que serão tomadas, os movimentos sociais não aceitarão os cortes que irão sofrer sem luta, ele disse. Eu e meu pai ouvimos aquilo atentamente e respiramos um pouco mais aliviados. Havia ainda pessoas pensando parecido com a gente, resistindo, assim como nós.

A minha faculdade está de greve, assim como o restante dos estudantes e funcionários da USP. Mesmo sabendo de cor e salteado todos os lados ruins de greves; as aulas perdidas, o esvaziamento da universidade, o estresse,  falta de certezas, perigo de cancelamento do semestre, etc e tal, e mesmo a minha falta de vontade de participar mais ativamente do movimento estudantil e minhas milhares ressalvas com a forma que é feita política na USP, uma das coisas que mais me irritam nesses períodos é quando colegas estudantes se descabelam preocupados com suas formações, suas notas, seus trabalhos. O que mais se vê nos grupos da faculdade são posts do tipo: “tal professor vai dar aula na greve?”. Na primeira greve de estudantes que participei na faculdade, uma professora resolveu reunir seus alunos não para dar aula (afinal estávamos de greve), mas para conversar sobre aquilo tudo que estava acontecendo. Eu ainda não entendia qual deveria ser meu posicionamento sobre a greve, se queria participar ou se queria ter aula. Era o meu segundo ano de faculdade minha primeira experiência do tipo. Lembro até hoje dela falando que, numa situação como a de greve, não importa muito suas decisões como indivíduos, mas sim como coletivo. A nossa categoria de estudantes havia votado pela greve, então; consequentemente, como boa estudante que sou, deveria respeitar essa decisão. Foi uma fala tão simples e lógica, mas me marcou profundamente. Era quase óbvio. Numa universidade pública, bancada por dinheiro público, a decisão de um coletivo de pessoas tomada em uma assembleia democrática deveria ser soberana diante da decisão pessoal de um indivíduo. Assim, talvez um professor  que não concordasse com a greve quisesse dar aula, nós, estudantes em greve não iríamos para a aula. Sem alunos não há aula. Juntos nós estaríamos protegidos. É o mesmo agora. Junto das pessoas que pensam como eu, que são contra às mesmas coisas que eu sou contra, me sinto mais protegida, me sinto representada. Por mais que me sinta sozinha nesse mundo opressor, eu sei que há várias outras pessoas assim como eu, e que juntas ficamos melhor. E é isso me tranquiliza.

 

PS: esse final saiu mais otimista e com uma vibe “juntos venceremos” do que esperava no começo do post. Mas deixarei assim. Acho que é preciso registrar esses raros momentos positivos em frente aos acontecimentos recentes. Eu comecei com a intenção de falar sobre o que estava lendo e acabei falando sobre tudo o que queria evitar de falar. Me senti satisfeita.